Olá! Como estão? Enfim chegamos a semana de
apresentação dos grupos do trabalho de “caracterização da Sociedade Romana”. Ao
longo desta semana estaremos usando ao máximo nossa imaginação para recriar e
recontar um pouco do que foi o Império Romano. Estaremos também fechando nossos
assuntos para partirmos para o que foi o fim do Império Romano no Ocidente com
a queda da Cidade de Roma. Esta então será uma postagem especial, com boa parte
de assuntos que tratamos em sala de aula e que complementará outros aspectos
que infelizmente não temos tempo suficiente de abordar, mas que em nosso espaço
aqui podemos livremente falar e você aluno(a) poderá sempre consultar quando
tiver um tempinho. Pois bem, então recline-se em sua cadeira, leia com atenção
os pontos deste texto a seguir e havendo novas dúvidas venha compartilhar em
aula, pois é assim que estamos este ano trabalhando cada vez mais para você
desenvolver ao máximo o seu potencial. Deixe a imaginação guiar seus passos...
ROMA NA IDADE DA
PEDRA
Por volta de 200.000 anos atrás, segundo pesquisas
havia poucas pessoas vivendo na Itália. Nós sabemos a respeito delas, através
dos vestígios que deixaram (por exemplo, machadinhas e ferramentas rudimentares
feitas de pedra lascada) encontradas em sítios arqueológicos a oeste de Roma em
“Torrimpietra”. Eles ainda não eram os humanos modernos, mas uma espécie
diferente chamada “Homo Erectus” um dos ancestrais do homem moderno. Mais “Homo
Erectus” e depois “Neanderthals”, viveram perto de Roma por volta de 100.000
anos atrás. Mas as primeiras pessoas que
foram geneticamente idênticas aos modernos italianos, os “Homo Sapiens Sapiens”,
só apareceriam no alto Paleolítico (a idade da pedra), por volta de 12.000 anos
atrás. Essas pessoas em analise genéticas atuais originalmente teriam vindo do
oeste da Ásia. Elas deixaram como vestígios ferramentas de pedra, inscrições em
cavernas e ossos, mas não tão destacadas como as pinturas e vestígios
encontrados nos dias de hoje na França e Espanha, que são datadas do mesmo
período, o que indica que ainda não havia muitos grupos humanos na Itália
naquela época. A grande mudança ocorreu por volta de 5.000 anos atrás (no
chamado período Neolítico) quando mais pessoas chegaram a Itália. Ao que parece
elas vieram da Grécia, em barcos/canoas cruzando o oceano, utilizando as novas
tecnologias desenvolvidas no período: eles sabiam como plantar e colher, como
fazer potes de barro e construir casas. Junto com eles trouxeram animais que
tinham domesticado ou que utilizavam para se alimentar como vacas e ovelhas
(atividade pastoril). Eles construíram diques para represar e utilizar a água
para as suas plantações e construíram também muros para proteger suas vilas na
região Sul da Itália contra animais selvagens e estrangeiros. Os ossos das
pessoas de uma destas vilas, “Ripa Tetta”, mostram hoje para nós coisas muito
interessantes: mulheres na vila tinham seus dentes arrancados de propósito,
talvez para fazê-las mais bonitas (como ganhando um piercing de língua ou
partindo-a tornando ela bifurcada como a de uma serpente). No geral
apresentavam terríveis cavidades em seus dentes pela falta de cuidado. Há
evidencias nos ossos, que mostra que o grupo era violento (ossos quebrados e
calcificados). Mas no geral ao seu modo eram saudáveis, praticavam exercícios e
pelo tamanho do grupo, não apresentavam doenças infecciosas que poderiam ser
uma ameaça ao próprio grupo.
Por volta de 3500 anos atrás, no final do Neolítico,
essas populações foram gradualmente se espalhando também para o norte da Itália,
motivados pelo empobrecimento do solo que dificultava o plantio. Alguns deles
moveram-se muito próximos ao que seria Roma. Por volta do ano 3000 a.C., no fim
da Idade da Pedra, essas pessoas já sabiam como utilizar uma metalurgia
rudimentar e faziam trocas destes pequenos pedaços de metal com seus vizinhos
gregos.
Roma na Idade do
Bronze
Os povos da Itália aprenderam como usar o bronze
com os povos do oeste da Ásia, muito provavelmente com os Fenícios, que faziam
trocas com eles. Mas o bronze era muito caro. Ferreiros faziam bronze a partir
do cobre e estanho, mas não havia estanho na Itália. Para consegui-lo viajavam
até a região que hoje é a Inglaterra ou voltavam ao oeste da Ásia. Então muitas
pessoas ainda usavam pedra, madeira ou ferramentas feitas a partir de ossos.
Somente ricos conseguiam usar bronze e isto gerava disputas entre as aldeias.
Na Idade do Bronze, a Itália tinha uma rede pequenas aldeias independentes que
as vezes formavam ligas para lutar juntas (como os gregos fizeram ,por exemplo,
para lutar na Guerra de Tróia) e as vezes não.
Por volta de 2000 a.C., estas aldeias foram
invadidas e dominadas por outros povos vindos da Grécia e Alemanha. A língua
que estes invasores passaram a falar gradualmente na Itália foi o Latim, mas
também havia línguas como a dos Sabinos e muitas outras que infelizmente se
perderam com o tempo. Estes invasores trouxeram com eles cavalos e a tecnologia
de fabricação de objetos de argila e muitas outras invenções.
Etruscos
Já realizamos em nosso blog, um estudo mais apurado
da sociedade etrusca e da sua importância para a formação dos romanos. Então
vamos tratar rapidamente em linhas gerais, o que foi a participação etrusca. Eram
chamados Τυρσηνοί, tyrsenoi, ou Τυρρηνοί, tyrrhenoi, pelos gregos e tusci, ou
depois etrusci, pelos romanos; eles auto-denominavam-se rasena ou rašna.
Desconhece-se ao certo quando os Etruscos se
instalaram aí, mas foi provavelmente entre os anos 1200 e 700 a.C.. Nos tempos
antigos, o historiador Heródoto acreditava que os Etruscos eram originários da
Ásia Menor, mas outros escritores posteriores consideram-nos italianos. A sua
língua, que utilizava um alfabeto semelhante ao grego, era diferente de todas
as outras e ainda não foi decifrada, e a religião era diferente tanto da grega
como da romana.
A Etrúria era composta por cerca de uma dúzia de
cidades-estados (Volterra, Fiesole, Arezzo, Cortona, Perugia, Chiusi, Todi,
Orvieto, Veio, Tarquinia, Fescênia, etc.), cidades muito civilizadas que
tiveram grande influência sobre os Romanos. A Fescênia, próxima a Roma, ficou
conhecida como um local de devassidão. Versos populares licenciosos, na época
muito cultivados entre os romanos, ficaram conhecidos como versos fesceninos
(obscenos).
Os últimos três reis de Roma, antes da criação da
república em 509 a.C., eram etruscos. Verificaram-se prolongadas lutas entre a
Etrúria e Roma, terminando com a vitória desta última nos anos 200 a.C..
A Roma
Mitológica
Quando Roma tornou-se a cidade mais importante do
mundo, era preciso que se lhe desse uma origem mítica e esplendorosa, que
deixasse aquém a verdade de ter sido fundada por simples pastores. Desprovidos
da tradição escrita na época da fundação, a Roma emergente, poderosa e dona do
mundo antigo, utilizou-se da tradição oral para explicar poeticamente, através
de várias lendas existentes, o seu nascimento. Movidos pela assimilação da
cultura helênica, os romanos tomaram para si vários dos deuses da mitologia
grega, assimilando-os aos seus próprios. Aceitar abertamente a influência da
cultura dos helenos era para os romanos um acinte no orgulho latino. Para
contrapor-se aos gregos, os romanos foram buscar como fundador um descendente
do mito de Enéias, herói troiano, único sobrevivente da guerra, que teria
fugido da Ásia Menor e aportado na península Itálica. Da prole de Enéias
surgiriam os gêmeos Rômulo e Remo, filhos do deus Marte com uma mortal. Rômulo
teria sido o fundador da maior cidade da antiguidade e o seu primeiro rei. Ao
proclamarem Rômulo como fundador de Roma, os romanos davam à cidade uma
independência aparente da cultura helênica, fazendo dos troianos, maiores
inimigos dos gregos, vencedores de uma guerra vencida pelos latinos, além de
atribuírem a origem divina à cidade que se tornara a mais poderosa do mundo. Nas
bases de Roma, os gêmeos amamentados por uma loba, escolheram erguer uma cidade
em lugares diferentes. Remo escolheu o monte Aventino, Rômulo o Palatino. A
escolha de Rômulo foi aplaudida pelos deuses. Desdenhado, Remo provoca o irmão
até que é morto por ele. A cidade ergue-se na sua colina mais famosa, vertendo
o sangue de um dos gêmeos, numa demonstração do sangue que se deveria derramar
para que se tornasse a capital do maior império do mundo antigo. Rômulo é o
lado místico e imortal da cidade que se iria denominar eterna. É o glamour do
pastor transformado em filho do deus da guerra, do guerreiro conquistador
opondo-se ao agricultor do início de uma cidade que se mostraria imprescindível
na formação da civilização moderna.
Enéias, Um
Sobrevivente Troiano
Para não se ofuscar à superioridade cultural dos
gregos, os romanos, quando no apogeu do seu poder, criaram um mito que se
igualava a Aquiles em bravura, e a Odisseu (Ulisses), em inteligência
estratégica. Enéias foi situado em Tróia, sendo o inimigo dos gregos que não
sucumbiu a eles.
Enéias era filho da deusa do amor Afrodite (Vênus), fruto do seu romance com o mortal e pastor Anquises. Assim, o mito dá o aspecto divino aos descendentes de Enéias, fazendo-o simultaneamente, o herói que os helenos não conseguiu destruir.
O mito de Enéias surge imponente em pleno final da guerra de Tróia, quando a cidade em chamas, é reduzida a ruínas. Casado com Creúsa, filha do rei Príamo, soberano troiano, ele perde a mulher durante a fuga, sendo ela consumida pelo fogo. Já morta, Creúsa aparece como uma sombra, ordenando ao marido que parta e leve o filho Ascânio, profetizando que seria pai de reis poderosos e de um novo reino em terras distantes. Enéias obedece, deixando a cidade, levando consigo o filho Ascânio, neto de Príamo, último rei de Tróia, o pai Anquises, e vários cidadãos troianos sobreviventes da catástrofe da guerra.
Enéias era filho da deusa do amor Afrodite (Vênus), fruto do seu romance com o mortal e pastor Anquises. Assim, o mito dá o aspecto divino aos descendentes de Enéias, fazendo-o simultaneamente, o herói que os helenos não conseguiu destruir.
O mito de Enéias surge imponente em pleno final da guerra de Tróia, quando a cidade em chamas, é reduzida a ruínas. Casado com Creúsa, filha do rei Príamo, soberano troiano, ele perde a mulher durante a fuga, sendo ela consumida pelo fogo. Já morta, Creúsa aparece como uma sombra, ordenando ao marido que parta e leve o filho Ascânio, profetizando que seria pai de reis poderosos e de um novo reino em terras distantes. Enéias obedece, deixando a cidade, levando consigo o filho Ascânio, neto de Príamo, último rei de Tróia, o pai Anquises, e vários cidadãos troianos sobreviventes da catástrofe da guerra.
O mito de Enéias iguala-se ao do herói grego
Aquiles e do herói troiano Heitor. Em Ascânio está a vingança erudita romana
sobre a civilização helênica, fazendo dos antepassados do fundador de Roma neto
de um eminente soberano inimigo. A saga de Enéias, a partir das ruínas de
Tróia, até aportar no Lácio, é epicamente contada na “Eneida”, de
Virgílio (70 a.C. – 19 a.C.), numa versão latina que lembra a “Odisséia”,
de Homero (século IX a.C.). Enéias aporta na ilha dos Ciclopes, onde habita
Polifemo, que tinha o seu único olho no meio da testa vazado por Ulisses. Assim
como o herói grego, Enéias escapa à fúria do Ciclope. Em Cartago vive uma
tórrida paixão com Dido, a rainha do lugar. Ali fica, até que Júpiter ordena a
sua partida, pois tem planos para ele em outras terras. Por ordem divina,
Enéias abandona a bela amante. Ao ver o navio do amado distanciar-se no
horizonte, Dido decide pôr fim à vida. Manda erguer uma pira, simulando ao seu
povo um sacrifício aos deuses. Deitada sobre a pira, Dido trespassa mortalmente
uma espada no corpo, lançando um derradeiro grito no ar. Seu corpo é devorado
pelo fogo da pira que mandara os súditos erguerem. Em alto mar, Enéias as
vê chamas que ardem em Cartago, sem saber que elas devoram o corpo da amada.
Durante toda a sua peregrinação pelo mar Mediterrâneo, Enéias é perseguido por
Hera (Juno), a poderosa deusa mulher de Júpiter, que odeia os troianos. Mas o
senhor dos deuses protege o guerreiro e herói troiano.
Ao aportar na península itálica, Enéias encontra-se com Heleno, que o conduz até a caverna da Sibila de Cumas, sacerdotisa do deus Apolo. A profetisa leva Enéias ao Érebo, onde se encontra com Anquises, o pai morto. Anquises mostra ao filho o futuro glorioso dos seus descendentes, e como irá dominar o Lácio.
Enéias e os troianos sobreviventes aportam no Lácio. O herói é recebido com alegria por Latino, rei do lugar. Ao conhecer Lavínia, filha de Latino, Enéias apaixona-se por ela. Mas a bela princesa está prometida a Turno, o rei dos rútulos. Apesar do compromisso, Latino tende a entregar a filha para o forasteiro troiano, pois pouco tempo antes dele chegar, o fantasma do pai morto aparecera-lhe, avisando-o de que um genro vindo de longe transformaria o seu reino no mais importante do continente, fazendo-o imortal na memória do povo. Latino identifica Enéias como o herói da profecia. Entrega ao troiano a filha como esposa. Ao saber que Lavínia seria dada em casamento a Enéias, Turno desencadeou uma longa e sangrenta guerra contra os troianos. Turno juntou os latinos e os rútulos contra os troianos, tendo ainda, o apoio de Mezêncio, rei exilado dos etruscos. Acossados, Enéias e os troianos sentem que serão aniquilados. Em sonho, os deuses aconselham o troiano a procurar Evandro, rei da Pantaléia. Inimigo declarado de Mezêncio, Evandro junta os exércitos etruscos, comandados pelo filho Palas, aos troianos, numa luta sangrenta contra os latinos e os rútulos.
No meio das batalhas, Palas tomba de um lado, e Mezêncio do outro. No combate final, entre Enéias e Turno, o troiano mata o rútulo. Com a vitória, Enéias toma Lavínia como esposa, fundando ao seu lado uma cidade que recebe o nome de Lavínio. Juntos, troianos e latinos formam um povo único. A derrota de Tróia pelos gregos está vingada. De Enéias, o troiano, virá o fundador de Roma, que irá subjugar os gregos e toda a cultura helênica.
Ao aportar na península itálica, Enéias encontra-se com Heleno, que o conduz até a caverna da Sibila de Cumas, sacerdotisa do deus Apolo. A profetisa leva Enéias ao Érebo, onde se encontra com Anquises, o pai morto. Anquises mostra ao filho o futuro glorioso dos seus descendentes, e como irá dominar o Lácio.
Enéias e os troianos sobreviventes aportam no Lácio. O herói é recebido com alegria por Latino, rei do lugar. Ao conhecer Lavínia, filha de Latino, Enéias apaixona-se por ela. Mas a bela princesa está prometida a Turno, o rei dos rútulos. Apesar do compromisso, Latino tende a entregar a filha para o forasteiro troiano, pois pouco tempo antes dele chegar, o fantasma do pai morto aparecera-lhe, avisando-o de que um genro vindo de longe transformaria o seu reino no mais importante do continente, fazendo-o imortal na memória do povo. Latino identifica Enéias como o herói da profecia. Entrega ao troiano a filha como esposa. Ao saber que Lavínia seria dada em casamento a Enéias, Turno desencadeou uma longa e sangrenta guerra contra os troianos. Turno juntou os latinos e os rútulos contra os troianos, tendo ainda, o apoio de Mezêncio, rei exilado dos etruscos. Acossados, Enéias e os troianos sentem que serão aniquilados. Em sonho, os deuses aconselham o troiano a procurar Evandro, rei da Pantaléia. Inimigo declarado de Mezêncio, Evandro junta os exércitos etruscos, comandados pelo filho Palas, aos troianos, numa luta sangrenta contra os latinos e os rútulos.
No meio das batalhas, Palas tomba de um lado, e Mezêncio do outro. No combate final, entre Enéias e Turno, o troiano mata o rútulo. Com a vitória, Enéias toma Lavínia como esposa, fundando ao seu lado uma cidade que recebe o nome de Lavínio. Juntos, troianos e latinos formam um povo único. A derrota de Tróia pelos gregos está vingada. De Enéias, o troiano, virá o fundador de Roma, que irá subjugar os gregos e toda a cultura helênica.
Os Gêmeos Amamentados Por Uma Loba
Reza a lenda que Ascânio, o troiano, filho de Enéias, reinaria sobre Lavínio por trinta e três anos, até que fundou a cidade de Alba Longa, passando a coroa de Lavínio para o irmão Sílvio, fruto do casamento de Enéias com Lavínia. Ascânio governaria com sabedoria sobre Alba Longa, formando uma série de reis albanos legítimos, que se iria encerrar em Numitor, avô de Rômulo e Remo. No leito de morte, Procas, rei de Alba Longa, descendente direto de Ascânio, decidiu passar o trono a favor do filho Numitor, deixando os tesouros para o outro filho, Amúlio. Após a morte de Procas, Amúlio não acatou a decisão do pai. Com a ajuda de um exército mercenário, invadiu o palácio real, depondo o irmão Numitor, fazendo-o fugir, usurpando-lhe o reino de Alba Longa. Na fuga, Numitor deixou para trás seus dois filhos, um menino e uma menina. Temendo ser destronado pelo herdeiro do irmão, Amúlio mata o sobrinho e encerra a sobrinha num claustro, fazendo dela uma vestal, obrigada à castidade. Assim, Réia Silvia, a filha do rei deposto, dedica a sua vida à consagração da deusa da castidade, Vesta. Sua vida passa despercebida, até que um dia a sua fulgurante beleza foi descoberta por Marte, o deus da guerra. Ao vê-la caminhar pelos campos sagrados dedicados a Vesta, Marte queda-se de paixão pela jovem. Movido pela paixão, o deus persegue a vestal, tomando-a com violência nos braços. Da fúria daquela paixão, Réia Silvia viu crescer o seu ventre, trazendo ao mundo, nove meses depois, os gêmeos filhos de Marte.
Ao saber da
gravidez da sobrinha, Amúlio fica enfurecido. Prende-a na masmorra do seu
palácio, fazendo com que a infeliz mulher ficasse ali confinada, até o
nascimento dos gêmeos. Apesar de implorar pela vida dos filhos, Réia Silvia tem
os recém-nascidos arrancados dos braços, vendo-os atirados dentro de uma cesta,
nas águas do rio Tibre. Ao ver a cesta que levava os gêmeos boiando no Tibre,
Marte fez as águas subirem, atirando a cesta ao sopé do monte Cérmalo. Debaixo
de uma figueira, uma loba enviada pelo deus da guerra, encontra os gêmeos,
amamentando-os e protegendo-os do frio e dos outros animais silvestres. Rômulo
e Remo estão salvos da morte.
Devolvido o Trono de Alba Longa a Numitor
Numa tarde de verão, o pastor Fáustulo, ao
descansar à sombra de uma árvore, ouviu, ao longe, gritos alegres. Curioso, foi
até o local de onde vinha o som, deparando-se, com espanto, frente a duas
crianças robustas e rosadas, brincando com uma loba. Os pequenos puxavam as
patas do animal, acariciavam-lhe os pêlos, tomavam-lhe as tetas, sugando-lhes o
leite.
Fáustulo é descoberto pelo animal. Temendo ser atacado, ele recua. Mas a loba fixa-lhe os olhos com mansidão. O pastor aproxima-se das criaturas. Põe-se a contemplá-las por longas horas. No fim do dia decide levar as crianças para a sua casa. Há anos que ele e a mulher sonhavam com um filho, mas que jamais brotara do ventre matrimonial do casal. Fáustulo e a mulher, Aca Larência, criam os gêmeos como se fossem filhos legítimos. São chamados de Rômulo e Remo. Com o casal de pastores, os gêmeos aprendem os costumes humanos. Especializam-se na arte de pastorear grandes rebanhos. Enviados para Gabi, eles aprendem a utilizar o arco e a flecha, ao mesmo tempo em que se iniciam no domínio da escrita. Após o aprendizado em Gabi, voltaram para a cabana dos pais adotivos, ao pé do monte Palatino, ali vivendo como pastores.
Fáustulo é descoberto pelo animal. Temendo ser atacado, ele recua. Mas a loba fixa-lhe os olhos com mansidão. O pastor aproxima-se das criaturas. Põe-se a contemplá-las por longas horas. No fim do dia decide levar as crianças para a sua casa. Há anos que ele e a mulher sonhavam com um filho, mas que jamais brotara do ventre matrimonial do casal. Fáustulo e a mulher, Aca Larência, criam os gêmeos como se fossem filhos legítimos. São chamados de Rômulo e Remo. Com o casal de pastores, os gêmeos aprendem os costumes humanos. Especializam-se na arte de pastorear grandes rebanhos. Enviados para Gabi, eles aprendem a utilizar o arco e a flecha, ao mesmo tempo em que se iniciam no domínio da escrita. Após o aprendizado em Gabi, voltaram para a cabana dos pais adotivos, ao pé do monte Palatino, ali vivendo como pastores.
Os gêmeos viveram felizes, a pastorear os seus
rebanhos, até um dia que o roubo de uma ovelha indispôs Remo com um vizinho. A
pendência foi levada ao rei Amúlio. Ao ficar diante do rei, Remo mostrou-se
inteligente e de carisma instigante. Seduzido pela eloqüência do jovem, Amúlio
começou a fazer perguntas sobre a sua vida. Remo, embora sendo um modesto
pastor, tinha um porte de guerreiro que se lhe sobressaía, chamando a atenção
do ardiloso rei de Alba Longa. Ao saber que ele tinha um irmão gêmeo, o
soberano usurpador pressentiu que aquele era um dos filhos da sobrinha Réia
Silvia. Desconfiado daquela possível verdade, o rei mandou encarcerar o jovem
pastor. Ao pôr-se a par da prisão do irmão, Rômulo questionou Fáustulo sobre as
razões que levaram Amúlio a cometer um ato tão brusco. Diante das dúvidas do
filho, Fáustulo decidiu revelar-lhe todos os segredos em torno das suas
origens. Ele e Remo foram adotados quando crianças, sendo filhos do deus Marte
e da infeliz princesa Réia Silvia. Ao saber da verdade, Rômulo foi acometido de
uma ira implacável. Orientado pelo verdadeiro pai, o deus guerra, reuniu um
número significante de bravos guerreiros, e, sua na genuína raiz genética de
soldado belicoso, marchou para o palácio do rei usurpador.
Rômulo desencadeou uma violenta batalha. No
meio do seu exército, bradava como se fosse o próprio Marte, fazendo com que os
soldados do rei se rendessem a ele. Quando adentrou o palácio, pôs-se em frente
a Amúlio. Chegara a hora da vingança aos sofrimentos que o tirano impusera a
sua mãe Réia Silvia. Vingador, Rômulo trespassa a sua espada no corpo de
Amúlio, que cai morto, coberto de sangue, tendo tempo apenas de pedir clemência
aos deuses. O fim do reinado do usurpador chegara ao fim.
Após a morte de Amúlio, Rômulo libertou o irmão Remo. Juntos fizeram justiça ao reino de Alba Longa e à dignidade do seu antepassado, Ascânio, fundador da cidade. Depois de limpar o trono do sangue vil de Amúlio, os gêmeos tiraram a mãe, Réia Silvia, do confinamento nas masmorras do palácio, pondo fim ao seu longo sofrimento. Finalmente, Rômulo e Remo, os guerreiros filhos de Marte, proporcionaram a volta do avô Numitor a Alba Longa, entregando-lhe o trono usurpado.
Após a morte de Amúlio, Rômulo libertou o irmão Remo. Juntos fizeram justiça ao reino de Alba Longa e à dignidade do seu antepassado, Ascânio, fundador da cidade. Depois de limpar o trono do sangue vil de Amúlio, os gêmeos tiraram a mãe, Réia Silvia, do confinamento nas masmorras do palácio, pondo fim ao seu longo sofrimento. Finalmente, Rômulo e Remo, os guerreiros filhos de Marte, proporcionaram a volta do avô Numitor a Alba Longa, entregando-lhe o trono usurpado.
O Sangue de Remo
Banha o Muro de Roma
Ao subir ao trono de Alba Longa, Numitor decidiu
recompensar a bravura dos netos, entregando-lhes um território às margens do
rio Tibre, autorizando-os a erguerem uma cidade no local.
Movidos pelo entusiasmo de fundar uma nova cidade, os gêmeos dirigiram-se para o local que se lhe destinara o avô. Percorrem o lugar, sem saber onde exatamente deveriam edificar a nova cidade. Confusos, concordam que os deuses deveriam indicar o local. Rômulo parte para o monte Palatino, enquanto que Remo sobe o monte Aventino. Os deuses deveriam enviar o sinal do local mais favorável. Subitamente, sobre o Palatino começaram a voar doze abutres, enquanto que apenas dois pairavam sobre o Aventino. Os deuses indicavam o local onde estava Rômulo para que se fosse edificado o novo reino.
Rômulo deixa-se tomar pelo entusiasmo, pondo-se a traçar um sulco ao redor da montanha, utilizando para isto um arado atrelado a um touro e uma novilha. Ao ver o entusiasmo solitário do irmão, Remo sente-se excluído. Uma nuvem negra de ciúme toma-lhe o semblante. Remo passa a escarnecer o trabalho do irmão, dizendo-lhe que o muro por ele erguido seria facilmente transposto por bandoleiros. Rômulo nada diz, suporta calado às provocações do irmão.
As provocações de Remo são cada vez mais instigantes. Em um momento impensado, ele atravessa com um salto, o sulco proibido. Rômulo sente o sangue a subir-lhe à face. É tomado por uma cólera incontrolável. Com a espada em punho, dirige-se para o irmão, que recua assustado. Acossado, Remo pede piedade a Rômulo. Surdo pela fúria, Rômulo investe a espada sobre o irmão, que cai ferido mortalmente. Ao ver o sangue de Remo escorrer nas paredes do muro, Rômulo apercebe-se do ato que fizera. Cheio de pesar, corroído pelo remorso, ele debruça-se sobre o corpo do irmão.
Movidos pelo entusiasmo de fundar uma nova cidade, os gêmeos dirigiram-se para o local que se lhe destinara o avô. Percorrem o lugar, sem saber onde exatamente deveriam edificar a nova cidade. Confusos, concordam que os deuses deveriam indicar o local. Rômulo parte para o monte Palatino, enquanto que Remo sobe o monte Aventino. Os deuses deveriam enviar o sinal do local mais favorável. Subitamente, sobre o Palatino começaram a voar doze abutres, enquanto que apenas dois pairavam sobre o Aventino. Os deuses indicavam o local onde estava Rômulo para que se fosse edificado o novo reino.
Rômulo deixa-se tomar pelo entusiasmo, pondo-se a traçar um sulco ao redor da montanha, utilizando para isto um arado atrelado a um touro e uma novilha. Ao ver o entusiasmo solitário do irmão, Remo sente-se excluído. Uma nuvem negra de ciúme toma-lhe o semblante. Remo passa a escarnecer o trabalho do irmão, dizendo-lhe que o muro por ele erguido seria facilmente transposto por bandoleiros. Rômulo nada diz, suporta calado às provocações do irmão.
As provocações de Remo são cada vez mais instigantes. Em um momento impensado, ele atravessa com um salto, o sulco proibido. Rômulo sente o sangue a subir-lhe à face. É tomado por uma cólera incontrolável. Com a espada em punho, dirige-se para o irmão, que recua assustado. Acossado, Remo pede piedade a Rômulo. Surdo pela fúria, Rômulo investe a espada sobre o irmão, que cai ferido mortalmente. Ao ver o sangue de Remo escorrer nas paredes do muro, Rômulo apercebe-se do ato que fizera. Cheio de pesar, corroído pelo remorso, ele debruça-se sobre o corpo do irmão.
Brada aos deuses que o tragam à vida.
Com o rosto coberto de lágrimas, abraça Remo,
sentindo-lhe as faces geladas pela morte. Rômulo pensa em dar fim à vida, de
que lhe valia continuar sem a outra parte de si mesmo? Chora compulsivamente
sobre o corpo do irmão. Já no fim da tarde, após derramar todas as lágrimas,
Rômulo levantou-se. Tomou o corpo do irmão nos braços e o levou até o monte
Aventino, ali enterrando o seu gêmeo. Após o ato fúnebre, voltou ao árduo
trabalho de erguer a sua cidade. Era o que lhe restara na vida, erguer a cidade
que já nascia com o muro coberto pelo sangue de Remo.
Assim, no monte Palatino, após verter o sangue de Remo, Rômulo edificou, tijolo por tijolo, uma cidade que deu o nome de Roma. Seria grandiosa, nascida sobre a marca da tragédia, pronta para verter o sangue todas às vezes que se lhe fosse preciso para que existisse e crescesse soberana, onipotente ao mundo.
Assim, no monte Palatino, após verter o sangue de Remo, Rômulo edificou, tijolo por tijolo, uma cidade que deu o nome de Roma. Seria grandiosa, nascida sobre a marca da tragédia, pronta para verter o sangue todas às vezes que se lhe fosse preciso para que existisse e crescesse soberana, onipotente ao mundo.
Monarquia
Rex: o rei para
os romanos
A organização política romana inicial foi de tipo
monárquico. Não só a tradição, mas também a arqueologia, que como já tratamos
em sala, auxilia o trabalho do historiador, confirmam essa ideia.
Os sete reis apontados são: Rômulo, Numa Pompílio, Túlio Hostilio, Anco Márcio, Lúcio Tarquínio Prisco, Sérvio Túlio e Tarquínio, o Soberbo.
No que se refere aos quatro primeiros, muitos
historiadores entendem que a lista de reis fora estabelecida pelos
historiadores romanos por volta do século III a.C., o que confirmaria a
existência de todos os sete reis. Os quatro primeiros foram latinos e sabinos,
enquanto os últimos três teriam sido etruscos.
Assim como a família e o povo contavam com seus
sacerdotes, a cidade também tinha um responsável pelos sacrifícios, festas
religiosas e demais deveres do povo para com os deuses. Rômulo, o primeiro rei
de Roma, instruído em “ciência augural”(presságios), foi quem celebrou a
cerimônia de fundação da cidade. Era, portanto, uma espécie de sacerdote do lar
público. Era ele quem conhecia as fórmulas sagradas da oração às quais os
deuses não poderiam resistir. Mesmo a coroa, que hoje temos como insígnia do
poder monárquico, nada mais era que um símbolo exterior religioso, que
acompanhava a oração e o sacrifício, usado nos coros e nas procissões.
Fustel de Coulanges, perito em História Romana, que
escreveu o livro “A cidade antiga”, nos diz que este tipo de realeza
político-religiosa se estabeleceu em praticamente todas as cidades daquela
região. E o que se pode perceber da leitura dos textos antigos é que uma mesma
pessoa costumavam ter diversas funções como: ministrar justiça, dirigir a
política e zelar pela religião da cidade. Mas, entretanto, não podemos dizer
que o Rex costumasse governar sozinho. Aliás, a própria estrutura inicial da
cidade (confederação de tribos ou gentes) fazia com que o Rei fosse levado a
consultar os chefes das famílias confederadas sobre os assuntos mais
importantes. Além disso, o sistema de crenças que legitimava a organização
social daqueles romanos, ordenava o respeito à autonomia das famílias e à
autoridade de seus chefes. Lembra-se que em aula tratamos que a importância dos
patrícios vinha diretamente da sua participação na fundação de Roma ? Consegue
entender agora um pouco mais a respeito ? Que bom !
Outra característica da monarquia romana é que esta
foi eletiva, e não hereditária. O processo eleitoral, conforme se deu na
eleição de Numa, consistia na escolha do nome pelo senado, que posteriormente
deveria receber a sanção da assembléia por cúrias. Por fim, os áugures(presságios)
deveriam verificar se a escolha dos romanos estava de acordo com a vontade dos
deuses. Na maioria dos estudos, contudo, a versão que mais conta com adeptos é
a de que o rei escolhia o seu sucessor.
O rapto das
Sabinas
Diz a lenda que, como a população era constituída
só de homens, Rômulo organizou um festival a Netuno e convidou os sabinos, povo
vizinho, com suas filhas e mulheres(em outros relatos a festa muda para uma
disputa olímpica entre os campeões das duas cidades). No auge das festividades,
os romanos raptaram as sabinas solteiras e viúvas, levando-as para Roma. Os
sabinos, reunidos sob o comando de Tito Tácio, atacaram Roma e, com a ajuda de
Tarpéia, conseguiram penetrar no Capitólio. Na batalha final, as sabinas, que
já se haviam habituado à sua nova vida, interferiram para impedir a carnificina
entre seus pais e maridos. Graças à intervenção pacificadora das mulheres,
romanos e sabinos assinaram um tratado de paz. Os sabinos, com isso, se
integraram a Roma, compondo a tribo dos Tities. Tito Tácio e Rômulo passaram a
governar em conjunto. A partir daí os reis se revezavam: um latino, um sabino,
sucessivamente.
Bom, vamos falar um pouco agora individualmente de
cada um dos reis de Roma...
Rômulo
O primeiro rei reconhecido de Roma foi o seu mítico
fundador Rômulo. A ele também é atribuída a fundação do Senado. A partir dele
se inicia a campanha de expansão da população, através da garantia de refugio e
segurança e mesmo de criminosos nas colinas Capitolinas. Ele expande os limites
da cidade até as quatro colinas: Capitolina, Aventino, Celio e Quirinal. Após o
“rapto das Sabinas” como comentado, reina junto de Tito Tácio.
Após a morte de Tito Tácio, Rômulo reinou sozinho
durante 33 anos. Segundo Varrão (753 a.C. e 715 a.C.), Rômulo, ainda como
primeiro rei de Roma, criou um Senado de cem patres (patrícios), dividindo
também a população em trinta cúrias e três tribos: os ramnenses, os ticienses e
os lúceres. Criou também a primeira legião. Foi chamado Pai da Pátria. Aos 54
anos, enquanto passava em revista as tropas, irrompeu terrível tempestade,
acompanhada de um eclipse solar. Passada a tormenta, o rei sumira. Em sonho,
revelou a Próculo que fora raptado pelos deuses e se transformara no deus
Quirino (originalmente o deus da guerra Sabino). Os romanos por causa disto
costumavam também se autodenominar “quirinos”. Ao que parece na verdade, Rômulo
por todo o seu histórico de vida foi traído pelos senadores por ter se tornado
um tirano.
Numa Pompílio
Numa Pompílio ascendeu ao poder cercado pela
controvérsia a respeito da morte de Rômulo. Como já dito após a morte de
Rômulo, imediatamente o senador Julio Próculo disse que em sonho havia sido
avisado que o antigo rei havia se tornado o deus Quirino. Isso absolveu o
Senado de quaisquer suspeitas e claramente indicava o caminho para o próprio
Próculo tornar-se rei, pois o sonho seria
benção do próprio rei anterior para que este tomasse o poder. Todavia o
povo romano não aceitou esta transmissão a um possível assassino. Desde a morte
de Tito Tácio, Roma era vinha sendo governada por um romano, logo os Sabinos
reivindicaram o direito a ter na sucessão um Sabino.
A escolha foi Numa Pompilio. Um homem que não
queria o cargo. Ao contrário de Rômulo, Numa não era um rei guerreiro, mas um
religioso. Foi a partir de seu reinado por exemplo, que as sacerdotisas “Virgens
Vestais” passaram a ganhar destaque em Roma. Numa segundo a tradição também é o
responsável por adicionar ao calendário os meses de Janeiro (em homenagem aos
deus Janus) e Fevereiro e de estabelecer a contagem de 360 dias por cada ano.
Durante os 43 anos de reinado de Numa, Roma passou
por um período de paz. A tradição diz que seu governo sábio era guiado pelos
deuses. Para os romanos, o rei Numa Pompílio foi o pai de sua cultura; o homem
que transformou semi-barbaros, criminosos e ladrões de noivas de Rômulo em uma
florescente civilização. Para os romanos então, Numa foi um grande guia na
criação de sua identidade como povo.
Túlio Hostilio
Com a morte do pacifico Numa Pompílio o poder caiu nas mãos de alguém
que adorava a guerra: Túlio Hostílio. Numa Pompílio havia sido um homem que
procurava ser diplomático em suas ações e promover a reconciliação, enquanto o
seu sucessor Túlio Hostílio era alguém que procurava resolver os problemas pela
espada.
Quando disputas acontecem entre Roma e seus vizinhos de Alba Longa,
Túlio declara guerra. Pelos vários laços entre as duas cidades, acabaria sendo
uma guerra civil. Para evitar o massacre entre os dois exércitos, os dois
lideres Túlio Hostilio por Roma e Mettius Fufetius por Alba Longa, decidem
realizar um torneio de campeões. Três irmãos de cada lado que lutariam no lugar
dos exércitos. Pelos romanos, lutaram os irmãos Horácios e por Alba Longa,
lutaram os irmãos Curiácios. A disputa termina com a vitória de Marcos Horácio
por Roma. Com a derrota Alba longa jura fidelidade a Roma. Mas o rei Mettius
não cumpre o acordo e busca se aliar a outro vizinho os Fidenates. Quando os
exércitos de Roma encontram os de Fidenates, eles mudam de lado e os dois
enfrentam Alba Longa, destruindo a cidade. Os remanescentes juram fidelidade e
se mudam para as colinas Celio.
Com o aumento da população, o Senado se expande e passa a ocupar a parte
oeste de Roma aos pés da colina Capitolina. E lá permanece durante toda a
história de Roma e em homenagem ao construtor do novo espaço recebe o nome de
“Curia Hostilia”. Túlio também é responsável por subjugar outros vizinhos e
forçarem eles a fazer paz com Roma.
No final de sua vida, Túlio temia ser castigado pelos deuses por sua
violência. Tornou-se bastante religioso, fazendo grandes oferendas de
sacrifício, mas sem sucesso, pois segundo a lenda, sua morte se deve a um raio
que o atinge e mata.
Anco Márcio
O quarto rei de Roma e neto de Numa Pompílio, Anco
Márcio foi escolhido para restaurar a paz como havia feito seu avô. Seu primeiro
teste foi o combate a tribo dos então chamados Velhos Latinos (prisci latini).
Anco então para a surpresa de todos mostrasse um grande guerreiro, tanto quanto
um bom administrador vencendo os Velhos Latinos e anexando seu território a
Roma. A parte conquistada corresponde a colina Aventino. A tradição também diz
que Anco funda a cidade de Ostia. Mas pesquisas arqueológicas indicam que Ostia
foi fundada em uma era posterior. Roma tinha interesse no controle desta região
para ter acesso aos bancos de sal, depositados próximos ao rio Tibre. Ao final
de sua vida Anco Márcio morre segundo a tradição como um rei respeitado.
Lúcio Tarquínio Prisco
(também chamado “Tarquínio, o velho)
O quinto rei de Roma tem a sua volta histórias
difíceis de separar dos mitos (assim como os reis anteriores). Segundo a
tradição, Tarquinio, o velho saiu da cidade etrusca de Tarquinii. Seu pai,
Demaratus foi um nobre da cidade de Corintios que fora forçado a abandonar a
cidade (655 a.C.) quando o tirano Cypselus assumiu o poder. Este elo com os
gregos é uma possível evidencia das trocas em Tarquinii. Mas também significa
um forte posicionamento dos historiadores romanos em negar que haviam sido
governados por etruscos.
A lenda conta que ao entrar na cidade de Roma uma
águia, deixou cair uma pena que conscientemente depositou no chapéu de
Tarquinio, depois retomando seu vôo. Evidentemente Tarquinio era um favorecido
pelo destino. Para ampliar este favorecimento, Tarquinio troca ate o seu
sobrenome etrusco “Lucumo” pelo latino Lúcio (Lucius). Não se sabe ao certo se
pelo próprio esforço ou pela figura de sua mulher Tanaquil, uma aristocrata
etrusca, mas Tarquinio consegue varias conexões e passa a uma posição de
destaque no reinado de Anco Márcio. Ele torna-se guardião dos dois filhos de
Anco. Segundo a história quando Anco Márcio morre, Tarquinio, convence seus
dois filhos a irem caçar enquanto ele prepara a cerimônia do funeral. Quando
eles retornam encontram Tarquínio no trono. Ele usou a ausência dos filhos de
Anco para convencer os romanos e garantir que votassem nele. Como já dissemos
aqui a monarquia em Roma não era hereditária. Sob o comando de Tarquínio, Roma
vence as batalhas contra os seus vizinhos Sabinos, Latinos e Etruscos que
confiavam ter posição de destaque com a cidade enfraquecida pela perda do rei.
É Tarquinio, o velho quem cria símbolos que indicam seu poder e o poder de Roma
como a coroa de ouro, a corrente de marfim, a águia no cetro, a túnica púrpura
e a capa e o fascio.
É Tarquínio quem também introduz os Jogos em Roma
(lutas de gladiadores).
O fim de Tarquínio, o velho é violento. Os filhos
do falecido rei Anco, procuraram vingança e contrataram dois assassinos.
Enquanto numa audiência o primeiro distraiu Tarquínio, fazendo menção a uma
disputa, o outro acerta a cabeça do rei com uma machadinha, matando-o
instantaneamente. Mas não é isto que é contado ao povo. A esposa de Tarquínio,
Tanaquil informa ao povo que estava ainda tratando de sua ferida e que o rei
escolherá um sucessor, o protegido de Tanaquil, Sérvio Túlio. Evidente
Tarquínio o velho, nunca se recuperou, mas quando o povo deu por si, já havia
um novo rei.
Sérvio Túlio
O sexto rei de Roma, é um monarca celebrado pelas
grandes conquistas. A origem de Sérvio Túlio é incerta. Seu nome alias pode ser
uma corrupção da palavra “servus” (escravo). O nome alias depois seria usado
pelos plebeus. Uma das histórias conta que ele teria sido filho da casa de
escravos, enquanto outras o indicam como um príncipe da cidade Sabina de
Corniculum, capturada pelos romanos. Interessante é que também havia na
tradição etrusca, a história de que Sérvio tinha na realidade um nome etrusco,
“Mastarna”. As lendas ainda dizem que Sérvio era um menino, quando seus pais
descobriram ele ainda dormindo com sua cama em chamas. A criança não sofreu
nenhum ferimento. Palavras deste feito chegaram a rainha Tanaquil que passou a
protege-lo. Com a morte do rei Tarquínio, o velho foi indicado para assumir o
trono. Entretanto, Tarquínio tinha três filhos: Tarquin, Lucius e Arruns. Para
conseguir seu apoio e não sofrer o destino do rei anterior, Sérvio arranjou um
casamento entre suas filhas e os filhos de Tarquínio. Sua posição foi também
assegurada quando uma cidade etrusca resolveu declarar guerra a Roma. Sua
vitória foi tão esmagadora que em 44 anos no poder nunca mais teve que voltar a
campo para enfrentar nenhum outro inimigo.
Os romanos acreditavam que Sérvio foi o primeiro a
usar moedas na cidade. Como os gregos, os primeiros romanos não usavam
dinheiro, mas sim trocas ou sal por objetos que fossem necessários.
Sérvio aumentou as defesas da cidade e expandiu a
própria cidade. Em razão disto, Sérvio Túlio foi o primeiro a realizar um
censo, a contagem da população. Seu reinado também é associado a construção do
Templo de Jupiter Capitolino, embora se acredite que Tarquínio o tenha
iniciado.
Sérvio Túlio teve um final violento. Sua própria
filha Tullia, conspirou com seu marido Lúcio Tarquinio ( o soberbo), para
assassina-lo.
Tarquinio, o soberbo
(também chamado, “Tarquinio, o orgulhoso”)
O sétimo e último rei de Roma, conseguiu chegar ao
poder através de uma violenta conspiração. Tarquínio, o soberbo, era um tirano
que usava os mesmos métodos de muitos outros que subiram ao poder nos reinos
helenísticos, resguardando sua posição através de violência e opressão.
Ele nomeu a si mesmo supremo juiz de Roma,
garantindo autoridade sobre todos os assuntos de Estado, com decisão soberana
sem direito a apelação. Esses privilégios geraram disputas. Embora como
estrategista militar e diplomata tivesse extremo talento. Ele forçou a liga
latina a aceitar Roma como comandante (no chamado Tratado de Ferentia) e anexou
exércitos vizinhos a máquina de guerra romana, dobrando a força de Roma. O
resultado das conquistas foi usado na ampliação e melhorias da cidade de Roma.
Mas como toda essa construção era produto da opressão de Tarquínio, muito dos
trabalhadores das obras eram forçados e de origem plebéia.
Uma das principais lendas envolvendo Tarquinio, o
soberbo é a dos livros de Sibylinos. A historia trata do famoso Sybil, um
mítico profeta do mundo Grego, que apareceu diante do rei e ofereceu 9 livros
com a sabedoria dos deuses. O preço era muito alto e Tarquínio, não aceita
pagar. Frustrado, Sybil, joga três livros no fogo que rapidamente os consome e
faz a mesma oferta no valor. Mas Tarquinio recusa e mais três livros são
lançados ao fogo. E mais uma vez Sybil pede o mesmo valor. Novamente Tarquinio
não aceita, e ao final só sobram 3 livros. Tarquínio percebe que os livros são
de grande importância e resolve salvar o conhecimento restante. Os livros
passam a ser consultados sempre que há uma decisão que necessita do auxilio dos
deuses e segunda a crença, são destruídos durante o incêndio que consome o
Templo de Jupiter Capitolino em 83 a.C.
Com tanta repressão em seu reinado, Tarquínio, o
soberbo perde o apoio do povo e uma revolução se inicia. O golpe final em seu
reinado vem quando seu filho Sextus, estupra uma nobre de nome Lucrecia a luz
do dia. Os nobres comandados por Lucio Iunius Brutus declaram-se contra
Tarquinio e fundam a República (510/509 a.C.). Tarquínio é forçado ao exílio.
Há tentativas de retomar o poder mas todas falhas e com Tarquínio, o soberbo
termina a fase monárquica em Roma.
A República
Com a queda do último rei de Roma, os romanos passaram a conquistar os
sul da Itália. Eles usaram uma boa ideia para faze-lo. Como Alexandre o grande,
os romanos espalharam a noticia de quem qualquer cidade que quisesse ajuda em
uma guerra poderia contar com a sua ajuda. Assim quando a cidade era atacada
recorria aos exércitos romanos. E os romanos enviavam soldados para os seus
vizinhos. Mas quando a guerra terminava, os romanos anunciavam que as tropas
não mais deixariam a cidade para mantê-la sempre a salvo. Mas como havia
soldados romanos vivendo no meio da cidade, eles deveriam fazer o que o Senado
Romano mandasse ! Em resumo, os romanos copiaram a ideia persa e de Alexandre
de conquistar as cidades sem batalhas desnecessárias, ampliando sua influência.
Assim os romanos conquistaram toda a parte sul da Italia. Próximo do fim desta
campanha, algumas cidades gregas resistiram e pediram ajuda ao rei Pyrus, do
reinado de Epiro, que também era grego. Pyrus por si só, já se achava como
Alexandre o grande e queria conquistar o mundo, então enviou a frente da
batalha homens e elefantes vindos da India, mas o exército romano mais
disciplinado e preparado o venceu.
Pyrus
Essencialmente aristocrática, a República (509 a.C.-27 a.C.) tem o
Senado como órgão supremo de governo. Os senadores, vitalícios, supervisionam
as finanças públicas, dirigem a política externa e administram as províncias.
As funções executivas são distribuídas entre os membros da Magistratura, como
os cônsules e os tribunos da plebe. Os tribunos surgem ao longo do período da República
em conseqüência da luta dos plebeus por direitos políticos. Entre suas
conquistas destaca-se a Lei das Doze Tábuas (451 a.C.- 449 a.C.). Até então
transmitidas por via oral e totalmente manipuladas pelos patrícios, as leis
passam a ser escritas e públicas.
Primeira
Guerra Púnica
A Primeira Guerra surgiu com a quebra de um acordo
entre Roma e Cartago, que até então tinham uma convivência pacifica, em não
ocupar a Sicilia, em que romanos se instalaram na Messana. Os púnicos
retaliaram os romanos com uma série de ataques ao sul da Itália. Estava
declarada a guerra.
Roma era boa com sua infantaria terrestre e, até o
inicio da guerra, não possuíam frotas navais, algo que os cartagineses
dominavam por maestria. Porém, com a captura de um dos navios dos poeni – como
os cartagineses eram conhecidos pelos romanos – Roma obteve o conhecimento da
infantaria naval e, como muita rapidez construiu e adaptaram navios as suas
necessidades e para seu modo de luta construindo as pontes de abordagem, que
transformava a batalha naval em combate corporal, no que Roma era infinitamente
superior.
A vitória estava próxima, se não fosse o apoio de
um mercenário espartano Xantipo aos cartagineses que ensinou os soldados
púnicos a utilizarem elefantes como montaria, o que surpreendeu o exercito
romano. Isso retardou o triunfo romano, porém Cartago teve sérios danos como
perda de territórios e até uma crise interna com mercenários derrotados que
exigiam pagamento.
A conjuntura interna foi abafada por Amílcar, general
que depois disso investiu em uma expedição na Espanha e, graças à extração de
minérios, conseguiu novo fôlego aos poeni para a segunda e mais memorável das
guerras da antiguidade.
Depois da desastrosa derrota das ilhas Egates, os
Cartagineses concederam a Amílcar Barca plenos poderes para negociar a paz com
Roma. Na verdade, Amílcar desejoso de se dissociar de qualquer admissão de
derrota, agiu através de um dos seus oficiais, Gesgão. O consulado de Catulo
estava prestes a terminar, e a ânsia de conquistar os louros pela conclusão de
uma guerra tão importante antes que os seus sucessores lhe roubassem a gloria
terá tomado o cônsul mais conciliatório. Uma exigência romana inicial de que o
exército siciliano de Amílcar entregasse de imediato as armas e todos os
desertores romanos e italianos para serem punidos foi prontamente rejeitada. Os
mercenários abandonariam a ilha como um exército, na posse das suas armas e com
a honra imaculada. Mas esta concessão parece ter sido a única que os
Cartagineses conseguiram obter pois noutros aspectos os termos de paz deixaram
bem claro que tinham sido derrotados e que Roma não estava a negociar de igual
para igual.
A paz entre Roma e Cartago seria declarada desde
que cumpridas as seguintes condições:
(a) Os Cartagineses deveriam abandonar por completo
a Sicília;
(b) Nenhuma das partes faria a guerra aos aliados
da outra nem procuraria subverter a sua aliança aliando-se diretamente com eles
ou interferindo nos seus assuntos internos. Nenhuma das partes recrutaria
soldados nem reuniria dinheiro para construir edifícios públicos no território
da outra;
(c) Os Cartagineses libertariam gratuitamente todos
os prisioneiros romanos e pagariam um resgate pelos seus;
(d) Os Cartagineses pagariam ao Estado romano uma
indenização de 2200 talentos de Eubeia durante um período de vinte anos.
Os cônsules romanos careciam de autoridade para
concluir a paz a título definitivo, devendo os tratados ser ratificados pelo
povo romano por votação nos Comitia Centuriata, a mesma assembleia que gozava
de poderes para declarar a guerra. Por conseguinte. Catulo solicitou a Roma a
aprovação dos termos propostos. O povo romano, de forma algo característica,
decidiu que as condições eram demasiado brandas e foi enviada uma comissão
senatorial à Sicília para modificar o tratado. A indenização foi aumentada para
3200 talentos, 1000 pagáveis de imediato e os restantes em dez anos, talvez um
reflexo do desejo do Estado de pagar os empréstimos contraídos para a
construção da última esquadra - por tradição, os Romanos esperavam que os
inimigos vencidos contribuíssem para pagar os custos do seu esforço de guerra.
A outra alteração foi a inclusão de uma cláusula exigindo que Cartago evacuasse
a totalidade das pequenas ilhas existentes entre a Sicília e África. Resulta
evidente que a expulsão integral dos Cartagineses da Sicília se tornara o
principal objetivo de guerra dos Romanos, independentemente de seguirmos ou não
Polibio e datarmos esta ambição da queda de Agrigento, em 261. A invasão da
África, em 256, nunca se destinou a estabelecer uma presença romana permanente,
mas sim a aplicar pressão adicional sobre os Cartagineses na esperança de os
levar a submissão. Este objetivo primário foi atingido na integra. Atém do
mais, o poderio naval púnico foi quebrado e deixou de dominar o Mediterrâneo
Ocidental, mais por causa da perda de bases em ilhas do que pelas perdas em
navios, que podiam ser colmatadas com o tempo. Mas Cartago não perdeu nenhum do
seu poder na África nem na Hispânia, e manteve-se na posse da Sardenha. Ao
contrário do que tinham feito após a conclusão de quase todas as suas guerras
travadas em Itália, os Romanos não procuraram integrar Cartago na sua rede de
aliados. Em parte, isto refletiu a realidade da situação. Depois de vinte e
três anos de luta, ambos os lados estavam exaustos e desejosos de se
entenderem. A continuação da guerra até uma das partes ser destruída como
entidade politica independente não era exequível. Em dimensão, territórios e
prosperidade econômica, Cartago estava num nível muito superior ao dos Estados
italianos com os quais Roma lidara no passado. Atém disso, os Romanos parecem
ter reconhecido as diferenças entre a Península Itálica e as terras separadas
das suas pelo mar. A Sicília não foi absorvida do mesmo modo que as comunidades
italianas nem povoada com colônias de cidadãos. De início, uma grande parte da
ilha foi administrada por Hierão de Siracusa, mas a dada altura foi nomeado um
governador - seria um pretor - para administrar a parte ocidental da ilha,
criando a primeira província de Roma na acepção que entendemos do termo. Não
sabemos exatamente quando isto aconteceu mas poderá ter sido depois, de cerca
de 227 a.e.c., quando o número de pretores eleitos anualmente foi aumentado
para quatro, muito provavelmente para providenciar governadores para a Sicília
e para a Sardenha, onde parecem ter sido estabelecidas guarnições romanas
permanentes. Ao contrário dos aliados italianos, as comunidades da província
romana possuíam uma ligação diferente ao Estado romano, tendo como principal
obrigação o pagamento de impostos e não o fornecimento de soldados para
combater no exército romano. Os cereais da Sicília tornaram-se rapidamente uma
importante fonte de alimentos para a própria cidade de Roma e muitos cidadãos
romanos, em especial membros da Ordem Equestre, terão feito fortuna com o
negócio dos cereais. Olhando para trás, é difícil descortinar qualquer ocasião
em que os Cartagineses tenham estado perto da vitória. As perdas romanas mais
sérias deveram-se ao mau tempo e não a ação inimiga. Na primeira fase, se
tivessem conseguido impedir a expedição romana de atravessar o Estreito de
Messina ou derrotar o exército de Cláudio após o seu desembarque, talvez
tivessem dissuadido os Romanos de novas aventuras ultramarinas, pelo menos no
curto prazo, o que, para todos os efeitos, teria impedido a crise de se
transformar numa guerra. Mas era muito difícil esquadras de gales conseguirem
bloquear uma extensão de água, e as forças púnicas que se encontravam na
Sicília em 264 eram totalmente inadequadas para alcançar tão rapidamente uma
vitória sobre um exército consular romano.
Além da decisão de prosseguir a guerra e enviar um
grande exército para a Sicília depois da derrota de Siracusa petos Romanos, o
esforço de guerra cartaginês foi essencialmente passivo, uma série de reações
às iniciativas romanas, integralmente destinadas a proteger a sua posição na
Sicília. Mesmo quando procuraram flagelar o inimigo com incursões sobre a costa
italiana, o seu objetivo primordial foi induzir a retirada de forças romanas da
Sicília. Na ilha propriamente dita, a sua estratégia seguiu o padrão
tradicional cartaginês de aguentar a investida inimiga e tentar manter o
controle do maior número possível de praças-fortes, esperando que o inimigo
enfraquecesse para poder recuperar o terreno cedido. Quando os Romanos chegaram
à Sicília, há séculos que Cartago se vinha envolvendo em conflitos esporádicos
na região; nunca conseguira garantir o controle total da ilha, nem nunca fora
completamente expulsa.
Os Romanos não eram como Pirro, que desistiu da sua
ofensiva quando não conseguiu garantir o apoio generalizado das comunidades
gregas da Sicília, e o seu poderio também não era tão precário como o dos
sucessivos tiranos de Siracusa. A persistência romana foi, no mínimo, idêntica
à cartaginesa, e combinou-se com um modo extremamente agressivo de fazer a
guerra, aplicando continuamente pressão sobre o inimigo para forçar uma
decisão. Durante todo o conflito, os Romanos estiveram consistentemente ao
ataque, expandindo de forma metódica o território que controlavam na Sicília e
continuando a faze-lô mesmo quando o moral dos seus exércitos caiu a pique
devido a derrota de Régulo. Mais importante ainda, estiveram dispostos a
escalar o conflito na tentativa de derrotar o inimigo, invadindo a África e,
acima de tudo, decidindo construir uma armada e prosseguir a guerra no mar
apesar das suas perdas colossais. Os enormes recursos humanos de Roma
tornaram-lhe possível absorver perdas colossais, mas isto não chega para explicar
a determinação com que a população continuou disposta a servir na guerra. A
substituição anual dos comandantes supremos poderá significar que eram
geralmente menos experientes do que os seus opositores, mas é difícil encontrar
exemplos concretos da afirmação de Zonaras de ter sido esta a causa de
numerosas derrotas romanas. Das principais batalhas terrestres e navais, todas
menos duas foram vitórias romanas, e é provável que a maioria das suas derrotas
tenha sido em combates de pequena envergadura. Amílcar Barca, considerado por
Polibio o comandante mais capaz da guerra, demonstrou o seu talento em
incursões e escaramuças relativamente menores. Em certo sentido, a chegada
anual de novos comandantes romanos poderá ter-se revelado um ativo, ao garantir
que o exército e a marinha eram liderados de forma extremamente agressiva, com
os comandantes a procurarem distinguir-se na sua curta vigência no cargo. A
estratégia romana manteve-se continuamente agressiva, ainda que por vezes
inconsistente. Se isto deu origem a atos de grande audácia ou até de
temeridade, como os malogrados ataques de surpresa a Lipara, em 260, e a
Drépane, em 249, também gerou alguns êxitos notáveis, tais como a vitória de
Régulo em Adis. Na globalidade, o desempenho dos generais romanos foi bastante
bom. Com o evoluir da guerra, aumentou o número de homens que ocupavam o cargo
pela segunda vez, o que poderá ter garantido comandantes mais experientes, se
bem que, no caso de Cipião Asina, cônsul em 260 e 254, a experiência foi de
derrota e cativeiro. Dos quarenta e sete cônsules eleitos durante os vinte e
três anos de guerra - o número impar resulta da morte de Quinto Cecidio, pouco
depois de assumir o cargo, em 256, e da sua substituição por Régulo -, onze já
tinham exercido o cargo e de entre estes apenas dois não o tinham ocupado
durante o conflito. Outros dois ascenderiam a um segundo consulado, depois de
241. A proporção de múltiplos consulados foi muito semelhante nas décadas
anteriores à guerra e poderá ter sido mais um reflexo da política da época e do
domínio de algumas famílias aristocráticas do que o desejo, por parte do
eleitorado, de escolher comandantes experientes durante uma guerra difícil. Uma
alteração no equilíbrio politico explicará talvez o ligeiro declínio no número
de múltiplos consulados nos anos que mediaram entre a Primeira e a Segunda
Guerras Púnicas.
Depois do desastre de Drépane, em 249, o Senado
selecionou efetivamente um comandante com base na sua experiência e influência
politica, ao tomar a raríssima medida de nomear um ditador militar para tomar o
seu cargo as operações na Sicília. A escolha recaiu em Aulo Atilio Caiatino,
fora pretor em 257 e que na qualidade de cônsul, em 258 e 254, comandara em
duas campanhas na Sicília. Contudo, o Senado fez pouco uso da sua prerrogativa
de prolongar o imperium dos magistrados (o prolongamento do comando dos que
eram comprovadamente capazes), algo que se tornaria comum na Segunda Guerra
Púnica.
Isto deveu-se, em parte, ao fato de o teatro de
operações da Primeira Guerra Púnica ser mais restrito, mas também refletiu a
reduzida percentagem de baixas entre os oficiais superiores romanos em
comparação com a Guerra Anibalica. Nas campanhas da Primeira Guerra Púnica, os
cônsules operaram juntos com mais frequência do que no passado. As discordâncias
entre homens de igual estatuto partilhando o comando de um exército figurariam
proeminentemente nas explicações dos desastres romanos da Segunda Guerra
Púnica, mas não se encontram vestígios deste tipo de situação no conflito
anterior, talvez porque houve menos derrotas para justificar. O diferendo entre
Catulo e Faltão ocorreu depois da vitória e não terá dado origem a nenhuma
dificuldade durante a conduta da campanha. As duas grandes derrotas da guerra
ocorreram com um único cônsul no comando e Agrigento, a única batalha terrestre
em que o comando foi partilhado, saldou-se por uma clara vitória romana.
Todavia, as batalhas campais foram raras durante o conflito e eram as sutis
manobras que as antecediam que proporcionavam mais oportunidades para um
comando dividido gerar confusão. Os comandantes cartagineses seriam mais
"profissionais" do que os seus homólogos romanos e não ha dúvida de
que permaneciam no seu posto durante mais tempo, mas poucos teriam muita
experiência de comando de forças tão grandes como as utilizadas com frequência
durante a guerra. Este fato aplica-se particularmente aos almirantes nomeados
para controlar as operações das esquadras de dimensões inéditas formadas em
varias ocasiões. A sua inexperiência de comando a esse nível agudizou as
acentuadas dificuldades de coordenação dos movimentos de centenas de navios de
guerra a remos, e terá sido outro fator a negar a marinha cartaginesa as
vantagens que deveria ter derivado da perícia superior das suas tripulações.
Vários generais púnicos foram crucificados em consequência de fracassos
militares durante a guerra, geralmente, ao que parece, por ordem dos seus
subordinados imediatos. Mas houve lideres vencidos que escaparam ao castigo e
foram nomeados para outros comandos, o que sugere que o seu destino foi
determinado não só pela sua responsabilidade, mas também pela sua influência
politica. Os Romanos foram consideravelmente mais brandos para os seus
magistrados que presidiram a desastres militares, concedendo triunfos a uma sucessão
de almirantes que tinham perdido a maior parte das suas esquadras devido ao mau
tempo. Apenas Cláudio foi julgado sob a acusação de perduellio no sentido de
"causar o descrédito do Estado" pelo seu comportamento em Drépane,
mas escapou por um triz à condenação, sendo antes considerado culpado de uma
acusação menor e multado. No entanto, o subsequente julgamento da irmã sugere
que a família foi tida como politicamente vulnerável nos anos seguintes.
Segunda Guerra Púnica
República Romana
(509 - 49 a.e.c.)
Desde a sua eclosão, a Segunda Guerra Púnica foi
uma contenda muito mais séria do que a Primeira, que rebentou na Sicília e foi
essencialmente uma luta pelo controle da ilha. A invasão de Régulo colocou os
Cartagineses à beira da capitulação mas resultou numa derrota e não foi
repetida pelos Romanos. O conflito converteu-se numa prova de resistência que
acabou por ser decidida com a derrota da última esquadra púnica nas ilhas
Egates. O tratado de paz deixou Cartago forte na África e capaz de se expandir
na Hispânia, mas afigurou-se mais duro depois de Roma se ter apoderado da
Sardenha. A Segunda Guerra Púnica foi um conflito muito mais simples, pela
supremacia, na qual os territórios foram sempre de importância secundária. A
tentativa cartaginesa de reconquista da Sardenha foi débil e as movimentações
contra a Sicília só tiveram inicio alguns anos depois da eclosão da guerra. Em
ambos os casos, a iniciativa partiu de lideres das ilhas e não de Cartago. A
conquista de territórios ao inimigo e a persuasão dos seus aliados para que
desertassem foram meios de exercer pressão e não fins a atingir. Os tratados
que garantiram a Estados como Cápua ou Tarento a independência de Cartago
deixaram claro que não havia a intenção de estabelecer uma província púnica no
Sul do Lácio. A guerra foi travada para forçar o adversário a submeter-se e a
aceitar um tratado muito favorável para o vencedor. Em 218, ambas as partes
planejaram atacar o coração do território inimigo, os Romanos a África e na
Hispânia, Hannibal na Itália. Apesar dos reveses, das distrações e das
discórdias no seio das lideranças rivais, este objetivo manteve-se até ao fim,
com Asdrúbal e Magão renovando a invasão da Itália e Cipião terminando a guerra
na África. À medida que ambos os lados procuraram lançar ataques adicionais e
incrementar a pressão sobre o inimigo o conflito alastrou a outros teatros. Mas
estes estiveram sempre subordinados ao esforço principal. A maior intensidade
da Segunda Guerra Púnica é ilustrada pelo equilíbrio verificado entre os três
tipos de combate principais, as batalhas, os cercos e as incursões. As batalhas
campais foram muito mais comuns mas os recontros navais foram poucos e em
escala reduzida, nada que se compare as grandes batalhas navais da Primeira
Guerra Púnica. Entre 218 e 202, registraram-se cerca de doze batalhas campais,
três vezes o número das travadas entre 265 e 241, e talvez outros doze embates
de alguma dimensão. As breves narrativas de muitos confrontos tornam difícil
discernir a sua escala. A sua natureza é, por vezes, o seu desfecho, o que faz
com que os números supra-referidos sejam aproximados. Um pouco mais da metade
das batalhas foi travada na Itália, as restantes na África e na Hispânia. Tal
como na Primeira Guerra Púnica, o terreno da Sicília não favoreceu a ocorrência
de batalhas campais formais e o mesmo aconteceu em grande parte da Hispânia, da
Ilíria e da Grécia. E além de as batalhas campais se concentrarem em certas
regiões, tenderam a ocorrer em períodos de campanha breves e de extrema intensidade.
Hannibal travou três grandes batalhas e vários combates importantes entre 218 e
216, e muito menos nos anos posteriores.
Cipião Africano travou uma batalha na Hispânia, em
208, tentou infrutiferamente travar outra em 207, e completou a sua vitória com
uma última batalha, em 206. Repetiu este padrão na África, travando grandes
batalhas em 203 e 202. As batalhas tinham mais tendência a ocorrer quando o
general agia de forma excepcionalmente agressiva, de um modo geral
internando-se profundamente em território inimigo, como foram os casos, por
exemplo, das primeiras invasões da Itália e da África, ou das grandes incursões
de Cipião na província púnica da Hispânia. A resposta romana a este tipo de
ameaça foi a batalha campal, e foram necessárias sucessivas derrotas até que
comandantes como Fábio Máximo instilassem alguma cautela nas operações romanas
na Itália. A ocorrência de uma batalha campal exigia um grau tão elevado de
consentimento mútuo que até generais tão competentes como Hannibal e Cipião se
viram frequentemente incapazes de obrigarem o inimigo a combater. Esta
realidade toma a decisão de Cipião de atacar uma posição tão formidável como a
de Asdrúbal em Bécula tão notável como o seu sucesso. Os Romanos perderam
vários confrontos de menor dimensão mas só foram derrotados numa batalha campal
por Hannibal, na Itália. As derrotas de Públio e Gneu Cipião, em 212,
resultaram de uma série de embates confusos, gerados por uma situação
estratégica marcadamente desfavorável. À exceção destes casos, os exércitos
romanos demonstraram, em batalhas campais, uma superioridade inegável sobre
todos os outros exércitos e generais púnicos.
O exército de Hannibal na Itália foi, sem qualquer
sombra de dúvida, o melhor jamais alinhado por Cartago, beneficiando da liderança
carismática de Hannibal e dos longos anos de campanha na Hispânia. Outra das
suas vantagens foi um rácio cavalaria/infantaria excepcionalmente elevado, que
chegou a ser de 1:3 a 1:4, mais do dobro da media de ambas as partes. Os
continuados êxitos de Hannibal sobre os Romanos conferiram ao seu exército uma
vantagem em termos de moral que, até ao fim da campanha italiana, nunca perdeu.
Outros exércitos púnicos apresentaram uma mistura similar de nacionalidades e
tipos de tropas, mas o seu desempenho no campo de batalha foi medíocre. Os
outros generais eram muito inferiores a Hannibal como lideres e táticos, e não
tiveram a oportunidade para converter os dispares contingentes que comandavam
numa unidade coesa através da combinação de uma instrução longa e da
participação em operações bem sucedidas sob oficiais que lhes eram familiares.
As fontes apresentam com frequência um elemento como a única parte
verdadeiramente fiável e eficaz do exército, como por exemplo, os Líbios em
Ilipa ou os Celtiberos nas Grandes Planícies. E nem Hannibal conseguiu, no
pouco tempo disponível, fundir os três exércitos da África para a campanha de
Cannae. O sistema de milícia romano produzia exércitos muito mais homogéneos em
termos de língua, cadeia de comando, instrução e organização. Isto facilitava a
integração de legiões de diferentes forças num mesmo exército. O prolongado
tempo de serviço aumentava inexoravelmente a eficácia dos exércitos romanos, um
processo que era muito mais rápido do que numa força púnica de várias nacionalidades.
As legiões da Segunda Guerra Púnica serviram durante muito mais tempo do que
quaisquer outras tropas romanas até então, pelo que na fase final da guerra
muitos soldados estavam tão bem instruídos e confiantes como quaisquer tropas
profissionais. A flexibilidade tática demonstrada pelos Romanos no Metauro, em
Ilipa e em Zama foi uma prova tangível desta realidade. Soldados e oficiais
tinham-se tornado capazes de feitos que seriam inimagináveis em 218. Estes
exércitos eram muitíssimo superiores a maioria das forças púnicas e mesmo em
grande inferioridade numérica conseguia derrotar o inimigo, como Cipião
demonstrou. Com a evolução do conflito, o desdém que os Romanos mostravam por
todos os exércitos e generais cartagineses - à exceção de Hannibal - foi-se
fundamentando cada vez mais na realidade. Apesar do considerável número de
batalhas e confrontos importantes tratados na Segunda Guerra Púnica, não
deixaram de ser acontecimentos raros na experiência da maioria dos soldados,
que participaram com muito mais frequência em incursões ou cercos. As incursões
não se destinavam primariamente a providenciar comida para os exércitos, embora
pudessem ser combinadas com esta atividade. O seu objetivo principal era
provocar o máximo de danos possível às zonas rurais do inimigo, matando ou
capturando as populações, destruindo quintas e aldeias, incendiando as
colheitas e roubando o gado. Todas estas atividades exigiam tempo e esforço, e
algumas, como por exemplo, a destruição das colheitas, só podiam ser concretizadas
durante as semanas que antecediam a apanha. Os danos tendiam a limitar-se a uma
área e tinham pouco efeito a longo prazo mas eram inegavelmente horríveis para
as vítimas. Mas quando as incursões prosseguiam durante um longo período, as
consequências para a região podiam ser muito graves. As perdas em mão-de-obra
rural, devido a captura, a morte ou a conscrição, e os danos prolongados aos
campos, as colheitas e ao gado, reduziam a produtividade e davam origem a uma
escassez de alimentos que por sua vez enfraquecia a população e encorajava o
aparecimento de doenças, provocando um declínio adicional na produção. Algumas
áreas, especialmente o Brútio e outras partes do Sul de Itália, onde Hannibal e
o seu exército estiveram confinados durante anos, foram palco das repetidas
incursões dos beligerantes e terão sofrido grandemente. Uma das grandes
controvérsias da Segunda Guerra Púnica, que discutiremos num capitulo
posterior, é o seu impacto sobre a população e a economia rural da Itália.
A consequência mais imediata das incursões eram os danos causados ao prestigio do inimigo por não conseguir defender o seu territorio. A visão das quintas a arder deixadas pela marcha de Hannibal, em 217, incitou Flaminio a persegui-lo incautamente, desejoso de vingar aquela humilhante demonstração da debilidade de Roma. Mais tarde, ainda no mesmo ano, Fábio Maximo tornou-se muito impopular por se negar a impedir tais depredações. Um Estado que se revelava incapaz de proteger os seus aliados contra as depredações do inimigo perdia prestigio e poderia também perder os seus aliados. Isto aplicou-se particularmente à áreas como a Sicília ou a Hispânia, onde as comunidades revelaram um empenho compreensivelmente diminuto para com ambos os lados. O fracasso de Hannibal em proteger das incursões romanas muitos dos seus aliados italianos foi um fator de peso no seu lento mas inexorável regresso à aliança com Roma. As cidades com muros estavam a salvo das incursões, e só as menores poderiam eventualmente sucumbir a um assalto. As cidades constituíam os centros políticos da maioria dos povos envolvidos no conflito, controlando amplas áreas circundantes. As incursões podiam intimidar a população de uma região, mas só a ocupação das suas praças-fortes mais importantes garantia o seu controle em termos permanentes. A vitória romana na Sicília decorreu da conquista dos dois principais bastiões inimigos, Siracusa e Agrigento. Durante toda a guerra, nenhuma das partes conseguiu conquistar a capital inimiga, demasiado grande e defendida, ainda que, em várias ocasiões, tanto Roma como Cartago se tenham sentido diretamente ameaçadas. A conquista de posições fortificadas foi sempre extremamente difícil, o que constituiu um dos motivos para a predominância dos cercos na propaganda dos "Grandes Reis", dos faraós em diante. Só quando o exército profissional romano combinou as capacidades de engenharia com a predisposição para aceitar as baixas inevitáveis nos assaltos é que a balança começou a pender para os sitiantes. Os ataques diretos contra uma grande cidade apenas tinham sucesso quando combinavam a surpresa com a traição ou com o conhecimento de pontos fracos nas defesas. Os bloqueios demoravam muito mais tempo e exigiam a permanência de forças consideráveis no mesmo lugar durante meses ou anos, agudizando o problema do aprovisionamento. Foi a superioridade numérica dos Romanos e a sua capacidade para alimentar os seus exércitos que lhes permitiu montar os longos e vitoriosos assédios À Cápua e Siracusa. A devastação dos campos, a conquista das cidades e as batalhas campais eram os três meios de sapar a determinação do inimigo para prosseguir a luta. O equilíbrio entre estes três meios variou de teatro para teatro mas o maior impacto adveio sempre de uma grande derrota em combate. A guerra terminou com a vitória romana de Zama, tal como a Primeira Guerra Púnica terminara com as Ilhas Egates. Outras batalhas revelaram-se vitorias táticas mais completas mas não tiveram um efeito tão decisivo. Isto aplica-se particularmente à série de vitórias esmagadoras que Hannibal alcançou na Itália e que forçaram os Romanos a admitir que não podiam enfrenta-lo em campo aberto. Hannibal assolou as terras por onde passou e, no Sul, promoveu a defecção de muitos aliados de Roma. Mas apesar de tudo isto, os Romanos recusaram ceder. Quando reconquistou Cápua e Tarento, os mais importantes Estados desertores, Roma já se tinha reapoderado da maior parte das áreas que tinham desertado e o poder de Hannibal na Itália estava em declínio. Nenhuma cidade latina aderiu à sua causa. As tentativas para o reforçar com novos exércitos fracassaram e tornou-se óbvio que não poderia vencer. Entretanto, os Romanos haviam reconquistado a Sicília, tinham expulsado os Cartagineses da Hispânia e estavam instalados na África. É difícil ver o que mais poderia Hannibal ter feito para alcançar a vitória. Nunca saberemos a que ponto estiveram os Romanos de admitir a derrota. Talvez uma marcha sobre Roma após Canaae tivesse levado os Romanos a perder o sangue-frio, mas não podemos estar certos de que assim seria e essa opção teria constituído um risco enorme. Um dos problemas principais dos Cartagineses foi terem ao seu dispor um general soberbo à frente de um exército excelente num dado teatro, enquanto que em outros dispuseram de generais medíocres com exércitos medianos ou generais medianos com exércitos medíocres. Desde o principio, os Romanos conseguiram produzir, em quantidade considerável, exércitos e generais de qualidade mediana, com vantagem sobre todos os adversários à exceção de Hannibal. Com a evolução do conflito, os lideres e os soldados romanos adquiriram experiência e a sua superioridade sobre os outros exércitos púnicos tornou-se ainda mais vincada. Se os Romanos não tivessem encontrado tropas para travarem e vencerem as campanhas nas frentes fora da Itália, o desfecho da guerra teria seguramente sido muito diferente. O Senado romano teve o mérito imenso de continuar a empenhar homens e recursos em teatros de operações distantes quando o desastre parecia ameaçar a Itália. Sob ameaça direta, Roma e Cartago comportaram-se de forma fundamentalmente diferente. Quando um exército romano apareceu às portas da cidade, em 255, 203 e 202, a liderança cartaginesa respondeu procurando a paz. Lívio acredita que o fizeram com falsidade em 203, e neste ano e em 255 retomaram as hostilidades quando não conseguiram garantir os termos que consideravam apropriados ao seu poderio, que ainda era considerável. Em 216, 212 ou em outra fase negativa da guerra, nunca o Senado ou qualquer general romano contemplou seriamente admitir a derrota e negociar com o inimigo. Apesar das perdas calamitosas, da sucessão de derrotas humilhantes, da defecção de alguns aliados e da continuação da nefasta presença do exército de Hannibal na Itália, os Romanos recusaram pura e simplesmente entender-se com os Cartagineses, tal como se tinham negado a negociar com Pirro. Depois, levaram o inimigo de vencido em todas as outras frentes e obrigaram Hannibal, apesar de invicto, a abandonar o Lácio e a regressar a Cartago para a proteger. Os Cartagineses contavam que as guerras terminassem com uma paz negociada. Os Romanos contavam que as guerras terminassem com a sua vitória total ou com a sua própria aniquilação, algo que nenhum Estado contemporâneo dispunha de recursos para conseguir. Foi esta atitude que impediu os Romanos de perderem a guerra e que lhes deu a vitória.
O fator mais importante que permitiu a Roma adotar esta atitude tão rígida foi provavelmente a sua enorme reserva de potenciais soldados. As suas perdas foram colossais, muito superiores as da Primeira Guerra Púnica, com particular incidência sobre as classes mais abastadas, os senadores, os membros da Ordem Equestre e os lavradores que serviam na infantaria pesada das legiões. Nos primeiros anos de guerra, Roma terá talvez perdido 25% dos homens qualificados para o serviço militar devido a mortes e defecções, mas mesmo assim o número de legiões foi aumentado. Tornaram-se algumas medidas de exceção para suprir a lacuna de recrutas, alistando homens mais novos e mais velhos do que o habitual, reduzindo as posses mínimas exigidas para o cumprimento do serviço militar e formando legiões com condenados e escravos. No seu conjunto, esta expansão foi possibilitada pela anuência dos cidadãos comuns em submeterem-se a anos de severa disciplina militar e de campanhas extremamente perigosas. É vital não nos esquecermos de que, em Roma e na maioria dos aliados, todas as classes mantinham fortes laços de lealdade entre si e para com o Estado. Verificaram-se algumas exceções, nomeadamente a recusa das doze colônias latinas de fornecerem mais homens, em 209, mas foram extremamente raras. E note-se que estas colônias apenas declararam ter esgotado os seus recursos. Não recomendaram nenhum entendimento com o inimigo nem tomaram nenhuma medida tendente a desertarem. Do mesmo modo, alguns homens tentaram evitar o serviço militar, outros procuraram lucrar custa das tropas que deveriam abastecer e alguns, muito poucos, desertaram e combateram ao lado do inimigo; mas a esmagadora maioria não fez nada disto e foi movida, por orgulhoso patriotismo, a sacrificar-se pelo Estado.
Os Cartagineses sofreram muito menos baixas, quer em número, quer em percentagem do total dos cidadãos. Os cidadãos púnicos apenas entraram em campanha em número significativo na África, e as suas perdas nas Grandes Planícies e em Zama não foram elevadas. Parece nunca ter faltado dinheiro para contratar mercenários, mas o que frequentemente escasseou foi o tempo para os recrutar e converter num exército eficaz. A verdade é que Cartago não estava tão organizada para a atividade bélica como Roma, onde a guerra era parte integral do sistema politico. O Senado romano decidia anualmente a atribuição de comandos e recursos militares, e durante a Guerra Anibálica assistiu-se a uma simples continuação deste procedimento normal. Não se pode afirmar peremptoriamente que os Romanos faziam a guerra com mais ou menos frequência do que outros povos contemporâneos, mas do que não restam dúvidas é de que a faziam com maior eficácia e entrega. Polibio acerta em cheio no alvo ao destacar a organização politica, a estrutura social e as instituições militares de Roma como chaves da sua vitória sobre Cartago. Durante a Guerra Anibálica, todas elas tiveram que ser modificadas para lidar com a crise. Tornaram-se comuns as múltiplas magistraturas e promagistraturas, as lacunas nas fileiras do Senado foram preenchidas em massa, recrutaram-se escravos para o exército e a instrução ministrada às legiões foi de molde a permitir-lhes atingirem níveis inéditos de eficácia. Cada uma destas instituições revelou-se suficientemente flexível para se adaptar sem ter que alterar a sua natureza essencial. No meio século seguinte, dariam a Roma o domínio do mundo mediterrânico.
A consequência mais imediata das incursões eram os danos causados ao prestigio do inimigo por não conseguir defender o seu territorio. A visão das quintas a arder deixadas pela marcha de Hannibal, em 217, incitou Flaminio a persegui-lo incautamente, desejoso de vingar aquela humilhante demonstração da debilidade de Roma. Mais tarde, ainda no mesmo ano, Fábio Maximo tornou-se muito impopular por se negar a impedir tais depredações. Um Estado que se revelava incapaz de proteger os seus aliados contra as depredações do inimigo perdia prestigio e poderia também perder os seus aliados. Isto aplicou-se particularmente à áreas como a Sicília ou a Hispânia, onde as comunidades revelaram um empenho compreensivelmente diminuto para com ambos os lados. O fracasso de Hannibal em proteger das incursões romanas muitos dos seus aliados italianos foi um fator de peso no seu lento mas inexorável regresso à aliança com Roma. As cidades com muros estavam a salvo das incursões, e só as menores poderiam eventualmente sucumbir a um assalto. As cidades constituíam os centros políticos da maioria dos povos envolvidos no conflito, controlando amplas áreas circundantes. As incursões podiam intimidar a população de uma região, mas só a ocupação das suas praças-fortes mais importantes garantia o seu controle em termos permanentes. A vitória romana na Sicília decorreu da conquista dos dois principais bastiões inimigos, Siracusa e Agrigento. Durante toda a guerra, nenhuma das partes conseguiu conquistar a capital inimiga, demasiado grande e defendida, ainda que, em várias ocasiões, tanto Roma como Cartago se tenham sentido diretamente ameaçadas. A conquista de posições fortificadas foi sempre extremamente difícil, o que constituiu um dos motivos para a predominância dos cercos na propaganda dos "Grandes Reis", dos faraós em diante. Só quando o exército profissional romano combinou as capacidades de engenharia com a predisposição para aceitar as baixas inevitáveis nos assaltos é que a balança começou a pender para os sitiantes. Os ataques diretos contra uma grande cidade apenas tinham sucesso quando combinavam a surpresa com a traição ou com o conhecimento de pontos fracos nas defesas. Os bloqueios demoravam muito mais tempo e exigiam a permanência de forças consideráveis no mesmo lugar durante meses ou anos, agudizando o problema do aprovisionamento. Foi a superioridade numérica dos Romanos e a sua capacidade para alimentar os seus exércitos que lhes permitiu montar os longos e vitoriosos assédios À Cápua e Siracusa. A devastação dos campos, a conquista das cidades e as batalhas campais eram os três meios de sapar a determinação do inimigo para prosseguir a luta. O equilíbrio entre estes três meios variou de teatro para teatro mas o maior impacto adveio sempre de uma grande derrota em combate. A guerra terminou com a vitória romana de Zama, tal como a Primeira Guerra Púnica terminara com as Ilhas Egates. Outras batalhas revelaram-se vitorias táticas mais completas mas não tiveram um efeito tão decisivo. Isto aplica-se particularmente à série de vitórias esmagadoras que Hannibal alcançou na Itália e que forçaram os Romanos a admitir que não podiam enfrenta-lo em campo aberto. Hannibal assolou as terras por onde passou e, no Sul, promoveu a defecção de muitos aliados de Roma. Mas apesar de tudo isto, os Romanos recusaram ceder. Quando reconquistou Cápua e Tarento, os mais importantes Estados desertores, Roma já se tinha reapoderado da maior parte das áreas que tinham desertado e o poder de Hannibal na Itália estava em declínio. Nenhuma cidade latina aderiu à sua causa. As tentativas para o reforçar com novos exércitos fracassaram e tornou-se óbvio que não poderia vencer. Entretanto, os Romanos haviam reconquistado a Sicília, tinham expulsado os Cartagineses da Hispânia e estavam instalados na África. É difícil ver o que mais poderia Hannibal ter feito para alcançar a vitória. Nunca saberemos a que ponto estiveram os Romanos de admitir a derrota. Talvez uma marcha sobre Roma após Canaae tivesse levado os Romanos a perder o sangue-frio, mas não podemos estar certos de que assim seria e essa opção teria constituído um risco enorme. Um dos problemas principais dos Cartagineses foi terem ao seu dispor um general soberbo à frente de um exército excelente num dado teatro, enquanto que em outros dispuseram de generais medíocres com exércitos medianos ou generais medianos com exércitos medíocres. Desde o principio, os Romanos conseguiram produzir, em quantidade considerável, exércitos e generais de qualidade mediana, com vantagem sobre todos os adversários à exceção de Hannibal. Com a evolução do conflito, os lideres e os soldados romanos adquiriram experiência e a sua superioridade sobre os outros exércitos púnicos tornou-se ainda mais vincada. Se os Romanos não tivessem encontrado tropas para travarem e vencerem as campanhas nas frentes fora da Itália, o desfecho da guerra teria seguramente sido muito diferente. O Senado romano teve o mérito imenso de continuar a empenhar homens e recursos em teatros de operações distantes quando o desastre parecia ameaçar a Itália. Sob ameaça direta, Roma e Cartago comportaram-se de forma fundamentalmente diferente. Quando um exército romano apareceu às portas da cidade, em 255, 203 e 202, a liderança cartaginesa respondeu procurando a paz. Lívio acredita que o fizeram com falsidade em 203, e neste ano e em 255 retomaram as hostilidades quando não conseguiram garantir os termos que consideravam apropriados ao seu poderio, que ainda era considerável. Em 216, 212 ou em outra fase negativa da guerra, nunca o Senado ou qualquer general romano contemplou seriamente admitir a derrota e negociar com o inimigo. Apesar das perdas calamitosas, da sucessão de derrotas humilhantes, da defecção de alguns aliados e da continuação da nefasta presença do exército de Hannibal na Itália, os Romanos recusaram pura e simplesmente entender-se com os Cartagineses, tal como se tinham negado a negociar com Pirro. Depois, levaram o inimigo de vencido em todas as outras frentes e obrigaram Hannibal, apesar de invicto, a abandonar o Lácio e a regressar a Cartago para a proteger. Os Cartagineses contavam que as guerras terminassem com uma paz negociada. Os Romanos contavam que as guerras terminassem com a sua vitória total ou com a sua própria aniquilação, algo que nenhum Estado contemporâneo dispunha de recursos para conseguir. Foi esta atitude que impediu os Romanos de perderem a guerra e que lhes deu a vitória.
O fator mais importante que permitiu a Roma adotar esta atitude tão rígida foi provavelmente a sua enorme reserva de potenciais soldados. As suas perdas foram colossais, muito superiores as da Primeira Guerra Púnica, com particular incidência sobre as classes mais abastadas, os senadores, os membros da Ordem Equestre e os lavradores que serviam na infantaria pesada das legiões. Nos primeiros anos de guerra, Roma terá talvez perdido 25% dos homens qualificados para o serviço militar devido a mortes e defecções, mas mesmo assim o número de legiões foi aumentado. Tornaram-se algumas medidas de exceção para suprir a lacuna de recrutas, alistando homens mais novos e mais velhos do que o habitual, reduzindo as posses mínimas exigidas para o cumprimento do serviço militar e formando legiões com condenados e escravos. No seu conjunto, esta expansão foi possibilitada pela anuência dos cidadãos comuns em submeterem-se a anos de severa disciplina militar e de campanhas extremamente perigosas. É vital não nos esquecermos de que, em Roma e na maioria dos aliados, todas as classes mantinham fortes laços de lealdade entre si e para com o Estado. Verificaram-se algumas exceções, nomeadamente a recusa das doze colônias latinas de fornecerem mais homens, em 209, mas foram extremamente raras. E note-se que estas colônias apenas declararam ter esgotado os seus recursos. Não recomendaram nenhum entendimento com o inimigo nem tomaram nenhuma medida tendente a desertarem. Do mesmo modo, alguns homens tentaram evitar o serviço militar, outros procuraram lucrar custa das tropas que deveriam abastecer e alguns, muito poucos, desertaram e combateram ao lado do inimigo; mas a esmagadora maioria não fez nada disto e foi movida, por orgulhoso patriotismo, a sacrificar-se pelo Estado.
Os Cartagineses sofreram muito menos baixas, quer em número, quer em percentagem do total dos cidadãos. Os cidadãos púnicos apenas entraram em campanha em número significativo na África, e as suas perdas nas Grandes Planícies e em Zama não foram elevadas. Parece nunca ter faltado dinheiro para contratar mercenários, mas o que frequentemente escasseou foi o tempo para os recrutar e converter num exército eficaz. A verdade é que Cartago não estava tão organizada para a atividade bélica como Roma, onde a guerra era parte integral do sistema politico. O Senado romano decidia anualmente a atribuição de comandos e recursos militares, e durante a Guerra Anibálica assistiu-se a uma simples continuação deste procedimento normal. Não se pode afirmar peremptoriamente que os Romanos faziam a guerra com mais ou menos frequência do que outros povos contemporâneos, mas do que não restam dúvidas é de que a faziam com maior eficácia e entrega. Polibio acerta em cheio no alvo ao destacar a organização politica, a estrutura social e as instituições militares de Roma como chaves da sua vitória sobre Cartago. Durante a Guerra Anibálica, todas elas tiveram que ser modificadas para lidar com a crise. Tornaram-se comuns as múltiplas magistraturas e promagistraturas, as lacunas nas fileiras do Senado foram preenchidas em massa, recrutaram-se escravos para o exército e a instrução ministrada às legiões foi de molde a permitir-lhes atingirem níveis inéditos de eficácia. Cada uma destas instituições revelou-se suficientemente flexível para se adaptar sem ter que alterar a sua natureza essencial. No meio século seguinte, dariam a Roma o domínio do mundo mediterrânico.
Depois da batalha, Hannibal e o seu estado-maior
fugiram para a sua base principal, em Adrumeto. Os Romanos reuniram os
prisioneiros e pilharam o acampamento púnico. Cipião recebeu a noticia
animadora de que se aproximava de Castra Cornelia um comboio com mantimentos, e
Lélio foi de novo enviado a Roma para dar conta da vitória. A derrota do seu
último exército deixou Cartago com a única alternativa de procurar novamente a
paz. Cipião conduziu a esquadra numa demonstração de força junto da própria
cidade de Cartago, uma pressão adicional para que se submetesse. Em termos
militares, os Romanos pouco poderiam ameaçar uma urbe tão bem fortificada.
Mesmo recorrendo a todo o seu exército, o cerco de Cartago teria sido uma
empresa enormíssima e de desfecho incerto. Cipião rejeitou prontamente a ideia,
apesar de, segundo Lívio, ter sido advogada por vários dos seus oficiais. Não
obstante ter-se negado a receber uma primeira embaixada de paz púnica, o
general romano estava desejoso de chegar a um entendimento. Em particular,
estaria de novo preocupado com a manutenção do seu comando e com a obtenção da
glória que a vitória lhe merecera. De fato, mesmo com a guerra prestes a
acabar, um dos cônsules de 201 tentou substituir Cipião no comando na África
mas depois da intervenção de alguns dos tribunos da plebe e de novos debates
senatoriais acabou por substituir Nero no comando naval. Os termos do tratado
ditado por Cipião foram duros. Entrega, sem resgate, de todos os prisioneiros e
desertores romanos. Confiscação de todos os elefantes de guerra. Redução da
armada a dez trirremes. Cartago manteve a maior parte do seu território na
África mas perdeu todas as suas possessões ultramarinas, e até na África foi
obrigada a reconhecer Masinissa como soberano de um reino substancialmente
aumentado. Cartago foi obrigada a pagar uma indenização de 10.000 talentos de
prata, em prestações anuais, durante mais de cinquenta anos, uma recordação
constante da sua derrota. Outra indicação do seu novo estatuto foi a
estipulação de que Cartago não poderia entrar em guerra fora da África, e na
África só com autorização de Roma. Cartago continuaria a ser governada pelas
suas próprias leis mas ficava claramente subordinada a Roma em todos os
assuntos externos. Por fim, os Cartagineses deveriam fornecer alimentos e
provisões ao exército de Cipião durante três meses, e custear o seu soldo até a
ratificação do tratado. E em pagamento pelo que os Romanos consideravam ser a
sua recente traição, deveriam também indenizar a perda de bens romanos quando
da violação da trégua e do ataque ao comboio naval. Foram selecionados reféns
entre as famílias nobres da cidade, como garantia para que não se repetisse o
mesmo tipo de incidente durante as negociações. A mensagem do tratado foi clara
e talvez reforçada se, como afirma Apiano, os Cartagineses passariam a ser
designados como “Amigos e Aliados” do povo romano, a fórmula usada para os
aliados subordinados de Roma na Itália. E tinham-se efetivamente tornado, de
forma inequívoca, aliados subordinados de um Estado superior ao qual pagavam um
tributo anual e a cuja autoridade se submetiam em questões importantes de
politica externa. O império ultramarino e a marinha orgulhosa que o protegera
foram abolidos. Não admira que alguns líderes púnicos pretendessem rejeitar tão
dura paz. Quando um dos senadores embarcou num discurso nesta veia, Hannibal,
sempre realista, arrastou-o do pódio dos oradores. Pediu desculpa pelo seu
comportamento, dizendo que trinta e seis anos de ausência de Cartago o tinham
levado a esquecer a etiqueta politica, mas instou com veemência os líderes a
não rejeitarem uma paz que, tendo em conta a situação de Cartago, poderia ter
sido muito pior. Por fim, o senado púnico aceitou esta via e enviou delegações
a Roma para confirmar os termos. Foi somente no principio da Primavera de 201
que o Senado confirmou finalmente a sua decisão anterior de aceitar quaisquer
termos de paz propostos por Cipião. Imediatamente após o regresso dos
emissários, acompanhados por representantes do clero romano, os feciais, para
supervisionar os importantes rituais envolvidos, as provisões do tratado
começaram a ser implementadas. Um grande número de navios de guerra púnicos,
500 segundo algumas das fontes de Lívio, saiu do grande porto da cidade e foi
depois incendiado.
Aos desertores que tinham
combatido pelos Cartagineses, estava reservado um destino terrível: os romanos foram crucificados e os latinos decapitados. Cipião
regressou a Roma, onde celebrou um triunfo espetacular.
As causas da Segunda Guerra Púnica
Existiram decerto momentos de tensão depois da
Primeira Guerra Púnica, mas as relações entre Roma e Cartago não eram
inteiramente hostis. Renovado o intercâmbio comercial, os mercadores púnicos
eram uma visão tão familiar em Roma como os italianos parecem ter sido em
Cartago. Com efeito, terá sido durante estes anos que foram criados laços de
hospitalidade - ou ressuscitados os anteriores a 265 -, uma característica tão
comum das relações internacionais no mundo antigo, ligando famílias
aristocráticas púnicas e romanas. A paz concluída em 241 durou vinte e três
anos, se descontarmos a ameaça romana de reabrir as hostilidades por causa da
Sardenha, em 238, e terminou quando Hannibal Barca, comandante supremo
cartaginês na Hispânia, atacou a cidade ibérica de Sagunto, que estava sob
proteção romana. Nenhuma das partes se mostrou muito relutante em entrar em
guerra, não obstante as memórias do conflito anterior que fora renhido e
dispendioso. Os motivos que as levaram a guerra têm sido tema de intensos
debates desde então, debates que procuram quase sempre atribuir a culpa a uma
das partes. E com igual frequência, os historiadores têm caído na armadilha de
analisar os eventos em função de padrões modernos, esquecendo-se de que até
Estados antigos mais politicamente avançados entravam em guerra com frequência
e entusiasmo, em especial quando contavam vencer e imaginavam os benefícios que
a vitória lhes traria. Antes de abordarmos estas questões, convirá passarmos em
revista à sucessão de acontecimentos que levaram à declaração de guerra por
parte de Roma. Provavelmente em 226, Asdrúbal aceitou as exigências de
emissários romanos no sentido de os Cartagineses não atravessem o rio Ebro. A
ideia de colocar uma fronteira física ao poder de um Estado era um conceito
familiar a ambas as culturas. Nesse caso, não se tratou de uma grande
restrição, já que o coração da província púnica ainda estava muito longe do
rio. Os argumentos de que o tratado definiu uma fronteira muito mais a sul não
convencem, e são ainda menores os fundamentos para o comum pressuposto de que
os Romanos se comprometeram a não intervir a sul do Ebro. De fato, nesta
altura, o Estado romano carecia de qualquer ligação direta à Hispânia, exceto
se considerarmos que a sua aliada, Massília, tinha comunidades dependentes em
Empório e Rode. Em determinada altura, depois de 226, Roma associou-se à cidade
de Sagunto (a moderna Sagunto, perto de Valência). Polibio diz-nos que isto
aconteceu "alguns anos" antes da época de Hannibal. Mas seria
plausível a sua menção no tratado do Ebro se a ligação já existisse, dado que a
cidade se localizava muito a sul do rio. A discussão sobre se existia ou não um
tratado formal garantindo o estatuto de aliada a Sagunto ou se a cidade
simplesmente requereu a proteção de Roma, como Utica tentara fazer durante a
Guerra dos Mercenários, não é relevante para o nosso propósito. A dada altura,
o Senado romano foi solicitado a arbitrar a disputa interna da cidade, muito
possivelmente entre facções rivais adeptas de Roma e Cartago, e os enviados
ordenaram a execução de vários nobres saguntinos. Parecem óbvios para a cidade
hispânica os atrativos de uma aliança com Roma. Sagunto, uma cidade-estado de
importância local, assistiria com preocupação a expansão da província
cartaginesa na sua direção. O apoio romano oferecia a maior segurança possível
contra o seu poderoso vizinho. O motivo pelo qual os Romanos aceitaram a
aliança é menos claro e está estreitamente associado à causa da guerra. Em 221,
Hannibal, então com 26 anos de idade, sucedeu ao cunhado e continuou a
agressiva politica expansionista na Hispânia, levando a cabo operações muito
mais vastas do que os seus antecessores. Conduziu os seus exércitos contra as
tribos da Hispânia Central, avançando bastante para norte, até região da
moderna Salamanca. Cerca de 220-219, eclodiu uma disputa entre Sagunto e uma
tribo vizinha, acusada de realizar incursões no seu território. Os pormenores
são obscuros e até o nome do povo em causa é incerto, mas a tribo era aliada de
Cartago e recebeu o apoio de Hannibal. No Inverno, uma embaixada romana apresentou-se
a Hannibal, em Nova Cartago, e recordou-lhe a existência do tratado do Ebro,
avisando-o também para não atacar Sagunto. A embaixada foi recebida com extrema
frieza e deslocou-se a Cartago para repetir as suas exigências. O jovem general
também pediu instruções a Cartago, e na Primavera conduziu o seu exercito
contra a cidade. Sagunto situava-se numa posição forte, no cimo de uma colina,
a quilômetro e meio do mar (No Outono de 1811,os defensores espanhóis de uma fortaleza
improvisada entre as ruínas ibéricas, romanas e mouras da cidade repeliram
vários ataques lançados por um dos mais capazes comandantes de Napoleão,
Suchet.) Hannibal levou oito meses para se apoderar da cidade, mas desde o
inicio foi claro que a sua intenção era toma-la de assalto e não submetê-la
pela fome. As suas tácticas foram muito mais agressivas do que as adotadas
pelos Cartagineses em qualquer um dos cercos da Primeira Guerra Púnica, pelo
que as baixas também foram mais elevadas. Lívio diz mesmo que o próprio
Hannibal foi ferido ao dirigir um ataque demasiado próximo da peleja. Os
Romanos nada fizeram para auxiliar os Saguntinos depois de iniciado o assedio.
Lívio afirma que enviaram outra embaixada a Hannibal, mas a sua cronologia é
irremediavelmente confusa neste ponto e, dado que Polibio não menciona
semelhante iniciativa, mais vale rejeitá-la. Sagunto caiu em finais de 219 ou
nas primeiras semanas de 218, e a noticia poderá ter chegado a Roma num mês. No
fim do Inverno, foi enviada a Cartago uma embaixada que incluía os dois
cônsules de saída, Lúcio Emilio Paulo e Marco Lívio Salinator. Lívio diz que a
delegação era chefiada por Quinto Fábio Máximo, ficando assim completo o trio
que desempenharia papeis de relevo na guerra que se avizinhava, mas parece mais
provável que o líder fosse Marco Fábio Buteão, o experiente ex-censor que
combatera na Sicília quando era cônsul, em 245. A embaixada protestou contra os
atos de Hannibal e exigiu saber se ele agia com a aprovação do senado
cartaginês. Os Cartagineses viram-se confrontados com as alternativas de
condenarem Hannibal e entregarem-no e aos seus oficiais superiores aos Romanos
para serem punidos, ou de entrarem em guerra contra Roma. O estilo de
diplomacia praticado pelas embaixadas romanas raramente parece ter sido muito sutil,
mas neste caso os Romanos eram claramente obrigados a vingarem um ataque contra
um aliado. Numa versão da história, que refere um poderoso partido oposto aos
Barcas, um certo Hanão terá condenado as ações de Hannibal mas os Cartagineses,
na sua maioria, responderam furiosamente as bruscas exigências romanas.
Negaram-se a reconhecer o tratado do Ebro, dizendo que nunca o tinham
ratificado, citaram o exemplo de Catulo, que em 241 submetera os termos de paz
a apreciação de Roma, e contestaram a sua obrigatoriedade de terem que
reconhecer qualquer relação entre Roma e Sagunto. Reza a história que Fábio se
plantou no meio da câmara e anunciou que trazia nas dobras da toga a paz e a
guerra, e que deixaria cair a que os Cartagineses escolhessem. Os ânimos dos senadores
púnicos exaltaram-se e o sufeta presidente gritou-lhe que escolhesse ele.
Quando Fábio respondeu que deixava cair a guerra, o salão encheu-se com um
grande grito de "Aceitamos". Assim foi declarada a guerra, mas talvez
já fosse inevitável. Regressado aos aquartelamentos de Inverno depois da queda
de Sagunto, Hannibal fez seguramente preparativos para a invasão da Itália, e
também é bastante possível que os Comitia Centuriata já tivessem votado a favor
da guerra caso os embaixadores não conseguissem uma resposta satisfatória de
Cartago. Polibio discute com algum detalhe as causas subjacentes à retoma das
hostilidades e conclui que foram três os fatores principais. O primeiro foi o
ressentimento ou a raiva de Amílcar Barca no fim da Primeira Guerra Púnica, ao
ser forçado a capitular apesar de invito na Sicília. O segundo fator - e o mais
importante - foi a descarada conquista romana da Sardenha, em 238, quando
Cartago ainda se encontrava abalada pela desordem da Revolta dos Mercenários.
Esta humilhação, além de aumentar o ressentimento de Amílcar, propalou o ódio a
Roma a toda a população púnica. Foi com o objetivo de construir uma base de
poder para usar contra Roma que Amílcar se deslocou para a Hispânia,
lançando-se de corpo e alma num programa de expansão. Os êxitos da sua família
na Península Ibérica constituíram a terceira causa, pois o crescimento do
poderio cartaginês encorajou os Púnicos a julgarem-se suficientemente fortes
para derrotarem a sua antiga rival.
Polibio sustenta a sua visão da motivação de Amílcar com um episódio narrado por Hannibal na corte do rei selêucida Antioco III, na década de 190. Pouco antes de partir para assumir o comando na Hispânia, Amílcar Barca sacrificou no altar de uma divindade a que Polibio chama Zeus e Lívio designa por Júpiter, mas tratava-se provavelmente de BaaI Shamin. Recebendo sinais favoráveis, chamou junto de si o seu filho Hannibal, então com nove anos de idade, e perguntou-lhe se gostaria de o acompanhar na expedição. O garoto, que provavelmente vira poucas vezes o pai durante os seus primeiros anos de vida, respondeu entusiasticamente, implorando-lhe autorização para ir com ele. Amílcar colocou a mão do rapaz na vitima sacrificial e obrigou-o a jurar solenemente nunca ser amigo dos Romanos. Hannibal contou esta história para convencer Antioco de que não estava conluiado com os Romanos, que eram inimigos do rei, e dado que Polibio a recebeu em terceira mão - na melhor das hipóteses -, é impossível avaliar a sua veracidade. Na versão romana, que é posterior, o juramento torna-se mais severo, com o garoto prometendo inimizade eterna a Roma. Na versão dos acontecimentos dada por Polibio, Hannibal herda do pai a guerra contra Roma, do mesmo modo que Alexandre Magno realizaria a expedição à Pérsia planejada por Filipe II, seu pai. Durante muito tempo, os historiadores modernos aceitaram esta interpretação e alguns foram mais longe, afirmando que o plano de invadir a Itália pelos Alpes e até as táticas de combate de Hannibal poderão ter sido concebidas pelo pai. Mais recentemente, a ideia de que a guerra foi um projeto premeditado dos Barcas caiu em desfavor, em parte porque os historiadores tem geralmente relutância em atribuir acontecimentos importantes aos humores e ações dos líderes, preferindo procurar a explicação em tendências mais gerais. O debate tem incidido, com mais frequência, nos pormenores e na cronologia dos acontecimentos que conduziram à guerra, dado que Polibio é vago nesta matéria, enquanto que as outras fontes que possuímos são de questionável credibilidade.
De importância fundamental é a questão de saber o que esperavam conseguir na Hispânia os Cartagineses liderados pelos Barcas, e também aqui temos que lamentar a ausência de fontes ilustrativas da perspectiva púnica. Tem-se partido do principio de que a perda de territórios rentáveis na Sicília e na Sardenha forçou Cartago a procurar receitas noutros locais, e as minas de prata ibéricas são amiúde citadas neste contexto. É certo que Amílcar colocou muitas delas sob controlo púnico, e embora tenham sido necessários vários anos para dar inicio à sua exploração, isto permitiu à sua família cunhar várias series de moedas com um teor de prata especialmente elevado. Noutros aspectos, é difícil perceber como é que a expansão na Hispânia permitiu uma exploração mais lucrativa dos seus recursos do que através das comunidades púnicas presentes na região. No curto prazo, várias campanhas bem sucedidas geraram certamente receitas consideráveis, parte das quais poderá ter chegado às mãos do Estado - daqui a resposta de Amílcar, quando a embaixada romana exigiu saber porque travava ele tantas guerras de conquista, de que necessitava de anexar terras para ter lucros com que pagar a divida de guerra púnica a Roma. Uma grande parte dos dividendos restantes das campanhas foi para pagar e aumentar o exército na Hispânia. Há muito que os oficiais púnicos recrutavam soldados hispânicos, mas a província bárcida assumiu o controle sobre grande parte desta enorme reserva de recursos humanos. As comunidades da Hispânia produziam um excedente de jovens que não podiam obter o seu sustento da terra e era frequente tonarem-se bandidos ou mercenários. Em pelo menos uma ocasião, Amílcar recrutou para o seu exército guerreiros inimigos capturados, dado que a remoção deste elemento da sociedade tornava as conquistas mais seguras. Os exércitos da Primeira Guerra Púnica tinham sido predominantemente africanos, mas embora muitos destes soldados ainda estivessem no ativo, na Segunda Guerra Púnica o seu número seria ultrapassado, de longe, pelos Hispânicos. Na sua maioria, estes guerreiros hispânicos não serviriam como mercenários, por dinheiro, mas sim na qualidade de aliados. A Hispânia proporcionou aos Barcas e - dependendo da perspectiva que se tenha da independência do seu poder - a Cartago uma força militar formidável e a riqueza para a sustentar. Embora este recurso tenha permitido a Hannibal prosseguir a guerra com tanta eficácia, isto não significa necessariamente que tenha sido criado para a fazer. Poderá argumentar-se que o incremento do poderio militar púnico foi essencialmente defensivo, dando-lhe alguma proteção contra atos romanos tão arbitrários como o roubo da Sardenha. A perda da guerra contra Roma e os acontecimentos que se lhe seguiram foram claramente um grande golpe para o orgulho de um império poderoso. A empresa hispânica poderia simplesmente ter sido uma tentativa de reafirmação da sua independência. Contudo, para validar esta afirmação seria necessário acreditar que o ataque de Hannibal a Sagunto foi uma mera declaração de revivalismo do poderio púnico, que não contava provocar uma guerra com Roma. A rapidez com que Hannibal deu início aos colossais preparativos para a expedição à Itália torna esta hipótese extremamente improvável. Os Romanos parecem ter sentido sempre algum nervosismo perante as atividades dos Barcas na Hispânia, como comprova o número de embaixadas que aí enviaram.
A Segunda Guerra Púnica foi claramente uma herança do primeiro conflito, que terminou subitamente, com ambos os beligerantes quase no mesmo nível de exaustão. Os Romanos esperavam que as guerras que travavam se saldassem pela vitória completa das suas armas, com o ex-inimigo deixando de constituir uma ameaça ao ser geralmente absorvido na qualidade de aliado subordinado. Fosse qual fosse a autonomia interna que preservavam, os aliados não estavam autorizados a conduzir uma politica externa independente, e muito menos uma que entrasse em conflito com os interesses de Roma. Em 241, Cartago era demasiado grande e estava demasiado longe para ser absorvida por Roma do mesmo modo que acontecera grande parte da Itália, mas mesmo assim os Romanos negaram-se a tratá-la como igual nas décadas que se seguiram à guerra. A Sardenha deu corpo a um exemplo gritante desta atitude, com os Cartagineses obrigados a curvarem-se perante uma exigência injusta, e as repetidas intervenções romanas na Hispânia foram outro sintoma. Embora o tratado do Ebro possa não ter imposto grandes limites a expansão cartaginesa na Hispânia, deixou bem claro que os Romanos se sentiam no direito de imporem restrições as atividades púnicas longe de território romano. A aceitação de uma ligação com Sagunto recordou aos Cartagineses que os Romanos não se submetiam aos mesmos constrangimentos. O pagamento anual da indenização era uma lembrança constante da derrota de Cartago, mas estaria provavelmente concluído em meados da década de 220, e foi talvez nesta altura que Roma se começou a interessar cada vez mais pela Península Ibérica. Um antigo inimigo que aparentasse estar a converter-se de novo numa potência independente e rival seria considerado pelos Romanos uma ameaça inequívoca, independentemente da realidade da situação militar. As intervenções das embaixadas romanas serviram para recordar a Cartago o seu estatuto. Até 219, os Cartagineses cederam sempre perante as exigências romanas. É muitíssimo provável que o Senado contasse que o fizessem de novo quando a delegação disse a Hannibal para não atacar Sagunto, e a surpresa dos senadores quando ele ignorou a proibição ajuda a explicar porque é que os Romanos não enviaram nenhuma ajuda a cidade. Os Cartagineses não viam qualquer razão para se comportarem como um aliado subordinado de Roma. A sua cultura militar era diferente da romana e não esperava que os desfechos das guerras fossem tão definitivos. Além do mais, o seu poder real não fora tão enfraquecido pela derrota de 241 como a atitude romana sugeria, especialmente depois de Cartago ter recuperado dos custos da guerra e da agitação da Revolta dos Mercenários. Cartago ainda era um Estado grande e rico, com extensos territórios na África e um reino em expansão na Hispânia. Não existiam bons motivos para que os cidadãos púnicos considerassem a sua cidade inferior a Roma, e é compreensível o seu ressentimento face a recusa dos Romanos de reconhecerem esta realidade. Ambos os Estados possuíam amplos recursos para fazerem a guerra e desconfiavam um do outro. Nestas circunstâncias, a retoma das hostilidades afigura-se menos surpreendente. O desejo de se reafirmarem como potência independente era tão natural para os Cartagineses como aparentemente ameaçador para os Romanos. Alguns indivíduos poderão ter desejado e planejado a guerra. Hannibal era um jovem nobre a frente de um exército poderoso e estava seguro da sua capacidade para o comandar. Os autores antigos explicam sempre as grandes guerras como inspiradas pela ânsia de gloria de reis, imperadores e príncipes, e faríamos mal em rejeitar Iiminarmente esta visão. É possível que Hannibal tenha procurado uma guerra, e não restam dúvidas de que a aceitou prontamente e que a travou com considerável entusiasmo. Poderia certamente existir em Cartago quem se opusesse ao jovem general e desejasse a paz, mas a verdade é que a maioria da elite não via motivos para que o renovado Estado púnico se submetesse a exigências romanas tão arrogantes. É impossível dizer se aquiesceram nas atividades de Hannibal que provocaram a crise, ou se as terão mesmo ordenado.Existiram decerto momentos de tensão depois da Primeira Guerra Púnica, mas as relações entre Roma e Cartago não eram inteiramente hostis. Renovado o intercâmbio comercial, os mercadores púnicos eram uma visão tão familiar em Roma como os italianos parecem ter sido em Cartago. Com efeito, terá sido durante estes anos que foram criados laços de hospitalidade - ou ressuscitados os anteriores a 265 -, uma característica tão comum das relações internacionais no mundo antigo, ligando famílias aristocráticas púnicas e romanas. A paz concluída em 241 durou vinte e três anos, se descontarmos a ameaça romana de reabrir as hostilidades por causa da Sardenha, em 238, e terminou quando Hannibal Barca, comandante supremo cartaginês na Hispânia, atacou a cidade ibérica de Sagunto, que estava sob proteção romana. Nenhuma das partes se mostrou muito relutante em entrar em guerra, não obstante as memórias do conflito anterior que fora renhido e dispendioso. Os motivos que as levaram a guerra têm sido tema de intensos debates desde então, debates que procuram quase sempre atribuir a culpa a uma das partes. E com igual frequência, os historiadores têm caído na armadilha de analisar os eventos em função de padrões modernos, esquecendo-se de que até Estados antigos mais politicamente avançados entravam em guerra com frequência e entusiasmo, em especial quando contavam vencer e imaginavam os benefícios que a vitória lhes traria. Antes de abordarmos estas questões, convirá passarmos em revista à sucessão de acontecimentos que levaram à declaração de guerra por parte de Roma. Provavelmente em 226, Asdrúbal aceitou as exigências de emissários romanos no sentido de os Cartagineses não atravessem o rio Ebro. A ideia de colocar uma fronteira física ao poder de um Estado era um conceito familiar a ambas as culturas. Nesse caso, não se tratou de uma grande restrição, já que o coração da província púnica ainda estava muito longe do rio. Os argumentos de que o tratado definiu uma fronteira muito mais a sul não convencem, e são ainda menores os fundamentos para o comum pressuposto de que os Romanos se comprometeram a não intervir a sul do Ebro. De fato, nesta altura, o Estado romano carecia de qualquer ligação direta à Hispânia, exceto se considerarmos que a sua aliada, Massília, tinha comunidades dependentes em Empório e Rode. Em determinada altura, depois de 226, Roma associou-se à cidade de Sagunto (a moderna Sagunto, perto de Valência). Polibio diz-nos que isto aconteceu "alguns anos" antes da época de Hannibal. Mas seria plausível a sua menção no tratado do Ebro se a ligação já existisse, dado que a cidade se localizava muito a sul do rio. A discussão sobre se existia ou não um tratado formal garantindo o estatuto de aliada a Sagunto ou se a cidade simplesmente requereu a proteção de Roma, como Utica tentara fazer durante a Guerra dos Mercenários, não é relevante para o nosso propósito. A dada altura, o Senado romano foi solicitado a arbitrar a disputa interna da cidade, muito possivelmente entre facções rivais adeptas de Roma e Cartago, e os enviados ordenaram a execução de vários nobres saguntinos. Parecem óbvios para a cidade hispânica os atrativos de uma aliança com Roma. Sagunto, uma cidade-estado de importância local, assistiria com preocupação a expansão da província cartaginesa na sua direção. O apoio romano oferecia a maior segurança possível contra o seu poderoso vizinho. O motivo pelo qual os Romanos aceitaram a aliança é menos claro e está estreitamente associado à causa da guerra. Em 221, Hannibal, então com 26 anos de idade, sucedeu ao cunhado e continuou a agressiva politica expansionista na Hispânia, levando a cabo operações muito mais vastas do que os seus antecessores. Conduziu os seus exércitos contra as tribos da Hispânia Central, avançando bastante para norte, até região da moderna Salamanca. Cerca de 220-219, eclodiu uma disputa entre Sagunto e uma tribo vizinha, acusada de realizar incursões no seu território. Os pormenores são obscuros e até o nome do povo em causa é incerto, mas a tribo era aliada de Cartago e recebeu o apoio de Hannibal. No Inverno, uma embaixada romana apresentou-se a Hannibal, em Nova Cartago, e recordou-lhe a existência do tratado do Ebro, avisando-o também para não atacar Sagunto. A embaixada foi recebida com extrema frieza e deslocou-se a Cartago para repetir as suas exigências. O jovem general também pediu instruções a Cartago, e na Primavera conduziu o seu exercito contra a cidade. Sagunto situava-se numa posição forte, no cimo de uma colina, a quilómetro e meio do mar (No Outono de 1811,os defensores espanhóis de uma fortaleza improvisada entre as ruinas ibéricas, romanas e mouras da cidade repeliram vários ataques lançados por um dos mais capazes comandantes de Napoleão, Suchet.) Hannibal levou oito meses para se apoderar da cidade, mas desde o inicio foi claro que a sua intenção era toma-la de assalto e não submetê-la pela fome. As suas tácticas foram muito mais agressivas do que as adotadas pelos Cartagineses em qualquer um dos cercos da Primeira Guerra Púnica, pelo que as baixas também foram mais elevadas. Lívio diz mesmo que o próprio Hannibal foi ferido ao dirigir um ataque demasiado próximo da peleja. Os Romanos nada fizeram para auxiliar os Saguntinos depois de iniciado o assedio. Lívio afirma que enviaram outra embaixada a Hannibal, mas a sua cronologia é irremediavelmente confusa neste ponto e, dado que Polibio não menciona semelhante iniciativa, mais vale rejeitá-la. Sagunto caiu em finais de 219 ou nas primeiras semanas de 218, e a noticia poderá ter chegado a Roma num mês. No fim do Inverno, foi enviada a Cartago uma embaixada que incluía os dois cônsules de saída, Lúcio Emilio Paulo e Marco Lívio Salinator. Lívio diz que a delegação era chefiada por Quinto Fábio Máximo, ficando assim completo o trio que desempenharia papeis de relevo na guerra que se avizinhava, mas parece mais provável que o líder fosse Marco Fábio Buteão, o experiente ex-censor que combatera na Sicília quando era cônsul, em 245. A embaixada protestou contra os atos de Hannibal e exigiu saber se ele agia com a aprovação do senado cartaginês. Os Cartagineses viram-se confrontados com as alternativas de condenarem Hannibal e entregarem-no e aos seus oficiais superiores aos Romanos para serem punidos, ou de entrarem em guerra contra Roma.
Polibio sustenta a sua visão da motivação de Amílcar com um episódio narrado por Hannibal na corte do rei selêucida Antioco III, na década de 190. Pouco antes de partir para assumir o comando na Hispânia, Amílcar Barca sacrificou no altar de uma divindade a que Polibio chama Zeus e Lívio designa por Júpiter, mas tratava-se provavelmente de BaaI Shamin. Recebendo sinais favoráveis, chamou junto de si o seu filho Hannibal, então com nove anos de idade, e perguntou-lhe se gostaria de o acompanhar na expedição. O garoto, que provavelmente vira poucas vezes o pai durante os seus primeiros anos de vida, respondeu entusiasticamente, implorando-lhe autorização para ir com ele. Amílcar colocou a mão do rapaz na vitima sacrificial e obrigou-o a jurar solenemente nunca ser amigo dos Romanos. Hannibal contou esta história para convencer Antioco de que não estava conluiado com os Romanos, que eram inimigos do rei, e dado que Polibio a recebeu em terceira mão - na melhor das hipóteses -, é impossível avaliar a sua veracidade. Na versão romana, que é posterior, o juramento torna-se mais severo, com o garoto prometendo inimizade eterna a Roma. Na versão dos acontecimentos dada por Polibio, Hannibal herda do pai a guerra contra Roma, do mesmo modo que Alexandre Magno realizaria a expedição à Pérsia planejada por Filipe II, seu pai. Durante muito tempo, os historiadores modernos aceitaram esta interpretação e alguns foram mais longe, afirmando que o plano de invadir a Itália pelos Alpes e até as táticas de combate de Hannibal poderão ter sido concebidas pelo pai. Mais recentemente, a ideia de que a guerra foi um projeto premeditado dos Barcas caiu em desfavor, em parte porque os historiadores tem geralmente relutância em atribuir acontecimentos importantes aos humores e ações dos líderes, preferindo procurar a explicação em tendências mais gerais. O debate tem incidido, com mais frequência, nos pormenores e na cronologia dos acontecimentos que conduziram à guerra, dado que Polibio é vago nesta matéria, enquanto que as outras fontes que possuímos são de questionável credibilidade.
De importância fundamental é a questão de saber o que esperavam conseguir na Hispânia os Cartagineses liderados pelos Barcas, e também aqui temos que lamentar a ausência de fontes ilustrativas da perspectiva púnica. Tem-se partido do principio de que a perda de territórios rentáveis na Sicília e na Sardenha forçou Cartago a procurar receitas noutros locais, e as minas de prata ibéricas são amiúde citadas neste contexto. É certo que Amílcar colocou muitas delas sob controlo púnico, e embora tenham sido necessários vários anos para dar inicio à sua exploração, isto permitiu à sua família cunhar várias series de moedas com um teor de prata especialmente elevado. Noutros aspectos, é difícil perceber como é que a expansão na Hispânia permitiu uma exploração mais lucrativa dos seus recursos do que através das comunidades púnicas presentes na região. No curto prazo, várias campanhas bem sucedidas geraram certamente receitas consideráveis, parte das quais poderá ter chegado às mãos do Estado - daqui a resposta de Amílcar, quando a embaixada romana exigiu saber porque travava ele tantas guerras de conquista, de que necessitava de anexar terras para ter lucros com que pagar a divida de guerra púnica a Roma. Uma grande parte dos dividendos restantes das campanhas foi para pagar e aumentar o exército na Hispânia. Há muito que os oficiais púnicos recrutavam soldados hispânicos, mas a província bárcida assumiu o controle sobre grande parte desta enorme reserva de recursos humanos. As comunidades da Hispânia produziam um excedente de jovens que não podiam obter o seu sustento da terra e era frequente tonarem-se bandidos ou mercenários. Em pelo menos uma ocasião, Amílcar recrutou para o seu exército guerreiros inimigos capturados, dado que a remoção deste elemento da sociedade tornava as conquistas mais seguras. Os exércitos da Primeira Guerra Púnica tinham sido predominantemente africanos, mas embora muitos destes soldados ainda estivessem no ativo, na Segunda Guerra Púnica o seu número seria ultrapassado, de longe, pelos Hispânicos. Na sua maioria, estes guerreiros hispânicos não serviriam como mercenários, por dinheiro, mas sim na qualidade de aliados. A Hispânia proporcionou aos Barcas e - dependendo da perspectiva que se tenha da independência do seu poder - a Cartago uma força militar formidável e a riqueza para a sustentar. Embora este recurso tenha permitido a Hannibal prosseguir a guerra com tanta eficácia, isto não significa necessariamente que tenha sido criado para a fazer. Poderá argumentar-se que o incremento do poderio militar púnico foi essencialmente defensivo, dando-lhe alguma proteção contra atos romanos tão arbitrários como o roubo da Sardenha. A perda da guerra contra Roma e os acontecimentos que se lhe seguiram foram claramente um grande golpe para o orgulho de um império poderoso. A empresa hispânica poderia simplesmente ter sido uma tentativa de reafirmação da sua independência. Contudo, para validar esta afirmação seria necessário acreditar que o ataque de Hannibal a Sagunto foi uma mera declaração de revivalismo do poderio púnico, que não contava provocar uma guerra com Roma. A rapidez com que Hannibal deu início aos colossais preparativos para a expedição à Itália torna esta hipótese extremamente improvável. Os Romanos parecem ter sentido sempre algum nervosismo perante as atividades dos Barcas na Hispânia, como comprova o número de embaixadas que aí enviaram.
A Segunda Guerra Púnica foi claramente uma herança do primeiro conflito, que terminou subitamente, com ambos os beligerantes quase no mesmo nível de exaustão. Os Romanos esperavam que as guerras que travavam se saldassem pela vitória completa das suas armas, com o ex-inimigo deixando de constituir uma ameaça ao ser geralmente absorvido na qualidade de aliado subordinado. Fosse qual fosse a autonomia interna que preservavam, os aliados não estavam autorizados a conduzir uma politica externa independente, e muito menos uma que entrasse em conflito com os interesses de Roma. Em 241, Cartago era demasiado grande e estava demasiado longe para ser absorvida por Roma do mesmo modo que acontecera grande parte da Itália, mas mesmo assim os Romanos negaram-se a tratá-la como igual nas décadas que se seguiram à guerra. A Sardenha deu corpo a um exemplo gritante desta atitude, com os Cartagineses obrigados a curvarem-se perante uma exigência injusta, e as repetidas intervenções romanas na Hispânia foram outro sintoma. Embora o tratado do Ebro possa não ter imposto grandes limites a expansão cartaginesa na Hispânia, deixou bem claro que os Romanos se sentiam no direito de imporem restrições as atividades púnicas longe de território romano. A aceitação de uma ligação com Sagunto recordou aos Cartagineses que os Romanos não se submetiam aos mesmos constrangimentos. O pagamento anual da indenização era uma lembrança constante da derrota de Cartago, mas estaria provavelmente concluído em meados da década de 220, e foi talvez nesta altura que Roma se começou a interessar cada vez mais pela Península Ibérica. Um antigo inimigo que aparentasse estar a converter-se de novo numa potência independente e rival seria considerado pelos Romanos uma ameaça inequívoca, independentemente da realidade da situação militar. As intervenções das embaixadas romanas serviram para recordar a Cartago o seu estatuto. Até 219, os Cartagineses cederam sempre perante as exigências romanas. É muitíssimo provável que o Senado contasse que o fizessem de novo quando a delegação disse a Hannibal para não atacar Sagunto, e a surpresa dos senadores quando ele ignorou a proibição ajuda a explicar porque é que os Romanos não enviaram nenhuma ajuda a cidade. Os Cartagineses não viam qualquer razão para se comportarem como um aliado subordinado de Roma. A sua cultura militar era diferente da romana e não esperava que os desfechos das guerras fossem tão definitivos. Além do mais, o seu poder real não fora tão enfraquecido pela derrota de 241 como a atitude romana sugeria, especialmente depois de Cartago ter recuperado dos custos da guerra e da agitação da Revolta dos Mercenários. Cartago ainda era um Estado grande e rico, com extensos territórios na África e um reino em expansão na Hispânia. Não existiam bons motivos para que os cidadãos púnicos considerassem a sua cidade inferior a Roma, e é compreensível o seu ressentimento face a recusa dos Romanos de reconhecerem esta realidade. Ambos os Estados possuíam amplos recursos para fazerem a guerra e desconfiavam um do outro. Nestas circunstâncias, a retoma das hostilidades afigura-se menos surpreendente. O desejo de se reafirmarem como potência independente era tão natural para os Cartagineses como aparentemente ameaçador para os Romanos. Alguns indivíduos poderão ter desejado e planejado a guerra. Hannibal era um jovem nobre a frente de um exército poderoso e estava seguro da sua capacidade para o comandar. Os autores antigos explicam sempre as grandes guerras como inspiradas pela ânsia de gloria de reis, imperadores e príncipes, e faríamos mal em rejeitar Iiminarmente esta visão. É possível que Hannibal tenha procurado uma guerra, e não restam dúvidas de que a aceitou prontamente e que a travou com considerável entusiasmo. Poderia certamente existir em Cartago quem se opusesse ao jovem general e desejasse a paz, mas a verdade é que a maioria da elite não via motivos para que o renovado Estado púnico se submetesse a exigências romanas tão arrogantes. É impossível dizer se aquiesceram nas atividades de Hannibal que provocaram a crise, ou se as terão mesmo ordenado.Existiram decerto momentos de tensão depois da Primeira Guerra Púnica, mas as relações entre Roma e Cartago não eram inteiramente hostis. Renovado o intercâmbio comercial, os mercadores púnicos eram uma visão tão familiar em Roma como os italianos parecem ter sido em Cartago. Com efeito, terá sido durante estes anos que foram criados laços de hospitalidade - ou ressuscitados os anteriores a 265 -, uma característica tão comum das relações internacionais no mundo antigo, ligando famílias aristocráticas púnicas e romanas. A paz concluída em 241 durou vinte e três anos, se descontarmos a ameaça romana de reabrir as hostilidades por causa da Sardenha, em 238, e terminou quando Hannibal Barca, comandante supremo cartaginês na Hispânia, atacou a cidade ibérica de Sagunto, que estava sob proteção romana. Nenhuma das partes se mostrou muito relutante em entrar em guerra, não obstante as memórias do conflito anterior que fora renhido e dispendioso. Os motivos que as levaram a guerra têm sido tema de intensos debates desde então, debates que procuram quase sempre atribuir a culpa a uma das partes. E com igual frequência, os historiadores têm caído na armadilha de analisar os eventos em função de padrões modernos, esquecendo-se de que até Estados antigos mais politicamente avançados entravam em guerra com frequência e entusiasmo, em especial quando contavam vencer e imaginavam os benefícios que a vitória lhes traria. Antes de abordarmos estas questões, convirá passarmos em revista à sucessão de acontecimentos que levaram à declaração de guerra por parte de Roma. Provavelmente em 226, Asdrúbal aceitou as exigências de emissários romanos no sentido de os Cartagineses não atravessem o rio Ebro. A ideia de colocar uma fronteira física ao poder de um Estado era um conceito familiar a ambas as culturas. Nesse caso, não se tratou de uma grande restrição, já que o coração da província púnica ainda estava muito longe do rio. Os argumentos de que o tratado definiu uma fronteira muito mais a sul não convencem, e são ainda menores os fundamentos para o comum pressuposto de que os Romanos se comprometeram a não intervir a sul do Ebro. De fato, nesta altura, o Estado romano carecia de qualquer ligação direta à Hispânia, exceto se considerarmos que a sua aliada, Massília, tinha comunidades dependentes em Empório e Rode. Em determinada altura, depois de 226, Roma associou-se à cidade de Sagunto (a moderna Sagunto, perto de Valência). Polibio diz-nos que isto aconteceu "alguns anos" antes da época de Hannibal. Mas seria plausível a sua menção no tratado do Ebro se a ligação já existisse, dado que a cidade se localizava muito a sul do rio. A discussão sobre se existia ou não um tratado formal garantindo o estatuto de aliada a Sagunto ou se a cidade simplesmente requereu a proteção de Roma, como Utica tentara fazer durante a Guerra dos Mercenários, não é relevante para o nosso propósito. A dada altura, o Senado romano foi solicitado a arbitrar a disputa interna da cidade, muito possivelmente entre facções rivais adeptas de Roma e Cartago, e os enviados ordenaram a execução de vários nobres saguntinos. Parecem óbvios para a cidade hispânica os atrativos de uma aliança com Roma. Sagunto, uma cidade-estado de importância local, assistiria com preocupação a expansão da província cartaginesa na sua direção. O apoio romano oferecia a maior segurança possível contra o seu poderoso vizinho. O motivo pelo qual os Romanos aceitaram a aliança é menos claro e está estreitamente associado à causa da guerra. Em 221, Hannibal, então com 26 anos de idade, sucedeu ao cunhado e continuou a agressiva politica expansionista na Hispânia, levando a cabo operações muito mais vastas do que os seus antecessores. Conduziu os seus exércitos contra as tribos da Hispânia Central, avançando bastante para norte, até região da moderna Salamanca. Cerca de 220-219, eclodiu uma disputa entre Sagunto e uma tribo vizinha, acusada de realizar incursões no seu território. Os pormenores são obscuros e até o nome do povo em causa é incerto, mas a tribo era aliada de Cartago e recebeu o apoio de Hannibal. No Inverno, uma embaixada romana apresentou-se a Hannibal, em Nova Cartago, e recordou-lhe a existência do tratado do Ebro, avisando-o também para não atacar Sagunto. A embaixada foi recebida com extrema frieza e deslocou-se a Cartago para repetir as suas exigências. O jovem general também pediu instruções a Cartago, e na Primavera conduziu o seu exercito contra a cidade. Sagunto situava-se numa posição forte, no cimo de uma colina, a quilómetro e meio do mar (No Outono de 1811,os defensores espanhóis de uma fortaleza improvisada entre as ruinas ibéricas, romanas e mouras da cidade repeliram vários ataques lançados por um dos mais capazes comandantes de Napoleão, Suchet.) Hannibal levou oito meses para se apoderar da cidade, mas desde o inicio foi claro que a sua intenção era toma-la de assalto e não submetê-la pela fome. As suas tácticas foram muito mais agressivas do que as adotadas pelos Cartagineses em qualquer um dos cercos da Primeira Guerra Púnica, pelo que as baixas também foram mais elevadas. Lívio diz mesmo que o próprio Hannibal foi ferido ao dirigir um ataque demasiado próximo da peleja. Os Romanos nada fizeram para auxiliar os Saguntinos depois de iniciado o assedio. Lívio afirma que enviaram outra embaixada a Hannibal, mas a sua cronologia é irremediavelmente confusa neste ponto e, dado que Polibio não menciona semelhante iniciativa, mais vale rejeitá-la. Sagunto caiu em finais de 219 ou nas primeiras semanas de 218, e a noticia poderá ter chegado a Roma num mês. No fim do Inverno, foi enviada a Cartago uma embaixada que incluía os dois cônsules de saída, Lúcio Emilio Paulo e Marco Lívio Salinator. Lívio diz que a delegação era chefiada por Quinto Fábio Máximo, ficando assim completo o trio que desempenharia papeis de relevo na guerra que se avizinhava, mas parece mais provável que o líder fosse Marco Fábio Buteão, o experiente ex-censor que combatera na Sicília quando era cônsul, em 245. A embaixada protestou contra os atos de Hannibal e exigiu saber se ele agia com a aprovação do senado cartaginês. Os Cartagineses viram-se confrontados com as alternativas de condenarem Hannibal e entregarem-no e aos seus oficiais superiores aos Romanos para serem punidos, ou de entrarem em guerra contra Roma.
O estilo de diplomacia praticado pelas embaixadas
romanas raramente parece ter sido muito sutil, mas neste caso os Romanos eram
claramente obrigados a vingarem um ataque contra um aliado. Numa versão da
história, que refere um poderoso partido oposto aos Barcas, um certo Hanão terá
condenado as ações de Hannibal mas os Cartagineses, na sua maioria, responderam
furiosamente as bruscas exigências romanas. Negaram-se a reconhecer o tratado
do Ebro, dizendo que nunca o tinham ratificado, citaram o exemplo de Catulo,
que em 241 submetera os termos de paz a apreciação de Roma, e contestaram a sua
obrigatoriedade de terem que reconhecer qualquer relação entre Roma e Sagunto.
Reza a história que Fábio se plantou no meio da câmara e anunciou que trazia
nas dobras da toga a paz e a guerra, e que deixaria cair a que os Cartagineses
escolhessem. Os ânimos dos senadores púnicos exaltaram-se e o sufeta presidente
gritou-lhe que escolhesse ele. Quando Fábio respondeu que deixava cair a
guerra, o salão encheu-se com um grande grito de "Aceitamos". Assim
foi declarada a guerra, mas talvez já fosse inevitável. Regressado aos
aquartelamentos de Inverno depois da queda de Sagunto, Hannibal fez seguramente
preparativos para a invasão da Itália, e também é bastante possível que os
Comitia Centuriata já tivessem votado a favor da guerra caso os embaixadores
não conseguissem uma resposta satisfatória de Cartago. Polibio discute com
algum detalhe as causas subjacentes à retoma das hostilidades e conclui que
foram três os fatores principais. O primeiro foi o ressentimento ou a raiva de
Amílcar Barca no fim da Primeira Guerra Púnica, ao ser forçado a capitular
apesar de invito na Sicília. O segundo fator - e o mais importante - foi a
descarada conquista romana da Sardenha, em 238, quando Cartago ainda se
encontrava abalada pela desordem da Revolta dos Mercenários. Esta humilhação,
além de aumentar o ressentimento de Amílcar, propalou o ódio a Roma a toda a
população púnica. Foi com o objetivo de construir uma base de poder para usar
contra Roma que Amílcar se deslocou para a Hispânia, lançando-se de corpo e
alma num programa de expansão. Os êxitos da sua família na Península Ibérica
constituíram a terceira causa, pois o crescimento do poderio cartaginês
encorajou os Púnicos a julgarem-se suficientemente fortes para derrotarem a sua
antiga rival.
Polibio sustenta a sua visão da motivação de Amílcar com um episódio narrado por Hannibal na corte do rei selêucida Antioco III, na década de 190. Pouco antes de partir para assumir o comando na Hispânia, Amílcar Barca sacrificou no altar de uma divindade a que Polibio chama Zeus e Lívio designa por Júpiter, mas tratava-se provavelmente de BaaI Shamin. Recebendo sinais favoráveis, chamou junto de si o seu filho Hannibal, então com nove anos de idade, e perguntou-lhe se gostaria de o acompanhar na expedição. O garoto, que provavelmente vira poucas vezes o pai durante os seus primeiros anos de vida, respondeu entusiasticamente, implorando-lhe autorização para ir com ele. Amílcar colocou a mão do rapaz na vitima sacrificial e obrigou-o a jurar solenemente nunca ser amigo dos Romanos. Hannibal contou esta história para convencer Antioco de que não estava conluiado com os Romanos, que eram inimigos do rei, e dado que Polibio a recebeu em terceira mão - na melhor das hipóteses -, é impossível avaliar a sua veracidade. Na versão romana, que é posterior, o juramento torna-se mais severo, com o garoto prometendo inimizade eterna a Roma. Na versão dos acontecimentos dada por Polibio, Hannibal herda do pai a guerra contra Roma, do mesmo modo que Alexandre Magno realizaria a expedição à Pérsia planejada por Filipe II, seu pai. Durante muito tempo, os historiadores modernos aceitaram esta interpretação e alguns foram mais longe, afirmando que o plano de invadir a Itália pelos Alpes e até as táticas de combate de Hannibal poderão ter sido concebidas pelo pai. Mais recentemente, a ideia de que a guerra foi um projeto premeditado dos Barcas caiu em desfavor, em parte porque os historiadores tem geralmente relutância em atribuir acontecimentos importantes aos humores e ações dos líderes, preferindo procurar a explicação em tendências mais gerais. O debate tem incidido, com mais frequência, nos pormenores e na cronologia dos acontecimentos que conduziram à guerra, dado que Polibio é vago nesta matéria, enquanto que as outras fontes que possuímos são de questionável credibilidade.
De importância fundamental é a questão de saber o que esperavam conseguir na Hispânia os Cartagineses liderados pelos Barcas, e também aqui temos que lamentar a ausência de fontes ilustrativas da perspectiva púnica. Tem-se partido do principio de que a perda de territórios rentáveis na Sicília e na Sardenha forçou Cartago a procurar receitas noutros locais, e as minas de prata ibéricas são amiúde citadas neste contexto. É certo que Amílcar colocou muitas delas sob controlo púnico, e embora tenham sido necessários vários anos para dar inicio à sua exploração, isto permitiu à sua família cunhar várias series de moedas com um teor de prata especialmente elevado. Noutros aspectos, é difícil perceber como é que a expansão na Hispânia permitiu uma exploração mais lucrativa dos seus recursos do que através das comunidades púnicas presentes na região. No curto prazo, várias campanhas bem sucedidas geraram certamente receitas consideráveis, parte das quais poderá ter chegado às mãos do Estado - daqui a resposta de Amílcar, quando a embaixada romana exigiu saber porque travava ele tantas guerras de conquista, de que necessitava de anexar terras para ter lucros com que pagar a divida de guerra púnica a Roma. Uma grande parte dos dividendos restantes das campanhas foi para pagar e aumentar o exército na Hispânia.
Polibio sustenta a sua visão da motivação de Amílcar com um episódio narrado por Hannibal na corte do rei selêucida Antioco III, na década de 190. Pouco antes de partir para assumir o comando na Hispânia, Amílcar Barca sacrificou no altar de uma divindade a que Polibio chama Zeus e Lívio designa por Júpiter, mas tratava-se provavelmente de BaaI Shamin. Recebendo sinais favoráveis, chamou junto de si o seu filho Hannibal, então com nove anos de idade, e perguntou-lhe se gostaria de o acompanhar na expedição. O garoto, que provavelmente vira poucas vezes o pai durante os seus primeiros anos de vida, respondeu entusiasticamente, implorando-lhe autorização para ir com ele. Amílcar colocou a mão do rapaz na vitima sacrificial e obrigou-o a jurar solenemente nunca ser amigo dos Romanos. Hannibal contou esta história para convencer Antioco de que não estava conluiado com os Romanos, que eram inimigos do rei, e dado que Polibio a recebeu em terceira mão - na melhor das hipóteses -, é impossível avaliar a sua veracidade. Na versão romana, que é posterior, o juramento torna-se mais severo, com o garoto prometendo inimizade eterna a Roma. Na versão dos acontecimentos dada por Polibio, Hannibal herda do pai a guerra contra Roma, do mesmo modo que Alexandre Magno realizaria a expedição à Pérsia planejada por Filipe II, seu pai. Durante muito tempo, os historiadores modernos aceitaram esta interpretação e alguns foram mais longe, afirmando que o plano de invadir a Itália pelos Alpes e até as táticas de combate de Hannibal poderão ter sido concebidas pelo pai. Mais recentemente, a ideia de que a guerra foi um projeto premeditado dos Barcas caiu em desfavor, em parte porque os historiadores tem geralmente relutância em atribuir acontecimentos importantes aos humores e ações dos líderes, preferindo procurar a explicação em tendências mais gerais. O debate tem incidido, com mais frequência, nos pormenores e na cronologia dos acontecimentos que conduziram à guerra, dado que Polibio é vago nesta matéria, enquanto que as outras fontes que possuímos são de questionável credibilidade.
De importância fundamental é a questão de saber o que esperavam conseguir na Hispânia os Cartagineses liderados pelos Barcas, e também aqui temos que lamentar a ausência de fontes ilustrativas da perspectiva púnica. Tem-se partido do principio de que a perda de territórios rentáveis na Sicília e na Sardenha forçou Cartago a procurar receitas noutros locais, e as minas de prata ibéricas são amiúde citadas neste contexto. É certo que Amílcar colocou muitas delas sob controlo púnico, e embora tenham sido necessários vários anos para dar inicio à sua exploração, isto permitiu à sua família cunhar várias series de moedas com um teor de prata especialmente elevado. Noutros aspectos, é difícil perceber como é que a expansão na Hispânia permitiu uma exploração mais lucrativa dos seus recursos do que através das comunidades púnicas presentes na região. No curto prazo, várias campanhas bem sucedidas geraram certamente receitas consideráveis, parte das quais poderá ter chegado às mãos do Estado - daqui a resposta de Amílcar, quando a embaixada romana exigiu saber porque travava ele tantas guerras de conquista, de que necessitava de anexar terras para ter lucros com que pagar a divida de guerra púnica a Roma. Uma grande parte dos dividendos restantes das campanhas foi para pagar e aumentar o exército na Hispânia.
Há muito que os oficiais púnicos recrutavam
soldados hispânicos, mas a província bárcida assumiu o controle sobre grande
parte desta enorme reserva de recursos humanos. As comunidades da Hispânia
produziam um excedente de jovens que não podiam obter o seu sustento da terra e
era frequente tonarem-se bandidos ou mercenários. Em pelo menos uma ocasião,
Amílcar recrutou para o seu exército guerreiros inimigos capturados, dado que a
remoção deste elemento da sociedade tornava as conquistas mais seguras. Os
exércitos da Primeira Guerra Púnica tinham sido predominantemente africanos,
mas embora muitos destes soldados ainda estivessem no ativo, na Segunda Guerra
Púnica o seu número seria ultrapassado, de longe, pelos Hispânicos. Na sua
maioria, estes guerreiros hispânicos não serviriam como mercenários, por
dinheiro, mas sim na qualidade de aliados. A Hispânia proporcionou aos Barcas e
- dependendo da perspectiva que se tenha da independência do seu poder - a
Cartago uma força militar formidável e a riqueza para a sustentar. Embora este
recurso tenha permitido a Hannibal prosseguir a guerra com tanta eficácia, isto
não significa necessariamente que tenha sido criado para a fazer. Poderá
argumentar-se que o incremento do poderio militar púnico foi essencialmente
defensivo, dando-lhe alguma proteção contra atos romanos tão arbitrários como o
roubo da Sardenha. A perda da guerra contra Roma e os acontecimentos que se lhe
seguiram foram claramente um grande golpe para o orgulho de um império
poderoso. A empresa hispânica poderia simplesmente ter sido uma tentativa de
reafirmação da sua independência. Contudo, para validar esta afirmação seria
necessário acreditar que o ataque de Hannibal a Sagunto foi uma mera declaração
de revivalismo do poderio púnico, que não contava provocar uma guerra com Roma.
A rapidez com que Hannibal deu início aos colossais preparativos para a
expedição à Itália torna esta hipótese extremamente improvável. Os Romanos
parecem ter sentido sempre algum nervosismo perante as atividades dos Barcas na
Hispânia, como comprova o número de embaixadas que aí enviaram.
A Segunda Guerra Púnica foi claramente uma herança do primeiro conflito, que terminou subitamente, com ambos os beligerantes quase no mesmo nível de exaustão. Os Romanos esperavam que as guerras que travavam se saldassem pela vitória completa das suas armas, com o ex-inimigo deixando de constituir uma ameaça ao ser geralmente absorvido na qualidade de aliado subordinado. Fosse qual fosse a autonomia interna que preservavam, os aliados não estavam autorizados a conduzir uma politica externa independente, e muito menos uma que entrasse em conflito com os interesses de Roma. Em 241, Cartago era demasiado grande e estava demasiado longe para ser absorvida por Roma do mesmo modo que acontecera grande parte da Itália, mas mesmo assim os Romanos negaram-se a tratá-la como igual nas décadas que se seguiram à guerra. A Sardenha deu corpo a um exemplo gritante desta atitude, com os Cartagineses obrigados a curvarem-se perante uma exigência injusta, e as repetidas intervenções romanas na Hispânia foram outro sintoma. Embora o tratado do Ebro possa não ter imposto grandes limites a expansão cartaginesa na Hispânia, deixou bem claro que os Romanos se sentiam no direito de imporem restrições as atividades púnicas longe de território romano.
A Segunda Guerra Púnica foi claramente uma herança do primeiro conflito, que terminou subitamente, com ambos os beligerantes quase no mesmo nível de exaustão. Os Romanos esperavam que as guerras que travavam se saldassem pela vitória completa das suas armas, com o ex-inimigo deixando de constituir uma ameaça ao ser geralmente absorvido na qualidade de aliado subordinado. Fosse qual fosse a autonomia interna que preservavam, os aliados não estavam autorizados a conduzir uma politica externa independente, e muito menos uma que entrasse em conflito com os interesses de Roma. Em 241, Cartago era demasiado grande e estava demasiado longe para ser absorvida por Roma do mesmo modo que acontecera grande parte da Itália, mas mesmo assim os Romanos negaram-se a tratá-la como igual nas décadas que se seguiram à guerra. A Sardenha deu corpo a um exemplo gritante desta atitude, com os Cartagineses obrigados a curvarem-se perante uma exigência injusta, e as repetidas intervenções romanas na Hispânia foram outro sintoma. Embora o tratado do Ebro possa não ter imposto grandes limites a expansão cartaginesa na Hispânia, deixou bem claro que os Romanos se sentiam no direito de imporem restrições as atividades púnicas longe de território romano.
A aceitação de uma ligação com Sagunto recordou aos
Cartagineses que os Romanos não se submetiam aos mesmos constrangimentos. O
pagamento anual da indenização era uma lembrança constante da derrota de
Cartago, mas estaria provavelmente concluído em meados da década de 220, e foi
talvez nesta altura que Roma se começou a interessar cada vez mais pela
Península Ibérica. Um antigo inimigo que aparentasse estar a converter-se de
novo numa potência independente e rival seria considerado pelos Romanos uma
ameaça inequívoca, independentemente da realidade da situação militar. As
intervenções das embaixadas romanas serviram para recordar a Cartago o seu
estatuto. Até 219, os Cartagineses cederam sempre perante as exigências
romanas. É muitíssimo provável que o Senado contasse que o fizessem de novo
quando a delegação disse a Hannibal para não atacar Sagunto, e a surpresa dos
senadores quando ele ignorou a proibição ajuda a explicar porque é que os
Romanos não enviaram nenhuma ajuda a cidade.
Os Cartagineses não viam qualquer razão para se comportarem como um aliado subordinado de Roma. A sua cultura militar era diferente da romana e não esperava que os desfechos das guerras fossem tão definitivos. Além do mais, o seu poder real não fora tão enfraquecido pela derrota de 241 como a atitude romana sugeria, especialmente depois de Cartago ter recuperado dos custos da guerra e da agitação da Revolta dos Mercenários. Cartago ainda era um Estado grande e rico, com extensos territórios na África e um reino em expansão na Hispânia. Não existiam bons motivos para que os cidadãos púnicos considerassem a sua cidade inferior a Roma, e é compreensível o seu ressentimento face a recusa dos Romanos de reconhecerem esta realidade. Ambos os Estados possuíam amplos recursos para fazerem a guerra e desconfiavam um do outro. Nestas circunstâncias, a retoma das hostilidades afigura-se menos surpreendente. O desejo de se reafirmarem como potência independente era tão natural para os Cartagineses como aparentemente ameaçador para os Romanos. Alguns indivíduos poderão ter desejado e planejado a guerra. Hannibal era um jovem nobre a frente de um exército poderoso e estava seguro da sua capacidade para o comandar. Os autores antigos explicam sempre as grandes guerras como inspiradas pela ânsia de gloria de reis, imperadores e príncipes, e faríamos mal em rejeitar Iiminarmente esta visão. É possível que Hannibal tenha procurado uma guerra, e não restam dúvidas de que a aceitou prontamente e que a travou com considerável entusiasmo. Poderia certamente existir em Cartago quem se opusesse ao jovem general e desejasse a paz, mas a verdade é que a maioria da elite não via motivos para que o renovado Estado púnico se submetesse a exigências romanas tão arrogantes. É impossível dizer se aquiesceram nas atividades de Hannibal que provocaram a crise, ou se as terão mesmo ordenado.
Os Cartagineses não viam qualquer razão para se comportarem como um aliado subordinado de Roma. A sua cultura militar era diferente da romana e não esperava que os desfechos das guerras fossem tão definitivos. Além do mais, o seu poder real não fora tão enfraquecido pela derrota de 241 como a atitude romana sugeria, especialmente depois de Cartago ter recuperado dos custos da guerra e da agitação da Revolta dos Mercenários. Cartago ainda era um Estado grande e rico, com extensos territórios na África e um reino em expansão na Hispânia. Não existiam bons motivos para que os cidadãos púnicos considerassem a sua cidade inferior a Roma, e é compreensível o seu ressentimento face a recusa dos Romanos de reconhecerem esta realidade. Ambos os Estados possuíam amplos recursos para fazerem a guerra e desconfiavam um do outro. Nestas circunstâncias, a retoma das hostilidades afigura-se menos surpreendente. O desejo de se reafirmarem como potência independente era tão natural para os Cartagineses como aparentemente ameaçador para os Romanos. Alguns indivíduos poderão ter desejado e planejado a guerra. Hannibal era um jovem nobre a frente de um exército poderoso e estava seguro da sua capacidade para o comandar. Os autores antigos explicam sempre as grandes guerras como inspiradas pela ânsia de gloria de reis, imperadores e príncipes, e faríamos mal em rejeitar Iiminarmente esta visão. É possível que Hannibal tenha procurado uma guerra, e não restam dúvidas de que a aceitou prontamente e que a travou com considerável entusiasmo. Poderia certamente existir em Cartago quem se opusesse ao jovem general e desejasse a paz, mas a verdade é que a maioria da elite não via motivos para que o renovado Estado púnico se submetesse a exigências romanas tão arrogantes. É impossível dizer se aquiesceram nas atividades de Hannibal que provocaram a crise, ou se as terão mesmo ordenado.
Os Romanos reagiram com muita lentidão ao ataque a
Sagunto, provavelmente em parte, como vimos, por esperarem que os Cartagineses
se submetessem à pressão diplomática. Além disso, a prática bélica romana ainda
estava muito ligada ao ano consular. Quando o Senado soube que Sagunto estava
sitiada, os cônsules desse ano já se encontravam no estrangeiro, no comando da
esquadra e do exército em campanha na Ilíria. Esta guerra ainda estava em
curso, e mesmo que um cônsul fosse chamado levaria algum tempo a recrutar um
novo exército. Por conseguinte, a época de campanha já estaria bastante
adiantada quando um exército romano chegasse a Hispânia, e serlhe-ia difícil
conseguir alguma coisa antes que o Inverno pusesse fim às operações. Era mais
sensato e, pelos padrões romanos, próprio para o Senado aguardar e atribuir a
importante guerra contra Cartago como responsabilidade especial aos cônsules de
218, que assumiriam o cargo em Março. Obviamente, isto de pouco serviu aos
Saguntinos, que lutaram sozinhos até ao fim contra um inimigo avassalador mas é
duvidoso que lhes pudesse ter sido enviado qualquer auxilio eficaz. O plano do
Senado para a conduta da guerra era simples e direto, de um modo
caracteristicamente romano. Os cônsules operariam separadamente, um indo para a
Hispânia para fazer frente a Hannibal, enquanto o outro iria para a Sicília, de
onde lançaria uma invasão ao Norte da África. Assim, o general inimigo que
provocara a guerra seria derrotado em combate e as autoridades cartaginesas que
o tinham apoiado ver-se-iam a braços com um ataque direto à sua cidade. Ao
confrontarem o inimigo nos seus pontos mais fortes, os Romanos colocavam uma
forte pressão sobre os pilares da sua oposição. Cartago quase se vergara sob
esta pressão em 256-255, e não havia razões para pensar que não voltaria a
faze-lo. De fato, dada a tendência de Cartago de ceder às ameaças romanas nas
décadas entre as guerras, os Romanos terão contado que seria menos resistente
em caso de guerra.
Quanto aos cônsules de 218, Público Cornélio Cipião recebeu a Hispânia como província e Tibério Semprônio Longo a Sicília e a África. Foram criadas seis legiões para esse ano, consistindo cada uma de 4000 infantes e 300 cavaleiros. Foi atribuído a cada cônsul um exército consular padrão de duas legiões apoiadas por duas alas latinas. No total, Cipião recebeu 14.000 infantes e 1.600 cavaleiros aliados, e Longo 16.000 infantes e 18000 cavaleiros. As restantes legiões, juntamente com 10.000 infantes e 1.000 cavaleiros aliados, foram enviadas para a Gália Cisalpina, sob o comando do Pretor Lúcio Mânlio Vulsao. A prontidão para alterar o tamanho dos contingentes aliados de modo a lidar com a escala do problema demonstra mais uma vez que o sistema militar romano não era tão rígido como às vezes se julga. A avaliação que o Senado fez da tarefa em mãos refletiu-se também na distribuição dos recursos navais. Longo, cuja projetada invasão da África contaria possivelmente com a oposição de uma poderosa esquadra púnica, recebeu 160 quinquerremes e vinte navios mais ligeiros. Cipião teria muito menos probabilidades de encontrar uma forte armada inimiga ao deslocar o seu exercito para a Hispânia, pelo que lá foram atribuídos sessenta "cincos". A recente guerra na Ilíria terá garantido a boa condição da marinha romana. Antes que pudesse ser empreendida qualquer movimentação contra Cartago, eclodiu uma rebelião na Gália Cisalpina, novamente provocada pelo ressentimento das tribos perante as incursões dos colonos romanos. Os Boios e os Insubres expulsaram-nos das colônias de Cremona e Placência, que ainda não estavam fortificadas, e perseguiram-nos até a cidade de Mutina. Depois, os Gauleses plantaram-se junto s muralhas da urbe e deram início a um bloqueio. Três comissários senatoriais, enviados para organizarem a distribuição de terras nas novas colônias, foram presos ao tentarem negociar. Partiu imediatamente uma coluna de socorro, sob o comando do pretor Mânlio Vulsão. Marchando rapidamente e negligenciando o reconhecimento do terreno, foi emboscada ao avançar por um trilho numa região densamente arborizada e sofreu pesadas baixas - Lívio afirma que se perderam 500 homens numa primeira emboscada e 700 e seis estandartes na segunda. O exército, muito maltratado, conseguiu chegar a uma cidadezinha chamada Taneto, onde ficou também bloqueado. A situação era grave e a agitação na Gália Cisalpina demasiado próxima de Roma para que o Senado a ignorasse até a conclusão da guerra contra Cartago. O exército de Cipião estava a reunir-se no Norte de Itália antes de partir para a Hispânia, pelo que o Senado ordenou a outro pretor, Gaio Atulio Serrano, que assumisse o comando de uma legião e 5000 soldados aliados e socorresse Mânlio, uma missão que ele cumpriu com rapidez e sem oposição. Cipião recebeu ordens para recrutar uma nova legião e tropas aliadas adicionais para substituir estas unidades, mas não é claro se o total avançado por Lívio de seis legiões constituídas para esse ano inclui este contingente. A demora consequente significou o adiamento do avanço para a Hispdnia. Entretanto, Longo rumou a Lilibeu, onde empreendeu grandes preparativos pana a expedição africana. No entanto, a guerra não seria travada como o Senado contava.
Durante a Primeira Guerra Púnica, os Cartagineses tinham invariavelmente respondido as movimentações romanas em vez de tentarem eles próprios ditar o rumo da contenda. Tinham sido sempre os seus oponentes a escalar o conflito e a procurar um resultado decisivo. Pois a Segunda Guerra Púnica foi muito diferente desde o início, e a principal razão para que assim tenha sido prende-se com a influência de um homem, Hannibal Barca. Nas fontes, Hannibal é apresentado como o autor de todas as decisões cruciais para organizar o esforço bélico púnico inicial, em 219-218, não só na Hispânia, mas também na África. Por norma, os Cartagineses interferiam muito pouco com os generais que nomeavam para as suas missões, chegando frequentemente ao ponto de não os apoiarem nas operações subsequentes, mas os recursos ao dispor imediato do jovem general eram enormes. É nesta altura, mais do que em qualquer outra, que Hannibal aparenta ser o senhor do principado semi-independente da Hispânia retratado por alguns estudiosos. A guerra eclodira a propósito de uma disputa local na Hispânia, com os Cartagineses deixando de reconhecer as restrições que os Romanos lhes tinham imposto na região. Os Romanos esperavam claramente que os Cartagineses permanecessem no local e travassem uma guerra defensiva para protegerem o seu território, semelhança da que tinham travado na Sicília. Com as forças ao seu dispor, Aníbal encontrava-se numa posição sólida para enfrentar qualquer invasão. De fato, beneficiaria de uma grande superioridade numérica sobre o único exército consular que Cipião ia conduzir para a Península, e derrotá-lo-ia facilmente se conseguisse forçá-lo ao combate. Contudo, a experiência da Primeira Guerra Púnica mostrara que a destruição de uma esquadra ou de um exército romanos significaria simplesmente que seriam substituídos por outros. A tenaz persistência que os Romanos haviam demonstrado face a perdas colossais tornava improvável que desistissem rapidamente.
Quanto aos cônsules de 218, Público Cornélio Cipião recebeu a Hispânia como província e Tibério Semprônio Longo a Sicília e a África. Foram criadas seis legiões para esse ano, consistindo cada uma de 4000 infantes e 300 cavaleiros. Foi atribuído a cada cônsul um exército consular padrão de duas legiões apoiadas por duas alas latinas. No total, Cipião recebeu 14.000 infantes e 1.600 cavaleiros aliados, e Longo 16.000 infantes e 18000 cavaleiros. As restantes legiões, juntamente com 10.000 infantes e 1.000 cavaleiros aliados, foram enviadas para a Gália Cisalpina, sob o comando do Pretor Lúcio Mânlio Vulsao. A prontidão para alterar o tamanho dos contingentes aliados de modo a lidar com a escala do problema demonstra mais uma vez que o sistema militar romano não era tão rígido como às vezes se julga. A avaliação que o Senado fez da tarefa em mãos refletiu-se também na distribuição dos recursos navais. Longo, cuja projetada invasão da África contaria possivelmente com a oposição de uma poderosa esquadra púnica, recebeu 160 quinquerremes e vinte navios mais ligeiros. Cipião teria muito menos probabilidades de encontrar uma forte armada inimiga ao deslocar o seu exercito para a Hispânia, pelo que lá foram atribuídos sessenta "cincos". A recente guerra na Ilíria terá garantido a boa condição da marinha romana. Antes que pudesse ser empreendida qualquer movimentação contra Cartago, eclodiu uma rebelião na Gália Cisalpina, novamente provocada pelo ressentimento das tribos perante as incursões dos colonos romanos. Os Boios e os Insubres expulsaram-nos das colônias de Cremona e Placência, que ainda não estavam fortificadas, e perseguiram-nos até a cidade de Mutina. Depois, os Gauleses plantaram-se junto s muralhas da urbe e deram início a um bloqueio. Três comissários senatoriais, enviados para organizarem a distribuição de terras nas novas colônias, foram presos ao tentarem negociar. Partiu imediatamente uma coluna de socorro, sob o comando do pretor Mânlio Vulsão. Marchando rapidamente e negligenciando o reconhecimento do terreno, foi emboscada ao avançar por um trilho numa região densamente arborizada e sofreu pesadas baixas - Lívio afirma que se perderam 500 homens numa primeira emboscada e 700 e seis estandartes na segunda. O exército, muito maltratado, conseguiu chegar a uma cidadezinha chamada Taneto, onde ficou também bloqueado. A situação era grave e a agitação na Gália Cisalpina demasiado próxima de Roma para que o Senado a ignorasse até a conclusão da guerra contra Cartago. O exército de Cipião estava a reunir-se no Norte de Itália antes de partir para a Hispânia, pelo que o Senado ordenou a outro pretor, Gaio Atulio Serrano, que assumisse o comando de uma legião e 5000 soldados aliados e socorresse Mânlio, uma missão que ele cumpriu com rapidez e sem oposição. Cipião recebeu ordens para recrutar uma nova legião e tropas aliadas adicionais para substituir estas unidades, mas não é claro se o total avançado por Lívio de seis legiões constituídas para esse ano inclui este contingente. A demora consequente significou o adiamento do avanço para a Hispdnia. Entretanto, Longo rumou a Lilibeu, onde empreendeu grandes preparativos pana a expedição africana. No entanto, a guerra não seria travada como o Senado contava.
Durante a Primeira Guerra Púnica, os Cartagineses tinham invariavelmente respondido as movimentações romanas em vez de tentarem eles próprios ditar o rumo da contenda. Tinham sido sempre os seus oponentes a escalar o conflito e a procurar um resultado decisivo. Pois a Segunda Guerra Púnica foi muito diferente desde o início, e a principal razão para que assim tenha sido prende-se com a influência de um homem, Hannibal Barca. Nas fontes, Hannibal é apresentado como o autor de todas as decisões cruciais para organizar o esforço bélico púnico inicial, em 219-218, não só na Hispânia, mas também na África. Por norma, os Cartagineses interferiam muito pouco com os generais que nomeavam para as suas missões, chegando frequentemente ao ponto de não os apoiarem nas operações subsequentes, mas os recursos ao dispor imediato do jovem general eram enormes. É nesta altura, mais do que em qualquer outra, que Hannibal aparenta ser o senhor do principado semi-independente da Hispânia retratado por alguns estudiosos. A guerra eclodira a propósito de uma disputa local na Hispânia, com os Cartagineses deixando de reconhecer as restrições que os Romanos lhes tinham imposto na região. Os Romanos esperavam claramente que os Cartagineses permanecessem no local e travassem uma guerra defensiva para protegerem o seu território, semelhança da que tinham travado na Sicília. Com as forças ao seu dispor, Aníbal encontrava-se numa posição sólida para enfrentar qualquer invasão. De fato, beneficiaria de uma grande superioridade numérica sobre o único exército consular que Cipião ia conduzir para a Península, e derrotá-lo-ia facilmente se conseguisse forçá-lo ao combate. Contudo, a experiência da Primeira Guerra Púnica mostrara que a destruição de uma esquadra ou de um exército romanos significaria simplesmente que seriam substituídos por outros. A tenaz persistência que os Romanos haviam demonstrado face a perdas colossais tornava improvável que desistissem rapidamente.
Quanto mais se prolongasse a guerra na Hispânia,
menos sólidas pareceriam as conquistas dos Barcas. Muitas tribos tinham ficado
atemorizadas face ao poderio militar púnico mas a sua lealdade poderia não
perdurar na presença de um exército hostil cujos comandantes não poupariam
seguramente esforços para seduzirem os chefes hispânicos. A prática bélica
cartaginesa, mais tradicional, resistir ao inimigo até o seu poder começar a
enfraquecer, na melhor das hipóteses, a perspectiva de um impasse prolongado
ou, no pior dos cenários, a derrota quando o inimigo era Roma. Hannibal
rejeitou a partida à opção defensiva e decidiu que deveriam ser empreendidos
todos os esforços para derrotar Roma. Dado que as pesadas perdas sofridas por
Roma no estrangeiro pouco tinham enfraquecido o seu poder, Roma teria que ser
confrontada e vencida no seu próprio território, na Itália.
Em muitos aspectos, a invasão da Itália foi uma operação marcadamente "romana", aplicando diretamente uma força poderosa contra um ponto forte do inimigo. Neste sentido, talvez fosse de esperar que os Romanos tivessem ficado menos surpreendidos quando Hannibal escolheu esta opção, mas a forma de guerrear púnica, conhecida do passado, não indiciava uma iniciativa arrojada, especialmente tendo em conta as inerentes dificuldades de ordem prática. Em 218, uma invasão anfíbia não era exequível.
Em muitos aspectos, a invasão da Itália foi uma operação marcadamente "romana", aplicando diretamente uma força poderosa contra um ponto forte do inimigo. Neste sentido, talvez fosse de esperar que os Romanos tivessem ficado menos surpreendidos quando Hannibal escolheu esta opção, mas a forma de guerrear púnica, conhecida do passado, não indiciava uma iniciativa arrojada, especialmente tendo em conta as inerentes dificuldades de ordem prática. Em 218, uma invasão anfíbia não era exequível.
Sem bases na Sicília, até o Sul de Itália ficava no
limite máximo do alcance operacional de uma esquadra de gales operando a partir
do Norte da África, e o poderio naval púnico na Hispânia não era substancial.
Em qualquer dos casos, o desembarque numa costa hostil, provavelmente face à
oposição de uma poderosa marinha romana, era uma empresa extremamente arriscada
e não é de crer que pudesse ser desembarcado um exército suficientemente grande
para operar com um mínimo de eficácia. Restava a opção de uma invasão terrestre
a partir da Hispânia, mas as dificuldades eram formidáveis. A expedição
implicaria uma marcha de centenas de quilômetros pelo território de tribos
neutrais - no melhor dos cenários - ou potencialmente hostis, e a travessia do
importante obstáculo formado pelos Alpes. Na Itália, o exército púnico não
disporia de nenhuma base nem de mantimentos, e teria pela frente um número
crescente de inimigos. Foi uma empresa arriscada, e o fato de conhecermos a
história não nos deve levar a ignorar o choque que os Romanos terão tido quando
souberam que fora precisamente essa a opção de Hannibal.
Depois da queda de Sagunto, Hannibal retirou para invernar em Nova Cartago, onde recompensou prodigamente os seus soldados com parte dos despojos. As tropas hispânicas foram autorizadas a regressar aos seus lares, com ordens para se apresentarem no princípio da Primavera. Prevendo corretamente as movimentações romanas, Hannibal tomou medidas para melhorar as defesas da África e da Hispânia. Os números relativos às forças envolvidas são invulgarmente precisos pelos padrões antigos, e Polibio diz-nos que provieram de uma inscrição erguida por ordem do próprio Hannibal durante a sua estada na Itália. A África foi reforçada com 13.850 infantes e 1200 cavaleiros ibéricos, apoiados por 870 dos selvagens fundibulários das Baleares. Um pequeno destacamento destas tropas foi estacionado na cidade de Cartago, juntamente com 4000 infantes Ilírios, que entregaram reféns como penhor do bom comportamento das suas comunidades.
Depois da queda de Sagunto, Hannibal retirou para invernar em Nova Cartago, onde recompensou prodigamente os seus soldados com parte dos despojos. As tropas hispânicas foram autorizadas a regressar aos seus lares, com ordens para se apresentarem no princípio da Primavera. Prevendo corretamente as movimentações romanas, Hannibal tomou medidas para melhorar as defesas da África e da Hispânia. Os números relativos às forças envolvidas são invulgarmente precisos pelos padrões antigos, e Polibio diz-nos que provieram de uma inscrição erguida por ordem do próprio Hannibal durante a sua estada na Itália. A África foi reforçada com 13.850 infantes e 1200 cavaleiros ibéricos, apoiados por 870 dos selvagens fundibulários das Baleares. Um pequeno destacamento destas tropas foi estacionado na cidade de Cartago, juntamente com 4000 infantes Ilírios, que entregaram reféns como penhor do bom comportamento das suas comunidades.
O grosso das forças foi instalado na região Líbia
conhecida por Metagônia. Asdrúbal, irmão de Hannibal, recebeu o comando da
província hispânica, dando continuidade à tradição de governo pelos Barcas.
Asdrúbal parece ter sido um homem capaz e gozava indubitavelmente da confiança
do irmão, mas outro motivo para a tomada desta decisão poderá ter sido a
natureza pessoal da lealdade entre as tribos hispânicas. Além dos aliados que
podiam ser recrutados na província, Asdrúbal recebeu um poderoso contingente de
soldados africanos. No total, dispunha de vinte e um elefantes, 2500 cavaleiros
(450 líbio-fenícios e líbios, 300 ilergetes e 1800 númidas oriundos de quatro
tribos) e 12.650 infantes, na sua maioria líbios mas incluindo 300 ligures e
500 fundibulários das Baleares. O apoio naval era garantido por uma pequena
esquadra de 50 "cincos", 2 "quatros" e 5 "três",
mas apenas uma parte - trinta e duas quinquerremes e todas as trirremes - se
encontrava devidamente guarnecida e em estado de prontidão. O intercâmbio de
soldados recrutados na Hispânia e na África era considerado um bom método para
garantir a sua lealdade, dificultando-lhes a possibilidade de desertarem e
regressarem a casa.
O grosso dos preparativos prendeu-se com a expedição à Itália, congregando, segundo Polibio, o gigantesco total de 12.000 cavaleiros e 90.000 infantes. Infelizmente, Polibio não entra em pormenores quanto à sua composição, embora seja provável que estivessem presentes a maioria das nacionalidades e tipos de tropas constantes dos outros contingentes. O grosso provinha evidentemente da Península Hispânica, e os acontecimentos posteriores mostram claramente a presença de representantes dos principais povos da região - Iberos, Lusitanos e Celtiberos. Estes povos tribais forneceram tropas de qualidade, cavalaria para combater em ordem cerrada e infantaria para combater em ordem cerrada e aberta. Incluíam-se ainda um forte contingente de infantaria regular africana, bem treinada e disciplinada, cavaleiros ligeiros e talvez alguns infantes númidas, e uma unidade de elefantes de guerra - Apiano fala em trinta e sete. Este exército era muito maior do que qualquer outra força registada para os Cartagineses durante o século, e é provável que muitos soldados, em particular os hispânicos, tivessem sido recrutados recentemente. O núcleo do exercito era constituído pelas tropas que, sob o comando de Hannibal, de seu pai e seu cunhado, tinham vencido as muitas guerras de conquista na Hispânia. Eram lideradas por um conjunto de oficiais superiores que conheciam e em quem confiavam. Estes homens tinham fundido os guerreiros de muitas raças díspares numa força de combate extremamente eficaz e que, para o número dos seus efetivos, era provavelmente melhor do que quaisquer outras forças então existentes no mundo mediterrânico.
Pelos padrões da época, esta gigantesca tropa requeria um gigantesco apoio logístico para se alimentar, vestir e equipar. Este problema terá ocupado Hannibal e os seus oficiais durante todo o Inverno e provavelmente durante muitos meses ou anos antes. Houve quem sugerisse que as campanhas hispânicas de Hannibal, a partir de 221, tiveram como um dos seus objetivos principais a conquista de algumas das regiões mais férteis da Península de modo a garantir o abastecimento de cereais para a projetada expedição à Itália. E havia muitos outros preparativos que não podiam ser completados rapidamente. Foram enviados homens para obterem o máximo possível de informações sobre a rota que se pensava seguir para Itália e, em particular, sobre os grandes obstáculos como os Alpes. Foram enviados representantes as tribos localizadas ao longo do caminho, em especial as da Gália Cisalpina, procurando o seu apoio contra Roma quando o exército chegasse à Itália.
O grosso dos preparativos prendeu-se com a expedição à Itália, congregando, segundo Polibio, o gigantesco total de 12.000 cavaleiros e 90.000 infantes. Infelizmente, Polibio não entra em pormenores quanto à sua composição, embora seja provável que estivessem presentes a maioria das nacionalidades e tipos de tropas constantes dos outros contingentes. O grosso provinha evidentemente da Península Hispânica, e os acontecimentos posteriores mostram claramente a presença de representantes dos principais povos da região - Iberos, Lusitanos e Celtiberos. Estes povos tribais forneceram tropas de qualidade, cavalaria para combater em ordem cerrada e infantaria para combater em ordem cerrada e aberta. Incluíam-se ainda um forte contingente de infantaria regular africana, bem treinada e disciplinada, cavaleiros ligeiros e talvez alguns infantes númidas, e uma unidade de elefantes de guerra - Apiano fala em trinta e sete. Este exército era muito maior do que qualquer outra força registada para os Cartagineses durante o século, e é provável que muitos soldados, em particular os hispânicos, tivessem sido recrutados recentemente. O núcleo do exercito era constituído pelas tropas que, sob o comando de Hannibal, de seu pai e seu cunhado, tinham vencido as muitas guerras de conquista na Hispânia. Eram lideradas por um conjunto de oficiais superiores que conheciam e em quem confiavam. Estes homens tinham fundido os guerreiros de muitas raças díspares numa força de combate extremamente eficaz e que, para o número dos seus efetivos, era provavelmente melhor do que quaisquer outras forças então existentes no mundo mediterrânico.
Pelos padrões da época, esta gigantesca tropa requeria um gigantesco apoio logístico para se alimentar, vestir e equipar. Este problema terá ocupado Hannibal e os seus oficiais durante todo o Inverno e provavelmente durante muitos meses ou anos antes. Houve quem sugerisse que as campanhas hispânicas de Hannibal, a partir de 221, tiveram como um dos seus objetivos principais a conquista de algumas das regiões mais férteis da Península de modo a garantir o abastecimento de cereais para a projetada expedição à Itália. E havia muitos outros preparativos que não podiam ser completados rapidamente. Foram enviados homens para obterem o máximo possível de informações sobre a rota que se pensava seguir para Itália e, em particular, sobre os grandes obstáculos como os Alpes. Foram enviados representantes as tribos localizadas ao longo do caminho, em especial as da Gália Cisalpina, procurando o seu apoio contra Roma quando o exército chegasse à Itália.
A memória recente das pesadas derrotas infligidas
pelos Romanos desde 225 garantiu uma calorosa recepção a estas aproximações.
Com aliados transalpinos, Hannibal poderia contar com provisões e acrescentar
muitos guerreiros ao seu exército. Polibio diz-nos que os emissários
regressaram no fim do Inverno e garantiram a Hannibal um bom acolhimento. Isto
significa que terão partido logo após a queda de Sagunto, o mais tardar, e é
bem possível que tenham partido antes. Todos estes preparativos indiciam que a
expedição à Itália, e consequentemente a guerra contra Roma, vinham sendo
ponderadas há muito e talvez ativamente preparadas pelo jovem general púnico.
Alguns autores vêem na expectativa de auxilio gaulês como parte do plano à
prova de que o conceito não pode ter sido elaborado antes de 225, pelo que, no
máximo, terá sido uma criação de Asdrúbal e não de Amílcar. Todavia, talvez
isto signifique apenas que um plano anterior se tornou mais exequível a partir
dessa data. Mais uma vez, na ausência da perspectiva cartaginesa, resta-nos
especular.
Aníbal empreendeu outro
preparativo no Inverno, talvez tão importante como todos os outros pelos
padrões antigos - não pelos modernos: deslocou-se
a Gades para sacrificar no Templo de Melcarte-Hércules, uma divindade associada
aos Barcas e que surge em algumas moedas por eles cunhadas. Cumpriu votos
antigos e fez novos votos em nome do êxito da expedição.
Qual foi o objetivo de Hannibal ao invadir a Itália? Há muito que este tópico vem sido sujeito a intenso debate, frequentemente centrado na sua decisão de não marchar sobre Roma quando teve a oportunidade para o fazer, em 217 ou 216. A opinião hoje mais comum é a de que o plano de Hannibal nunca foi conquistar a cidade, mas sim enfraquecer o seu poder persuadindo o maior número possível dos seus aliados italianos e latinos a desertar. Por consequência, quando Hannibal negociou uma aliança contra Roma com Filipe V da Macedônia, os termos previam claramente que Roma continuaria a existir, num estado enfraquecido, depois da sua vitória conjunta. De modo similar, Lívio diz que depois de Cannae, em 216, Hannibal se dirigiu aos prisioneiros romanos e lhes garantiu que não combatia para os aniquilar, mas sim "pela honra e pelo poder".
Qual foi o objetivo de Hannibal ao invadir a Itália? Há muito que este tópico vem sido sujeito a intenso debate, frequentemente centrado na sua decisão de não marchar sobre Roma quando teve a oportunidade para o fazer, em 217 ou 216. A opinião hoje mais comum é a de que o plano de Hannibal nunca foi conquistar a cidade, mas sim enfraquecer o seu poder persuadindo o maior número possível dos seus aliados italianos e latinos a desertar. Por consequência, quando Hannibal negociou uma aliança contra Roma com Filipe V da Macedônia, os termos previam claramente que Roma continuaria a existir, num estado enfraquecido, depois da sua vitória conjunta. De modo similar, Lívio diz que depois de Cannae, em 216, Hannibal se dirigiu aos prisioneiros romanos e lhes garantiu que não combatia para os aniquilar, mas sim "pela honra e pelo poder".
A resposta é muito mais simples do que a
controvérsia sobre esta matéria sugeriria. Hannibal atacou a Itália para ganhar
a guerra. No período em causa, raramente era possível um beligerante aniquilar
por completo o inimigo, a menos que os Estados envolvidos fossem muito pequenos
e um deles detivesse uma vantagem esmagadora. Mais tarde, em 146, Roma possuiu
este tipo de vantagem sobre Cartago e conseguiu, depois de uma luta renhida
destrui-la como entidade politica. Por norma, as guerras, em particular entre
Estados tão grandes como Cartago ou Roma, terminavam quando um dos lados perdia
a vontade de prosseguir o combate, e não a capacidade para o fazer. Chegado a
esse ponto, tal como Cartago esteve a ponto de fazer em 255 e fez efetivamente
em 241, reconhecia a derrota e aceitava termos de paz que a refletissem. O
objetivo de qualquer guerra era encurralar o inimigo numa posição em que seria
obrigado a ceder. O método poderia ser vencê-lo em uma ou em várias batalhas
campais, conquistar-lhe cidades, devastar-lhe os campos e incendiar-lhe aldeias
ou, mais frequentemente, uma combinação de todas estas coisas.
Todos os Estados mais poderosos tinham absorvido
muitas comunidades pequenas como aliados subordinados com vários graus de
aceitação. Uma demonstração de fraqueza por parte dos seus amos às mãos de um
invasor daria seguramente lugar a defecções, com cada comunidade procurando
alinhar-se com o potencial vencedor do conflito. A maioria das cidades-estado e
tribos estavam fraturadas por disputas internas cujas facções não costumavam
ter pejo em alinharem com uma potência estrangeira que estivesse disposta a
colocá-los no controle do seu próprio povo. Foi assim que as cidades sicilianas
se juntaram rapidamente a Roma depois dos seus êxitos iniciais, em 264, e que
os Líbios, em 240, alinharam de imediato com os mercenários rebeldes. Durante a
Segunda Guerra Púnica, as tribos hispânicas mostraram-se sempre prontas a
renegarem uma aliança e a juntarem-se ao lado que aparentasse estar na mó de
cima. Um Estado que visse os seus aliados e súditos a romperem consigo
ver-se-ia ainda mais pressionado para entrar num compromisso e aceitar a
derrota. Por consequência, não é irrazoavel acreditar que, se Hannibal
conseguisse chegar à Itália e começasse a obter vitórias, os aliados começariam
a vacilar. Hannibal não estava a adotar uma estratégia novel, e não é
necessário declarar que ele compreendeu que a verdadeira força de Roma
assentava na sua rede de aliados. Hannibal estava simplesmente a travar uma
guerra como soíam travar-se. Aquilo que os seus planos tiveram de invulgar,
pelo menos em comparação com as recentes práticas bélicas cartaginesas, foi a
predisposição para agir de modo tão agressivo e levar a guerra a uma conclusão.
Roma após a Segunda Guerra Púnica
A conquista romana do Mediterrâneo trouxe como
consequência inevitável profundas mudanças na vida política, social e econômica
de Roma e da Itália. No âmbito politico, a conduta do Senado com respeito ao
esforço realizado na guerra com Hannibal e seus subsequentes triunfos no Leste
grego comportou uma aceitação geral entre as pessoas do governo senatorial; a
legislação popular e os ataques a ordem estabelecida foram muito pouco
frequentes no século seguinte ao tribunado de C. Flaminio em 232 a.e.c.. Foi um
período de aparente calma e estabilidade politica, mas Cícero o recordaria como
a idade de ouro do mandato senatorial.
O Senado mesmo foi dominado pelos nobres, que se encontravam divididos em dois campos totalmente opostos. Esses grupos adotaram uma forma de alianças ad hoc entre amigos e parentes que se uniam para promover programas políticos próprios e mobilizavam seus clientes e seguidores para votar e favorecer seus candidatos nas eleições. Na verdade, essas facções não eram partidos políticos permanentes, e, apesar de algumas amizades terem durado mais tempo que outras, isso não é suficiente para supor que os políticos romanos fossem dominados por alianças preestabelecidas e hereditárias de famílias nobres ou gentes. As rivalidades entre indivíduos e grupos eram habituais, o que garantia uma espécie de equilíbrio; mas as tensões dentro da oligarquia senatorial ressurgiram em consequência do aumento da retribuição pelos cargos e da forte concorrência pelas magistraturas principais.
No curso da guerra contra Hannibal, as necessidades militares obrigaram, na prática, a prolongar os mandatos dos generais vitoriosos para além do limite regulamentar de um ano. Ainda que isso pudesse ser justificado do ponto de vista prático, teve como resultado perigosas consequências politicas, já que gerou ambições pessoais como as de Cipião, que minaram de fora o sistema das magistraturas anuais. Esses homens também se destacaram de seus iguais por levar um estilo de vida afetado e luxuoso e por vangloriar-se de seu conhecimento da cultura grega. Outros nobres se apressaram a segui-los, e o resultado foi a intensificação da luta pelos cargos, o auto-enriquecimento, a corrupção e um indiscriminado culto ao helenismo. A oposição a essas tendências foi assumida por Catão, o Censor (234-149 a.e.c.), que adotou deliberadamente um tom austero de vida, imitando com isso um dos grandes homens do passado, M. Cúrio Dentato. Catão ridicularizou o frívolo exibicionismo dos helenistas, advogou pelas virtudes simples e mostrou profundo respeito pelas tradições nacionais italianas. Seus esforços por manter a coesão tradicional da oligarquia lhe permitiram levar a cabo um ataque politico contra Cipião, que se viu obrigado a tirar-se por algum tempo da vida pública em 184 a.e.c. Catão apoiou o cumprimento de leis suntuárias e se opôs com frequência aos subornos, à corrupção e aos abusos de poder. A oposição de Catão ao helenismo não se baseou em simples preconceitos. Ele mesmo falava grego e conhecia a cultura grega muito melhor que muitos daqueles que atacava; favoreceu de fato que se tomassem emprestadas idéias gregas, sempre que pudessem ser adaptadas às necessidades romanas. Foi Catão quem ordenou, durante o período de censura que ele mesmo iniciou, a construção da primeira basílica romana, no estilo das construções gregas. É um dos numerosos exemplos de construções públicas de tipo grego que se ergueram nessa época.
Mas o exemplo mais notável da adaptação das idéias gregas às necessidades romanas é o desenvolvimento da literatura latina, para o que Catão contribuiu decisivamente. O primeiro escritor da literatura latina foi Lívio Andrônico, um grego levado preso para Roma depois da tomada de Tarento em 272 a.e.c. A Lívio Andrônico se deve a tradução para o latim da Odisseia; ele compôs também tragédias baseadas em originais gregos. Seu exemplo foi seguido por Cneu Névio (para 275-200 a.e.c.) e Quinto Ênio (239-169), que escreveram poemas épicos e obras teatrais.
O Senado mesmo foi dominado pelos nobres, que se encontravam divididos em dois campos totalmente opostos. Esses grupos adotaram uma forma de alianças ad hoc entre amigos e parentes que se uniam para promover programas políticos próprios e mobilizavam seus clientes e seguidores para votar e favorecer seus candidatos nas eleições. Na verdade, essas facções não eram partidos políticos permanentes, e, apesar de algumas amizades terem durado mais tempo que outras, isso não é suficiente para supor que os políticos romanos fossem dominados por alianças preestabelecidas e hereditárias de famílias nobres ou gentes. As rivalidades entre indivíduos e grupos eram habituais, o que garantia uma espécie de equilíbrio; mas as tensões dentro da oligarquia senatorial ressurgiram em consequência do aumento da retribuição pelos cargos e da forte concorrência pelas magistraturas principais.
No curso da guerra contra Hannibal, as necessidades militares obrigaram, na prática, a prolongar os mandatos dos generais vitoriosos para além do limite regulamentar de um ano. Ainda que isso pudesse ser justificado do ponto de vista prático, teve como resultado perigosas consequências politicas, já que gerou ambições pessoais como as de Cipião, que minaram de fora o sistema das magistraturas anuais. Esses homens também se destacaram de seus iguais por levar um estilo de vida afetado e luxuoso e por vangloriar-se de seu conhecimento da cultura grega. Outros nobres se apressaram a segui-los, e o resultado foi a intensificação da luta pelos cargos, o auto-enriquecimento, a corrupção e um indiscriminado culto ao helenismo. A oposição a essas tendências foi assumida por Catão, o Censor (234-149 a.e.c.), que adotou deliberadamente um tom austero de vida, imitando com isso um dos grandes homens do passado, M. Cúrio Dentato. Catão ridicularizou o frívolo exibicionismo dos helenistas, advogou pelas virtudes simples e mostrou profundo respeito pelas tradições nacionais italianas. Seus esforços por manter a coesão tradicional da oligarquia lhe permitiram levar a cabo um ataque politico contra Cipião, que se viu obrigado a tirar-se por algum tempo da vida pública em 184 a.e.c. Catão apoiou o cumprimento de leis suntuárias e se opôs com frequência aos subornos, à corrupção e aos abusos de poder. A oposição de Catão ao helenismo não se baseou em simples preconceitos. Ele mesmo falava grego e conhecia a cultura grega muito melhor que muitos daqueles que atacava; favoreceu de fato que se tomassem emprestadas idéias gregas, sempre que pudessem ser adaptadas às necessidades romanas. Foi Catão quem ordenou, durante o período de censura que ele mesmo iniciou, a construção da primeira basílica romana, no estilo das construções gregas. É um dos numerosos exemplos de construções públicas de tipo grego que se ergueram nessa época.
Mas o exemplo mais notável da adaptação das idéias gregas às necessidades romanas é o desenvolvimento da literatura latina, para o que Catão contribuiu decisivamente. O primeiro escritor da literatura latina foi Lívio Andrônico, um grego levado preso para Roma depois da tomada de Tarento em 272 a.e.c. A Lívio Andrônico se deve a tradução para o latim da Odisseia; ele compôs também tragédias baseadas em originais gregos. Seu exemplo foi seguido por Cneu Névio (para 275-200 a.e.c.) e Quinto Ênio (239-169), que escreveram poemas épicos e obras teatrais.
Vale destacar que não
eram latinófonos: Cneu Névio, procedente da Campânia, era de
fala osca, e Quinto Ênio era um messápio de Rúdias. Idêntica situação foi a do
Úmbrio Tito Mácio Plauto, do celta Célio Estácio e de Públio Terêncio Áfer, que
produziram durante a primeira metade do século II a.e.c. comédias latinas ao
estilo grego (as de Tito Plauto e as de Públio Terêncio Áfer tem o mesmo
estilo). Outras figuras proeminentes da literatura latina inicial foram os
autores trágicos M. Pacúvio (220 - por volta de 130 a.e.c.) e C. Acio (170 -
por volta de 90 a.e.c.) e o satírico C. Lucilo (por volta de 180-20 a.e.c.). O
grande êxito de Catão foi a criação da literatura latina em prosa. Entre suas
obras, há discursos, 142 dos quais foram conhecidos por Cícero, que os admirou
muito; uma obra sobre agricultura, que se conservou; e uma obra histórica sobre
Roma e a Itália intitulada Origines. As historias mais antigas de Roma (por exemplo,
a de Fábio Pictor) foram escritas em grego. Uma das características das
Origines foi que incluía tanto a historia dos povos italianos como a dos
romanos.
Assim, os esforços de Catão se voltaram para a exploração construtiva da cultura grega tomada de empréstimo e a recusa da influência corruptora da riqueza, do luxo e da busca do poder, que ele associava ao helenismo como produto indireto da conquista militar. Mas, como podemos ver, Catão não se dava conta das profundas e sérias consequências do imperialismo romano. Durante sua vida, a economia rural da Itália foi transformada por um processo que levou a uma crise agrária grave. Os sintomas mais óbvios dessa mudança foram o empobrecimento e deslocamento do campesinato italiano, como resultado de mais de meio século de guerras continuas. A guerra afetou a política econômica da Itália em dois aspectos: primeiro, com os efeitos diretos da invasão de Hannibal, que teve por resultado uma extensa devastação do campo, sobretudo no Sul da Itália, e a aniquilação de comunidades inteiras. Por exemplo, quando Tarento caiu nas mãos dos romanos em 209 a.e.c., a maior parte de sua população foi escravizada, e aquela cidade, antes próspera, se transformou num lugar desolado. A devastação afetou necessariamente a capacidade produtiva do terreno agrícola, e a destruição das colheitas, das edificações do gado foi suficiente para arruinar muitas famílias de camponeses e para despovoar grandes áreas do território. Os efeitos indiretos das continuas guerras foram até mais sérios para os camponeses que tiveram de suportar a carga de um prolongado serviço militar. O exército romano tradicional foi uma milícia camponesa que se mostrou eficiente enquanto as guerras eram locais e os conflitos eram com as comunidades vizinhas; mas foi insuficiente para as necessidades militares romanas durante e depois da guerra contra Hannibal, quando se recrutaram grandes contingentes de soldados para servir por muitos anos em áreas distantes do Mediterrâneo.
Estimou-se que, em media, os exércitos combinados de romanos e italianos, durante os 35 anos que se seguiram à derrota de Hannibal, superavam os 130.000 homens; isso representa uma proporção muito elevada do total de homens adultos da Itália. A média de cidadãos romanos homens adultos em serviço por certo tempo durante os dois últimos séculos da República é calculada em cerca de 13 por cento. Isso significa que mais da metade dos homens adultos serviu regularmente nas legiões por no mínimo sete anos. Tal nível de dedicação à guerra foi desastroso para o pequeno campesinato. Muitas famílias de camponeses ficaram assim privadas da força de trabalho essencial durante longos períodos e até permanentemente, Se seus homens morressem no campo de batalha. As fazendas foram abandonadas, contraíram-se dividas, e a isso se seguiu o despojamento através da venda ou do despejo. O processo se acelerou pelo fato de os ricos buscarem investir os ganhos das guerras vitoriosas em terras italianas. Isso permitiu o crescimento de grandes fazendas (latifundia) mediante a acumulação por parte de poucos da terra que antes o pequeno campesinato havia trabalhado. Famílias inteiras de camponeses foram afastadas de suas terras por esses endinheirados investidores e substituídas por escravos. Estes eram fornecidos em abundância graças às vitórias militares e às escravizações maciças de populações vencidas; organizados em verdadeiras equipes de trabalhadores para proporcionar o trabalho necessário às empresas agrícolas em grande escala, eram relativamente baratos, e havia a vantagem adicional de os escravos serem isentos do serviço militar. Assim, o desenvolvimento dos latifundia se viu favorecido pelo influxo da riqueza e dos escravos, produto das vitórias conseguidas pelos esforços e sacrifícios dos camponeses italianos que serviram no exército.
O desenvolvimento dos latifúndios no século II
a.e.c. foi acompanhado de novos métodos de cultivo, pensados para proporcionar
aos latifundiários ausentes s rendas da venda dos produtos excedentes. O novo
regime foi bem exemplificado na obra de Catão De Agricultura, manual dirigido
aos proprietários de fazendas de tipo médio (ele especifica propriedades de 25
a 60 hectares) trabalhadas por escravos e supervisionadas pelos vilici,
escravos administradores residentes.
Catão trata especialmente dos cultivos de vinhas e
oliveiras, que dão bons lucros, mas requerem um alto investimento de capital
inicial e posses relativamente extensas para conseguir economias em grande
escala. Igualmente proveitosa era a prática da criação de gado e do pastoreio
de ovelhas, mas também requeria capital e grandes áreas. Havia pastos
extensivos disponíveis no Sul da Itália, onde a totalidade das regiões tinha
ficado despovoada na Segunda Guerra Púnica.
Muitas daquelas terras se transformaram
tecnicamente em agerpublicus, ao terem sido confiscadas por Roma aos Estados
aliados que se tinham unido a Hannibal.
Mas o governo romano não foi muito exigente diante
da expropriação de tais terras e não fez cumprir as restrições legais à
extensão das propriedades. Parece provável que acontecesse o mesmo com o
agerpublicus em outras partes da Itália.
Muitos dos camponeses deslocados emigraram para as vilas ou cidades da Itália e especialmente para Roma, onde começaram a ser criadas possibilidades de emprego devido aos grandes gastos dos ricos em luxos, serviços, subornos políticos e diversões. Assim, os gastos públicos contribuíram para o desenvolvimento de uma economia de mercado urbanizada. As receitas estatais em forma de butim, indenizações e taxas foram imensas; depois da colonização da Macedônia em 167 a.e.c., aboliu-se o tributum e não se exigiram taxas diretas sobre as propriedades dos cidadãos romanos. Uma elevada proporção das receitas públicas foi reinvestida em conquistas ulteriores, ou seja, foi gasta em pagamentos e fornecimentos ao exército. O restante serviu para levar a cabo extensos projetos de obras públicas empreendidos por todas as partes em Roma e nas cidades da Itália durante o século II a.e.c. (isso demonstra que não houve um declínio na atividade construtora na década de 130, como às vezes se disse). O desenvolvimento ou crescimento das cidades criou um mercado para os produtos dos grandes Latifundiários, enquanto as necessidades do exército deram conta de grande parte da lã e do couro que se produziam nas fazendas do Sul da Itália.
Os povos e as cidades também foram centros de intensa produção e de certa atividade industrial em pequena escala, provavelmente baseada no trabalho dos escravos. O principal mercado de produtos manufaturados foi indubitavelmente o exército, que necessitava regularmente de provisões de roupas, equipamento e armas. A organização do fornecimento era levada a efeito por setores privados que competiam pelos contratos com o governo. Esses contratistas privados eram chamados publicanos "publicani". Faziam contratos para a construção e reforma dos prédios públicos e das estradas e outros serviços, e foram ele que adquiriram os direitos de exploração das propriedades mineiras do Estado e de arrecadação dos impostos indiretos (como pedágios e direitos portuários), bem como das rendas do erário público. Os contratos que cada cinco anos os censores emitiam foram imensamente lucrativos e de grande importância econômica. Polibio conta que quase não houve ninguém em Roma que não estivesse envolvido na venda desses contratos ou nos negócios que surgiam deles. Isso implicou riqueza e poder para os principais publicanos, que formaram um grupo de pressão muito influente fora do Senado (aos senadores não era permitido participar dos contratos públicos).
Muitos dos camponeses deslocados emigraram para as vilas ou cidades da Itália e especialmente para Roma, onde começaram a ser criadas possibilidades de emprego devido aos grandes gastos dos ricos em luxos, serviços, subornos políticos e diversões. Assim, os gastos públicos contribuíram para o desenvolvimento de uma economia de mercado urbanizada. As receitas estatais em forma de butim, indenizações e taxas foram imensas; depois da colonização da Macedônia em 167 a.e.c., aboliu-se o tributum e não se exigiram taxas diretas sobre as propriedades dos cidadãos romanos. Uma elevada proporção das receitas públicas foi reinvestida em conquistas ulteriores, ou seja, foi gasta em pagamentos e fornecimentos ao exército. O restante serviu para levar a cabo extensos projetos de obras públicas empreendidos por todas as partes em Roma e nas cidades da Itália durante o século II a.e.c. (isso demonstra que não houve um declínio na atividade construtora na década de 130, como às vezes se disse). O desenvolvimento ou crescimento das cidades criou um mercado para os produtos dos grandes Latifundiários, enquanto as necessidades do exército deram conta de grande parte da lã e do couro que se produziam nas fazendas do Sul da Itália.
Os povos e as cidades também foram centros de intensa produção e de certa atividade industrial em pequena escala, provavelmente baseada no trabalho dos escravos. O principal mercado de produtos manufaturados foi indubitavelmente o exército, que necessitava regularmente de provisões de roupas, equipamento e armas. A organização do fornecimento era levada a efeito por setores privados que competiam pelos contratos com o governo. Esses contratistas privados eram chamados publicanos "publicani". Faziam contratos para a construção e reforma dos prédios públicos e das estradas e outros serviços, e foram ele que adquiriram os direitos de exploração das propriedades mineiras do Estado e de arrecadação dos impostos indiretos (como pedágios e direitos portuários), bem como das rendas do erário público. Os contratos que cada cinco anos os censores emitiam foram imensamente lucrativos e de grande importância econômica. Polibio conta que quase não houve ninguém em Roma que não estivesse envolvido na venda desses contratos ou nos negócios que surgiam deles. Isso implicou riqueza e poder para os principais publicanos, que formaram um grupo de pressão muito influente fora do Senado (aos senadores não era permitido participar dos contratos públicos).
Terceira Guerra
Púnica
O confronto final entre Roma e Cartago durou apenas
quatro anos e terminou com a destruição total de Cartago. A guerra foi travada
inteiramente na África, com os invasores romanos procurando conquistar a
capital inimiga, e o desfecho nunca esteve verdadeiramente em dúvida, a menos
que os Romanos decidissem abandonar a expedição. Não é fácil atribuir
responsabilidades pela eclosão dos dois conflitos anteriores mas não restam
dúvidas de que a Terceira Guerra Púnica foi deliberadamente provocada pelos
Romanos, que tinham decidido, em consciência, aniquilar o seu velho inimigo. Os
negociadores romanos exploraram descaradamente a predisposição cartaginesa para
fazer concessões com o propósito de evitar a guerra com Roma, aumentando
constantemente as suas exigências para impor um conflito a um inimigo
debilitado. Foi uma atitude muitíssimo pior do que qualquer um dos exemplos
registados da proverbial "falsidade púnica". Pelos padrões da
estratégia moderna, a guerra foi desnecessária, dado que Cartago não parece ter
constituído uma verdadeira ameaça para Roma. Para compreendermos porque é que
os Romanos embarcaram numa politica tão intencionalmente implacável, temos que
olhar de novo para a atitude romana face a guerra e para as condições
peculiares de meados do século II.
A partir de 201, os Cartagineses mostraram-se consistentemente aliados leais de Roma. Forneceram cereais aos exércitos romanos e, em 191, enviaram a sua minúscula marinha para integrar a esquadra que operava contra Antioco III. Com a ajuda da reforma das finanças do Estado, levada a cabo por Hannibal, a indenização anual foi paga pontualmente até ao fim, em 151. Na série de disputas fronteiriças com a Numídia de Masinissa, Cartago submeteu-se ao arbítrio romano apesar de este, de forma declarada ou tácita, ser sempre favorável ao rei. Com ou sem verdade na acusação, foram nobres cartagineses que relataram as alegadas conversações de Hannibal com Antioco e provocaram a sua fuga, em 195. Também foram eles que prenderam e julgaram o seu agente, Ariston de Tiro, que em 193 fora enviado a Cartago para persuadir a cidade a apoiar os Selêucidas contra Roma, embora Ariston tenha conseguido escapar antes da conclusão do julgamento. Foi enviada uma delegação a Roma para dar conta do incidente e garantir ao Senado a continuada lealdade de Cartago.
A partir de 201, os Cartagineses mostraram-se consistentemente aliados leais de Roma. Forneceram cereais aos exércitos romanos e, em 191, enviaram a sua minúscula marinha para integrar a esquadra que operava contra Antioco III. Com a ajuda da reforma das finanças do Estado, levada a cabo por Hannibal, a indenização anual foi paga pontualmente até ao fim, em 151. Na série de disputas fronteiriças com a Numídia de Masinissa, Cartago submeteu-se ao arbítrio romano apesar de este, de forma declarada ou tácita, ser sempre favorável ao rei. Com ou sem verdade na acusação, foram nobres cartagineses que relataram as alegadas conversações de Hannibal com Antioco e provocaram a sua fuga, em 195. Também foram eles que prenderam e julgaram o seu agente, Ariston de Tiro, que em 193 fora enviado a Cartago para persuadir a cidade a apoiar os Selêucidas contra Roma, embora Ariston tenha conseguido escapar antes da conclusão do julgamento. Foi enviada uma delegação a Roma para dar conta do incidente e garantir ao Senado a continuada lealdade de Cartago.
As fontes dizem-nos que
neste meio século a politica cartaginesa foi dominada por três facções: um grupo simpatizante de Roma, liderado por Hanão, o Grande, outro
pró-Masinissa, sob a liderança de Hannibal, o Estominho, e o terceiro derivando
o seu apoio dos cidadãos mais pobres e chefiado por Hannibal, o Samnita, e
Cartalao. O cognome de Hannibal derivaria talvez de um pai ou de um avô que
servira com Hannibal em Itália, e as fontes referem também neste período um
certo Magão, o Brútio, cujo nome sugere uma associação semelhante, mas não é
totalmente claro que o partido democrático estivesse tão estreitamente
associado aos Barcas como alguns estudiosos tem opinado. Nenhum destes grupos
parece ter sido abertamente hostil a Roma. Não se sabe ao certo se a renovada
prosperidade da cidade terá dado origem a algum rearmamento; as fontes literárias
dizem que não mas as escavações realizadas no porto indiciam o contrário. O que
sabemos é que em meados do século os Cartagineses não estavam em condições de
lançarem uma ofensiva de peso contra Roma, mesmo que o pretendessem fazer. No
entanto, não ha dúvida de que os Romanos foram ficando cada vez mais receosos
do seu aliado no período em causa. O fim do pagamento da divida de guerra de
cinquenta anos, em 151, eliminou o lembrete anual da derrota de Cartago e o
estatuto subordinado da cidade. Os tratados que estipulavam um período fixo de
paz entre dois Estados eram uma característica comum dos acordos gregos que
punham fim aos conflitos, mas eram muito raros para os Romanos, que esperavam
desfechos mais permanentes para as suas guerras. Em 265, Cartago convertera-se
de aliado de longa data e distante em inimigo, o que originou uma mudança
permanente na percepção romana de Cartago. Roma nunca se contentou com alianças
que implicassem qualquer nível de igualdade com um antigo inimigo.
A guerra foi rapidamente renovada com a Macedônia,
em 200, e de novo quando Perseu aparentou estar a tornar-se forte e
independente. Um aliado leal devia submeter-se a interferência de Roma, especialmente
nos assuntos externos, sempre que isso fosse do interesse de Roma. Entre 241 e
218, os Romanos apoderaram-se da Sardenha e intervieram na Hispânia, impondo
concessões aos lideres púnicos sem se restringirem minimamente, e esta atitude
continuou depois de 201. Em 151, Cartago deixou de pagar uma prestação anual a
Roma. A cidade era próspera e o seu poder no Norte de África ainda era
considerável, não obstante as terras perdidas para a Numídia. As tradições da
prática bélica púnica não esperavam que um Estado vencido, em especial um
Estado que não tivesse sido conquistado nem absorvido, permanecesse eternamente
sujeito ao vencedor. Só os Romanos pensavam assim. Os Cartagineses já não eram
aliados inequivocamente subordinados de Roma. O fato de um antigo inimigo, um
inimigo que levara Roma a beira da derrota total, fosse de novo forte e
independente constituía uma ameaça nas costas dos Romanos. Era esta a raiz do
crescente receio que Roma tinha de Cartago. Este sentimento era personificado
por Catão. Em meados do século, o "homem novo" que combatera em
Tarento, no Metauro e na África era um dos mais influentes e respeitados
membros do Senado, e um dos poucos da sua geração que ainda participavam
ativamente nos assuntos do Estado. Provavelmente em 153, Catão integrou uma das
embaixadas enviadas para arbitrar uma disputa entre Masinissa e Cartago. Catão
estava com setenta e muitos mas ainda era um orador enérgico e convincente.
A delegação romana ficou profundamente
impressionada com as crescentes riqueza e população da sua antiga rival.
Regressado e Roma, Catão
deu em concluir todos os seus discursos no Senado com a mesma frase:
"Cartago
deve ser destruída". Diz-se que numa ocasião deixou cair alguns figos
da dobra da toga. Os figos, informou ele aos seus ouvintes, espantados com o
tamanho dos frutos, tinham sido colhidos num país a apenas três dias de viagem
por mar, Catão exagerou a rapidez com que a armada púnica poderia cair sobre
Roma, embora fosse efetivamente possível chegar ao Sul da Itália em poucos
dias, e alguns estudiosos especularam com alguma irrelevância se Catão não
teria comprado os figos em Roma ou mandado colhê-los na sua propriedade.
Tratou-se de um gesto simbólico e poderoso que as fontes consideram digno de
ser repetido e que ainda é recordado. Outro eminente senador, Cipião Nasica,
mediu-se com Catão terminando os seus discursos com a opinião de que Cartago
deveria ser preservada. Dizem as fontes que ele acreditava que a presença de um
rival poderoso manteria intacta a virtude dos Romanos, um argumento que se
tornou um continuo lamento no século seguinte, quando Roma mergulhou numa série
de guerras civis. Na altura, poucos Romanos parecem ter concordado com ele.
Plutarco refere que foi principalmente a influência de Catão que convenceu Roma
a destruir Cartago, e em alguns relatos modernos figura com igual destaque a
persistente malevolência do velho. Tal como em muitos outros aspectos da sua
carreira, Catão terá aparentemente expressado o sentimento da maioria da
população. Durante a década de 150, houve um sentimento crescente de
insegurança em Roma. As guerras das primeiras décadas do século tinham sido
ganhas, com grande facilidade, por exércitos romanos compostos de oficiais e
soldados extremamente experientes. A geração da Guerra Hannibalica foi-se
tornando demasiado velha para cumprir o serviço militar e os seus conhecimentos
e competências perderam-se. Dada a impermanência das legiões de Roma, a
desmobilização dos exércitos obrigava a recomeçar o processo de instrução de
novas tropas. Os soldados experientes foram substituídos por homens mais jovens
e menos conscientes de que os êxitos militares de Roma se baseavam numa
instrução rigorosa, numa cuidada preparação logística e numa liderança
competente, convencendo-se de que o êxito lhes cabia por direito simplesmente
por serem Romanos. No segundo quartel do século, houve menos gente em armas e
as campanhas foram relativamente poucas. Em 155, os guerreiros lusitanos
lançaram uma série de grandes incursões na província romana da Hispânia
Ulterior, ataques cuja escala foi aumentando a cada sucesso. Em 154, um pretor
foi morto e o seu exército duramente derrotado.
Em 153, os Celtiberos infligiram várias derrotas a um
exército consular comandado por Quinto Fúlvio Nobilior. Os relatos de combates
duros e perigosos na Hispânia provocaram uma mini-crise em Roma, ao serem muito
poucos os homens que se ofereceram para servir no exército que estava a ser
formado para combater os Celtiberos, sob o comando de Lúcio Licinio Luculo. Só
o exemplo de Públio Cornélio Cipião Emiliano, filho adotivo do Africano, que se
ofereceu publicamente para servir como tribuno, garantiu voluntários em número
suficiente. Na verdade, a guerra foi concluída antes da chegada de Luculo mas
este, ávido de glória e riquezas, lançou o exército contra uma tribo amistosa,
que se rendeu e foi traiçoeiramente massacrada. No ano seguinte, ocorreu uma
atrocidade semelhante, quando o pretor da Hispânia Ulterior, Públio Sulpicio
Galba, que já fora derrotado uma vez pelos Lusitanos, ofereceu a paz as tribos.
Prometendo instalá-los em boas terras aráveis, Galba dividiu os Lusitanos em
três grupos, desarmou-os e depois ordenou aos seus legionários que chacinassem
os guerreiros indefesos. Um dos poucos que escapou ao massacre foi um homem
chamado Viriato, que viria a revelar-se um líder carismático e um irredutível
adversário de Roma. Durante mais de uma década, os Romanos foram confrontados
com uma dura contenda contra os Lusitanos e os Celtiberos. Em 140, um dos
seguidores de Viriato foi subornado e assassinou-o, mas foram necessários mais
sete anos e recursos enormes até que o bastião celtibero de Numância fosse
conquistado.
Regressado a Roma, Galba foi julgado por quebra de
fides, a prezada fé de Roma, sendo Catão um dos seus acusadores. Mas Galba foi
inesperadamente absolvido depois de se apresentar no tribunal com os filhos,
que imploraram em lágrimas clemência para o pai. Galba tornar-se-ia um dos mais
famosos oradores de Roma.
As derrotas sofridas na Hispânia trouxeram à luz a inexperiência de quase todos os exércitos romanos. A substituição anual dos governadores de província e a raridade das promagistraturas encorajavam os generais a procurarem a glória antes de serem substituídos, e negavam-lhes o tempo necessário para converterem os seus soldados num exército eficaz. Esta realidade tivera muito menos peso no principio do século, quando a qualidade dos recursos humanos de Roma fora mais elevada. Mas mesmo nessa altura, a pressão para obter êxito num único ano de mandato levara Flamínio a iniciar conversações de paz com Filipe V, em 198, para logo a seguir romper as negociações e procurar uma vitória militar quando o seu comando foi prolongado por mais um ano. As sucessivas derrotas faziam cair o moral e tornavam ainda mais prováveis novas derrotas.
As derrotas sofridas na Hispânia trouxeram à luz a inexperiência de quase todos os exércitos romanos. A substituição anual dos governadores de província e a raridade das promagistraturas encorajavam os generais a procurarem a glória antes de serem substituídos, e negavam-lhes o tempo necessário para converterem os seus soldados num exército eficaz. Esta realidade tivera muito menos peso no principio do século, quando a qualidade dos recursos humanos de Roma fora mais elevada. Mas mesmo nessa altura, a pressão para obter êxito num único ano de mandato levara Flamínio a iniciar conversações de paz com Filipe V, em 198, para logo a seguir romper as negociações e procurar uma vitória militar quando o seu comando foi prolongado por mais um ano. As sucessivas derrotas faziam cair o moral e tornavam ainda mais prováveis novas derrotas.
O fracasso na proteção das comunidades hispânicas
aliadas era conducente a sua defecção, aumentando o número de inimigos a
combater. A dada altura, uma grande parte da Hispânia Ulterior submeteu-se a
Viriato. As perdas sofridas na Hispânia ocorreram demasiado longe para
constituírem uma ameaça direta ao Lácio, mas foram um grande golpe para o
prestígio romano. As dificuldades para recrutar oficiais e soldados para a Hispânia,
em 151, foram particularmente chocantes, pois nem a crise da invasão de
Hannibal causara nos cidadãos romanos semelhante relutância face ao cumprimento
do serviço militar. Apiano diz que o Senado decidiu em segredo procurar um
pretexto para uma guerra contra Cartago pouco depois de Catão regressar da
África. Talvez sim, talvez não, mas as atitudes do Senado não deixam dúvidas de
que era essa a sua intenção em 150-149, e é provável que o pagamento da última
prestação da indenização por Cartago, em 151, tenha contribuído para essa
decisão. Apenas faltava aos Romanos um pretexto para a guerra, e os seus
aliados númidas não tardariam a fornecê-lo.
Catão constituiu um elo entre a Segunda e a
Terceira Guerras Púnicas do mesmo modo que as carreiras de Hierão, Fábio Máximo
e Marcelo abarcaram a primeira e a segunda conflagrações. Também Masinissa era
uma ligação ao passado. Em 150, estava com 88 anos de idade mas ainda montava
sem sela, à maneira do seu povo, e liderava os seus homens em combate. Quando
morreu, dois anos mais tarde, o rei deixou um filho com quatro anos de idade,
um dos dez rapazes legítimos e ilegítimos que gerou durante a sua longa vida.
Masinissa passara uma grande parte dos seus primeiros tempos de vida em
Cartago, conhecera profundamente a cultura púnica e introduzira muitos dos seus
aspectos, da literacia a religião, no reino que lutara para criar com base nas
tribos independentes do seu povo. Fora encorajado o estabelecimento de
comunidades urbanas, embora se desconheça até que ponto eram habitadas por uma
população importada e não por Númidas persuadidos a abandonarem o nomadismo.
Masinissa deu a cada filho uma propriedade rural para ser cultivada com os mais
modernos métodos púnicos, pois compreendera que a promoção da agricultura fortaleceria
o reino e daria poder aqueles que controlassem as novas fontes de produção.
Contudo, não obstante a sua admiração pela cultura
púnica e os serviços distintos que prestou com os exércitos cartagineses na
Hispânia, Masinissa demonstrou uma grande hostilidade para com o seu antigo
aliado durante todo o seu reinado. O tratado de 201 incluíra a provisão algo
vaga de que Cartago deveria restituir a Masinissa todos os territórios que
tinham pertencido aos seus antepassados.
Apiano refere que os limites do território púnico
estavam marcados com "trincheiras fenícias" mas ainda não foi
possível estabelecer com precisão onde se localizavam. As ambiguidades do
tratado encorajaram Masinissa a abocanhar um número crescente de territórios
cartagineses, sob o pretexto de que haviam pertencido ao seu povo. As suas
pretensões acabaram por conceder apenas aos colonos púnicos a área de Birsa, a
povoação original de Cartago, situada no cimo de uma colina e que, segundo o
mito, Elishat recebera do governante local. As delegações romanas enviadas para
resolverem as disputas entre os dois aliados de Roma decidiram repetidamente a
favor do rei, que assim pôde adquirir mais terras férteis e, por fim, os
importantes portos conhecidos por empórios. Os políticos desejosos de agradar a
Masinissa e de satisfazer as suas exigências foram finalmente expulsos de
Cartago, em 152-151, e o partido popular tornou-se temporariamente dominante.
Os líderes exilados refugiaram-se junto do monarca, que enviou a Cartago dois
dos seus filhos, Gulussa e Micipsa, com a exigência da restituição dos
exilados. Gulussa deslocara-se em tempos a Roma como representante do pai, mas
nesta ocasião os irmãos nem sequer foram autorizados a entrar em Cartago. Na
viagem de regresso, a comitiva de Gulussa foi atacada por Amilcar, o Samnita, e
um grupo dos seus apoiantes, que mataram várias pessoas. Em 150, os Númidas
recomeçaram os seus ataques contra território púnico, devastando as terras e
sitiando uma cidade chamada Oroscopa, cuja localização desconhecemos.
Pela primeira vez desde 201, Cartago decidiu entrar
em guerra sem procurar o arbítrio ou a aprovação de Roma, e formou um exército
de 25.000 infantes e 400 cavaleiros, sob o comando de Asdrúbal. As fontes
referem que os cavaleiros foram recrutados na cidade de Cartago, pelo que
seriam cidadãos. Eram pouco numerosos mas receberam um reforço substancial
quando uma disputa entre os filhos de Masinissa e dois chefes númidas, Asasis e
Suba, levou a deserção dos dois últimos, à frente de 6.000 cavaleiros ligeiros.
Asdrúbal ganhou vantagem em algumas escaramuças e seguiu a retirada do exército
númida, que atraiu o inimigo para terreno mais acidentado e quase desprovido de
alimentos e água. Por fim, Masinissa decidiu oferecer batalha, dando origem a
um dia de combates no qual nenhum lado conseguiu uma vantagem decisiva. A
batalha foi observada, à distância, por Cipião Emiliano, que se encontrava na
África para, fazendo uso da ligação da sua família a Masinissa, persuadir o
velho soberano a fornecer elefantes ao exército de Luculo na Hispânia. Asdrúbal
retirou para o seu acampamento, montado numa colina, e iniciaram-se
negociações, com Cipião no papel de mediador. As conversações romperam-se
quando os Cartagineses recusaram entregar Asasis e Suba para serem punidos. As tropas
de Masinissa construíram uma paliçada e um fosso em redor do terreno elevado
ocupado pelo inimigo, algo que terão provavelmente aprendido durante o seu
serviço com o exército romano. Sem possibilidade de serem aprovisionados e não
querendo tentar um rompimento do cerco nem admitir a derrota, os homens de
Asdrúbal não tardaram a consumir a comida que tinham consigo. Imóveis, os
Cartagineses mataram e comeram os animais de carga, e depois as montadas da
cavalaria. Já sem lenha para cozinharem a carne que constituía agora o
essencial da sua dieta, os soldados partiram os escudos aos bocados para os
utilizarem como combustível.
Dá a sensação de que Asdrúbal contava que os
Númidas ficassem sem provisões e dispersassem, mas o exército que Masinissa
criara durante o seu reinado era nitidamente uma força muito mais organizada e
eficiente do que qualquer contingente tribal de antanho. Por fim, Asdrúbal
rendeu-se, prometendo que Cartago pagaria uma indenização de guerra durante
cinquenta anos e que receberia de volta os aristocratas que tinham fugido para
a corte de Masinissa. Ao abandonarem o acampamento, os soldados cartagineses
foram atacados por um grupo de cavaleiros númidas liderados por Gulussa e
muitos foram mortos. E impossível saber se o ataque foi premeditado ou se
contou com o envolvimento de Masinissa, pois também se tem revelado impossível
atribuir responsabilidades por massacres similares mais recentes. Asdrúbal e
muitos dos seus oficiais escaparam incólumes. A capacidade de Cartago para
criar um exército e travar uma guerra, ainda que sem êxito, confirmou os
receios e suspeitas de Roma. O tratado de 201 proibia expressamente Cartago de
declarar a guerra na África sem aprovação romana. Esta violação seria
provavelmente suficiente para originar veementes protestos mas o Senado romano,
mais experiente em diplomacia depois de cinquenta anos de envolvimento no mundo
helenístico, procurava um pretexto para uma guerra aberta. Entretanto, foram
iniciados os preparativos para uma grande invasão da África, mas sem declarar o
seu propósito.
De modo característico, os Cartagineses tentaram
deitar as culpas para o seu comandante no terreno e negar as suas
responsabilidades pela guerra recente. Asdrúbal, Cartalão (o líder do partido
popular) e vários outros oficiais foram condenados à morte. As tropas de
Asdrúbal ter-se-ão mantido leais ao seu comandante, dado que, pouco depois, ele
surge à frente de 30.000 homens. Foram enviados a Roma embaixadores para se
queixarem da provocação de Masinissa e condenarem os oficiais púnicos que
tinham irresponsavelmente entrado em guerra. A resposta romana foi observar que
se as autoridades cartaginesas se tivessem verdadeiramente oposto à guerra
teriam condenado os seus comandantes antes de eles passarem à ação. A delegação
foi brindada com a frase cniptica de que Cantago devenia xdar satisfaçoes ao
povo romano). Uma segunda embaixada não conseguiu descobrir o que queriam os
Romanos dizer com aquilo
Nesta altura, Utica passou-se para os Romanos e os seus portos forneceram-lhes uma base ideal para atacar Cartago. Em 149, o Senado e os Comitia Centuriata aprovaram a declaração de guerra. Ambos os cônsules seriam enviados para África, Mânio Manilio no comando do exército e Lúcio Márcio Censorino à frente da esquadra. Tal como em 218 e 205-204, Os Romanos concentraram-se em Lilibeu, na Sicília, de onde embarcariam para África. Entretanto, Cartago enviou outra embaixada a Roma, e o Senado exigiu que 300 reféns, filhos das principais famílias nobres, fossem entregues em Lilibeu no prazo de trinta dias. Assim foi feito, apesar de o Senado apenas ter garantido aos Cartagineses o seu território e que seriam governados pelas suas próprias leis.
Nesta altura, Utica passou-se para os Romanos e os seus portos forneceram-lhes uma base ideal para atacar Cartago. Em 149, o Senado e os Comitia Centuriata aprovaram a declaração de guerra. Ambos os cônsules seriam enviados para África, Mânio Manilio no comando do exército e Lúcio Márcio Censorino à frente da esquadra. Tal como em 218 e 205-204, Os Romanos concentraram-se em Lilibeu, na Sicília, de onde embarcariam para África. Entretanto, Cartago enviou outra embaixada a Roma, e o Senado exigiu que 300 reféns, filhos das principais famílias nobres, fossem entregues em Lilibeu no prazo de trinta dias. Assim foi feito, apesar de o Senado apenas ter garantido aos Cartagineses o seu território e que seriam governados pelas suas próprias leis.
O fraseamento evitou cuidadosamente qualquer menção
da cidade de Cartago, um subterfúgio semelhante à justificação técnica
utilizada por Cipião, em 203, para romper as tréguas. Os reféns foram levados
para Roma num grande "dezesseis", um navio provavelmente confiscado a
armada macedônica no fim da Terceira Guerra Macedónica. Não obstante a
aceitação das exigências romanas por parte dos Cartagineses, os cônsules
rumaram a Utica. Ainda sem certezas quando as intenções dos Romanos, Cartago
enviou uma delegação aos cônsules, que a receberam com grande pompa, sentados
numa tribuna, flanqueados pelos seus oficiais superiores e à frente do exército
atrás, formado em parada. Foi uma exibição intimidadora do poderio de Roma,
destinada a persuadir os embaixadores de que qualquer resistência às exigências
dos cônsules seria infrutífera. Censorino, o primeiro a ser eleito pelos
comícios e que era provavelmente o mais velho e o melhor orador dos dois,
respondeu as indagações dos Cartagineses com a exigência de que a cidade
deveria entregar todo o armamento que possuísse. Mais uma vez, apesar do seu
nervosismo face a solicitação, os Cartagineses submeteram-se. Diz-se que
entregaram 200.000 panóplias, 2.000 engenhos de guerra de torção e quantidades
enormes de dardos, flechas e munições para catapulta. Como de costume, a
fiabilidade destes números é discutível, sendo óbvio que as fontes romanas
estariam dispostas a exagerar a condição militar da cidade que os Romanos se
preparavam para destruir, mas não restam dúvidas de que grandes quantidades de
armas foram entregues aos representantes de Roma. A chegada ao acampamento romano
do comboio transportando estes equipamentos constituiu o preliminar para uma
ordem ainda mais severa. Censonino informou os embaixadores de que os
Cartagineses deveriam abandonar a cidade de Cartago. A população mudar-se-ia
para uma nova urbe, que instalaria onde lhe aprouvesse, desde que fosse a pelo
menos a 15km do mar. Cartago seria arrasada mas os santuários e cemitérios que
lhe estavam associados ficariam intactos e os Cartagineses poderiam visitá-los.
Foi um golpe devastador, pois a cidade era o centro físico, espiritual e
emocional do Estado. E o corte da ligação de qualquer nova comunidade ao mar,
durante tanto tempo fonte da riqueza púnica, duplicava a magnitude do desastre.
Diz-se que Censorino recorreu a argumentos platônicos para sustentar a opinião
de que o mar exercia uma influência malsã sobre a vida politica e social das
cidades. No fim, os embaixadores foram grosseiramente postos a andar pelos
lictores dos cônsules. No entanto, prometeram apresentar os termos ao seu
governo e até sugeriram que a esquadra romana fizesse uma demonstração de força
na baia da cidade para recordar aos cidadãos a alternativa à aceitação das
exigências romanas. Os rumores tinham-se espalhado rapidamente em Cartago, e
uma multidão ansiosa rodeou os embaixadores quando eles entraram na cidade e
ficaram a espera para apresentarem o seu relatório ao Conselho dos 104. A
exigência romana foi imediatamente rejeitada. Os homens que tinham apelado a
conciliação de Roma foram linchados, bem como alguns infelizes mercadores
italianos que se encontravam na cidade. Os escravos foram libertados e
recrutados para o exército, Asdrúbal foi perdoado e foram-lhe enviadas
mensagens implorando-lhe que auxiliasse os seus ingratos concidadãos. Outro
Asdrúbal, filho de uma das filhas de Masinissa - mais um exemplo dos fortes
laços existentes entre as nobrezas cartaginesa e númida - recebeu o comando na
própria cidade de Cartago. Desta vez, os cidadãos púnicos, na sua totalidade,
empenharam-se de corpo e alma no esforço de guerra. Produziram-se rapidamente
armas, e as mulheres sacrificaram os seus longos cabelos para cordas para as
catapultas de torção. A Terceira Guerra Púnica tinha começado. Os Romanos
ficaram algo surpreendidos com o fato de os Cartagineses decidirem lutar depois
de se terem submetido docilmente a cada uma das suas escandalosas exigências.
Os Romanos tinham dado mostras de um cinismo extremo, dissimulando as suas
intenções de destruírem a cidade enquanto extorquiam o máximo possível de
concessões. Cartago, desprevenida e desarmada, parecia à sua mercê. A verdade é
que a guerra se arrastaria até ao ano de 146 e se revelaria muito mais difícil
do que os cônsules esperavam.
Ao final as tropas romanas venceram o inimigo em
146 a.C., alcançaram a cidade e obrigaram a todos que ali estavam a sair.
Existe a lenda de que foi jogado sal no espaço para que nenhuma outra coisa
voltasse a crescer ali, mas isso na verdade não foi contado por romanos, mas
sim por cartagineses.
No mesmo ano, os romanos terminaram de conquistar a
Grécia e destruíram a cidade de Corintios.
As lutas civis
durante a República Romana
O regime aristocrático de governo predominante
durante o período republicano foi incapaz de administrar o imenso território
conquistado pelo exército romano.
O senado continuava exercendo o monopólio sobre as
principais decisões políticas, excluindo do poder a grande massa de habitantes
das províncias. A passagem do regime republicano ao imperial foi marcada,
portando, por uma série crise econômica e social proveniente do próprio
movimento expansionista.
As disputas pelo poder político em Roma tiveram
início com as propostas de reforma apresentadas pelos irmãos Tibério e Caio
Graco, eleitos tribunos da plebe em 133 e 123 a.C., respectivamente. Tibério
apresentou uma ousada proposta de reforma agrária, causando uma forte reação
por parte da aristocracia patrícia, que mandou assassiná-lo juntamente com
muitos de seus seguidores. Caio Graco, inspirado na concepção de democracia
ateniense, procurou transferir as decisões políticas da esfera exclusiva do
senado para a Assembléia popular. Seu destino, no entanto, não foi muito
diferente do de seu irmão, pois uma nova repressão aristocrática pôs fim às
idéias reformistas, levando-o a cometer suicídio.
O conflito entre os anseios da camada popular e dos
membros da aristocracia prossegue. Após a morte dos irmãos Graco, a disputa
entre Mário - cônsul da República, chefe do partido popular - e Sila -
representante do senado - expressava a intensificação das lutas políticas. Mais
uma vez, na história da política republicana, predominava a força da elite
conservadora e Sila tornou-se ditador da República.
Durante o governo de Sila, a aristocracia
consolidava seu poder, a medida que o ditador limitava o poder dos tribunos da
plebe. Os plebeus responderam prontamente através de uma nova revolta, desta
feita liderada por Catilina, senador de grande prestígio popular, o qual
representava os interesses desta camada social. No entanto, o orador Cícero
(cônsul da República) através de inflamados discursos denunciou a conspiração
de Catilina, acusando-o de tentar um golpe de estado e transformando-o em
inimigo de Roma.
Os triunviratos
Diante do grave quadro de crise política, três
líderes populares, Pompeu, Crasso e Júlio César, impuseram-se diante do senado
estabelecendo um acordo político (60 a.C.) o Primeiro Triunvirato. Após a morte
de um dos triúnviros, Crasso, em 53 a.C., os outros dois Pompeu e Júlio César,
lutaram pelo exercício do poder pessoal. Contando com o apoio popular (possuía
muito prestígio junto à Plebe), César venceu Pompeu e tornou-se ditador da
república romana.
César possuía plenos poderes, e seu governo
indicava uma forte tendência à monarquia. No sentido de atender aos anseios da
plebe, realizou um conjunto de reformas sociais ferindo os interesses da classe
dominante. Ele procurou unificar o mundo romano ampliando o direito à cidadania
romana aos habitantes das províncias; promoveu a fundação de várias colônias
fora da Itália; reformou o calendário romano utilizando seu nome para designar
o sétimo mês (daí a denominação Julho); organizou as finanças públicas,
proibindo o abuso do luxo, e construiu diversas obras públicas (estradas em
todos os domínios do Império, melhorias em Roma, drenagens dos pântanos, etc.).
Dentre as novas leis que atingiam diretamente os privilégios da aristocracia,
devemos destacar a obrigação de os proprietários empregarem pelo menos um terço
dos homens livres em suas terras e a introdução de cidadãos estrangeiros no
senado.
A aristocracia romana, despojada de muitos de seus
privilégios e temendo que César concentrasse o poder em suas mãos, tornando-se
imperador, resolveu assassiná-lo, procurando restaurar o regime republicano.
Contudo, a morte de Júlio César revolto a camada popular, tornando ainda mais
acirrada a disputa entre os defensores de um governo pessoal e absoluto e
aqueles que defendiam a restauração da republica. Os responsáveis pelo
assassinato de César - os republicanos Cássio e Brutus - tentaram tomar o
poder, mas foram impedidos por Marco Antônio, importante líder
"cesarista" que instigava a massa plebéia contra o senado, evitando a
conspiração restauradora.
Nesse contexto, formou-se
o segundo triunvirato, composto por Marco Antônio, Lépido e Otávio, que dividem
o governo das províncias entre si: Marco
Antônio comandaria o Oriente; Otávio, o ocidente; e Lépido, a África. No
entanto, a rivalidade entre os triúnviros logo provoca a passagem da ditadura
coletiva para a ditadura pessoal e, consequentemente, desta para a instauração
da Monarquia. Lépido é afastado pelas forças de Otávio, rompendo o equilíbrio
do poder e gerando o confronto com Marco Antônio. Este rompeu definitivamente
com Otávio e, ao se aliar com Cleópatra no Egito, fortaleceu sua base militar
no Oriente.
Otávio, visando tomar o Egito, fortalece seu
exército e inicia uma campanha para derrotar Marco Antônio. Durante a batalha
Naval de Cio, 31 a.C., Otávio consegue finalmente afastar o último dos seus
oponentes, tornando-se senhor absoluto de Roma.
Otávio manteve as instituições republicanas, mas
reduziu o poder do senado e das Magistraturas. Desta forma, Otávio consolida
seu poder pessoal sobre o estado e, ao receber do senado o título de Augusto
(significa sagrado, divino), torna-se definitivamente o primeiro imperador
romano em 27 a.C.
Júlios
Claudianos
Todos estavam cansados de tanta matança e
assassinato. E todos tinham medo de Otávio. Então governando com poderes
parecidos com os dos antigos reis de Roma, ninguém tentou impedi-lo. Ele fez o
povo chama-lo de “Augusto” (que significa o bom) ao invés de Otávio. Augusto
não chamou a si mesmo de ditador como seu tio Julio Cesar havia feito, mas de
“princips” (primeiro cidadão). Ele não desmobilizou o Senado, mas o fez aprovar
todas as reformas que quis. E fez a si mesmo um Tribuno, assim poderia vetar
qualquer coisa que o Senado aprovasse e que lhe desagradasse.
Augusto viveu um longo tempo, até 14 d.C. Seu genro
Tiberio, assumiu o cargo de princips após a sua morte. Tibério nem de longe
lembrava a genialidade da administração de Augusto. E gastava seu tempo nadando
e realizando grandes festas, deixando boa parte do trabalho para seus
assistentes. Mas aos olhos do povo esta situação era melhor do que a guerra
civil.
Tiberio morre em 37 d.C., e seu sobrinho Germanicus
Gaius, que era melhor conhecido como Caligula(apelido dado em razão de sua
sandália), assume o poder. Caligula não era mal no inicio, mas ao que relata a
história sofria de distúrbios mentais. Após atos como nomear como senador seu
cavalo e tentar casar-se com sua irmã em 41 d.C., o povo se volta contra ele e
é morto pela sua própria guarda. Foi sucedido por Claudio. E após a sua morte
por Nero.
Nero tornou-se imperador romano em 13 de outubro de
54, numa época de grande esplendor do Império Romano. Nos cinco primeiros anos
de seu governo, Nero mostrou-se um bom administrador. Na política, usou a
violência e as armas para combater e eliminar as revoltas que aconteciam em algumas
províncias do império. No tocante às guerras de expansão, Nero demonstrou pouco
interesse. De acordo com os historiadores da antiguidade, empreendeu apenas
algumas incursões militares na região da atual Armênia. Suas decisões
políticas, militares e econômicas eram fortemente influenciadas por algumas
figuras próximas. Entre elas, podemos citar sua mãe, Agripina, e seu tutor,
Lucio Sêneca. O que mais marcou a história de Nero foi o caso do incêndio
que destruiu parte da cidade de Roma, no ano de 64. Porém, de acordo com alguns
historiadores, não é certa a responsabilidade de Nero pelo incidente. O
imperador estava em Anzio no momento do incidente e retornou à Roma ao saber do
incêndio. Os que apontam Nero como culpado baseiam-se nos relatos de Tácito.
Este afirma que havia rumores de que Nero ficou cantando e tocando lira
enquanto a cidade queimava.
O fato é que Nero culpou e ordenou perseguição aos cristãos, acusados por ele de serem os responsáveis pelo incêndio. Muitos foram capturados e jogados no Coliseu para serem devorados pelas feras.
O fato é que Nero culpou e ordenou perseguição aos cristãos, acusados por ele de serem os responsáveis pelo incêndio. Muitos foram capturados e jogados no Coliseu para serem devorados pelas feras.
Além deste episódio, outros colaboraram para a fama
de imperador violento e desequilibrado. No ano de 55, Nero matou o filho do
ex-imperador Cláudio. Em 59, ordenou o assassinato de sua mãe Agripina.Nero se
suicidou em Roma, no dia 6 de junho de 68, colocando fim a dinastia
Julio-Claudiana.
O ano dos 4
imperadores
Galba Otho
Vitellius
Com o fim da família de Augusto, alguns pensaram
que a República voltaria. Mas o medo da guerra civil ainda estava muito
presente então, não havia espaço para tentativas muito ousadas. Com o suicídio
de Nero, o governador da Espanha Galba, decidiu tornar-se imperador. Mas quase
que imediatamente em 69 d.C., o governador da Alemanha, Vitellius também
marchou em direção a Roma para reivindicar o titulo. Os planos de Galba não chegaram
a se concretizar nem pela metade, pois foi assassinado por um de seus homens,
chamado Otho. Otho assumiu o império, mas ainda tinha que lidar com Vitellius
em batalha. Os dois se enfrentam com seus exércitos, e Vitellius vence.
Vitellius é mais lembrado por sua reputação de ser um grande glutão (comilão)do
que pelo governo. Naquele momento a maioria das tropas romanas estava
estacionada na parte leste e oeste da Asia e resolvem apoiar a indicação do
general Vespasiano ao cargo. Em 69 d.C., um dos amigos de Vespasiano enfrenta
Vitellius e o mata. Vespasiano torna-se imperador. 4 diferentes imperadores em
um mesmo ano !
Vespasiano
Flavianos
Vespasiano finalmente deixou o Oeste da Asia e
navegou para Roma na primavera de 70 d.C. Ele tornou-se um bom imperador,
favorecendo especialmente ao exercito. Ele era popular e reservado e não
gastava dinheiro como os anteriores imperadores. Então o império acumulou uma
enorme quantia nos cofres. Vespasiano foi imperador por 10 anos, em morreu em
sua cama no ano de 79 d.C. Quando ele morreu, segundo relatos teria dito:” Oh
meu deus, eu acho que estou virando um deus!”
Quando Vespasiano morreu, seu filho mais velho
Tito, assumiu o império. Quase que imediatamente Tito, teve que lidar com uma
questão importante que foi a erupção vulcânica que soterrou Pompéia. Tito
enfrentou problemas com o Senado devido a sua paixão por uma mulher judia de
nome Berenice, que era uma princesa, mas não era romana. Tito esmagou uma
revolta judia em Israel e destruiu o grande templo de Jerusalém. Mas no geral é
lembrado como um bom imperador. Ele morreu jovem, no ano de 81 d.C., após
governar por três anos.
Tito não tinha filhos, então seu irmão mais novo
Domiciano tornou-se imperador. Domiciano era invejoso e sempre considerou que
seu pai Vespasiano amou mais a Tito do
que a ele. Como imperador tornou-se paranóico e achava que todos tramavam
contra ele. Assim muitos senadores foram acusados injustamente e assassinados.
Ele assim como Nero, perseguiu ferozmente os cristãos. Ele denominava-se
“dominus et deus” (senhor e deus). No fim o povo cansou de seus desmandos e ele
foi assassinado em 96 d.C.
Após o assassinato de Domiciano, o senado para
evitar uma guerra civil escolheu entre si um novo imperador. Eles escolheram
Nerva, que era um homem velho, sem filhos e que com toda certeza não deixaria o
trono nas mãos de um sucessor sanguineo. Em 98 d.C., ele morreu após somente
dois anos no poder. Mas deixou um nova forma de escolha para o cargo. Ele
escolheu alguém que tinha executado um bom trabalho em alguma área política ou
militar e o adotou como filho.
Nerva
O homem que Nerva adotou foi Trajano. Trajano levou
o exercito romano a uma nova conquista contra o exercito da Dácia. A Dácia era
cobiçada a tempos pelos romanos pela sua quantidade de ouro. Trajano também não
tinha filhos e adotou como seu sobrinho Adriano.
Adriano
Adriano manteve a paz em Roma, utilizando de
diplomacia. Quando Adriano morreu em 134 d.C., seu filho adotado Antonio
tornou-se imperador. Antonio é também chamado “ Antonio Pio”, em razão do seu
interesse pela religião. Assim como seus sucessores Antonio, escolheu e adotou
uma pessoa como seu filho para reinar quando ele morresse. Antonio escolheu um
homem crescido, chamado Marco Aurelio.
Antonio Pio
Severos
Marco Aurelio, adotou alguém para lhe suceder. Seu
filho se chamava Comodo, e quando Marco Aurelio morreu em 180 d.C., passou a
comandar o Império Romano. Mas Comodo, como os Julio Claudianos ou como
Domiciano, havia crescido na corte e se preocupava muito mais em aproveitar a
vida do que governar. Ainda assim um ponto positivo de seu governo, foi a
negociação de paz com os bárbaros germânicos. Mas quando depois da negociação
ele retorna para Roma, sua irmã Lucilla com ajuda de alguns senadores tenta
mata-lo. Comodo torna-se paranóico como Domiciano e assassina vários senadores
e pessoas do povo por desconfiança. No final é assassinado pelos seus amigos
mais próximos. O caos volta a reinar, sem que se saiba quem pode mesmo
governar.
Em 193 d.C., um Africano de nome Séptimo Severo,
que era general romano na região tornou-se imperador com o apoio do exercito.
Ele acaba derrotando os outros candidatos e sua ameaça mais séria, Clodius
Albinus também africano e governador da Bretanha.
Séptimo Severo
Septimo Severo morre em 211 d.C. Ele deixa no
comando do império seus dois filhos, Caracala e Geta. Deixa a instrução para um
cuide do outro, do exército e não lutem entre si.
A crise do terceiro século
Em 200 d.C., (terceiro século), o Império Romano
passava por um periodo difícil. Os motivos podem ser citados com os constantes
ataques a oeste e norte por tribos
bárbaras. Era muito caro manter o exército e enfrentar as duas ameaças. Também
havia um aumento significativo das taxas o que deixava a plebe muito
insatisfeita. Essa insatisfação acabou gerando revoltas. Por causa da
irregularidade no poder, pois muitos imperadores acabavam morrendo com traições
ou nas batalhas, os governos passaram a ser muito curtos e inexpressivos.
Por volta do ano 280 d.C., os ataques cessaram em
número no leste, e o império romano pode concentrar esforços na luta no norte,
contra as tribos germânicas. Mas na mesma época surgiram revoltas dentro do
império. Essas revoltas foram eliminadas por um jovem e talentoso imperador
chamado Deocleciano. Deocleciano subiu ao trono em 284 d.C., e como outros
imperadores era também um general. Deocleciano propôs e pôs em pratica uma
divisão de poder em que haveria dois imperadores e este contariam com dois
assistentes diretos. Este sistema é a chamada “tetrarquia” ou governo dos
quatro. Quando um imperador morria, o assistente tornava-se imperador e
escolhia um novo assistente
Deocleciano
A tetrarquia de Deocleciano funcionou muito bem por
volta de 20 anos. Mas em 306 d.C., um dos imperadores, Constantino morreu e
deveria ser sucedido pelo seu assistente Severo. Mas ele tinha um filho que
também se chamava Constantino, que declara guerra contra Severo quando o pai
morre pelo poder.
Em uma das batalhas em 312 d.C., Constantino
enfrentaria o próprio genro, Maxentius. A batalha aconteceria as portas de
Roma. As tropas de Constantino estavam e menor número. A noite antes da batalha
Constantino, teria tido uma visão com um símbolo cristão. No sonho uma voz lhe
dizia “ in hoc signo vinces” (com este símbolo vencerá). De acordo com a
historia Constantino, na manhã seguinte teria visto cruzando o céu um objeto
que desenhou em sua trajetória o mesmo símbolo. Imediatamente Constantino
mandou que os soldados pintassem nos escudos o símbolo e partiu para a batalha vencendo-a. Constantino estava
muito impressionado com o poder do deus Cristão e tornou-se cristão e fez do
cristianismo a religião oficial de Roma. Em 324 d.C., Constantino matou todos
os seus adversários e no mesmo ano fundou uma capital no leste em Constantinopla.
A ideia era poder se deslocar mais rapidamente ao centro da batalha no leste ou
no norte sem dividir as forças.
A queda
O Império Romano do Ocidente resistia há mais de um
século aos ataques dos seus inimigos exteriores,mas as suas fronteiras do Reno
e do Danúbio permaneciam incólumes, apesar dos inúmeros sinais que profetizavam
apróxima catástrofe. Nesta altura, era visívela miséria e degradação que
reinavam nas províncias, esgotadas pelomantimento dos exércitos e pela vida
fausta dos imperadores. Entre os sintomas mais graves da ruína, contavase: a
diminuição da população e, consequentemente, dos contribuintes e dos possíveis
soldados; o número cada vez maior de terras ermas, abandonadas pelos seus
proprietários ou cultivadores para escapar
às exigências do fisco; osconstantes
motins ou insurreições, tanto no campo como nas grandes cidades.
Recentemente descobriu-se
que,provavelmente, uma epidemia de malária pode ter enfraquecido a população
romana na Itália e dizimado muitas vidas.
A penúria
agravava-se com as guerras civis e a rapacidade dos tiranos; mas,
sobretudo, pelas incursões dos bárbaros,que aproveitavam todas as ocasiões para
entrar em domínios de Roma e saquear as províncias. Entre os
povos"bárbaros", destacam-se
os Francos e Alamanos na fronteira das Gálias, os Pictos e Escotos na
Bretanha, os piratas saxões em ambas as
costas; os Quados, Sármatas e, sobretudo, os Godos no Danúbio, que penetravam
na Panónia eMésia, chegando até à Macedónia e Trácia.
A política, inaugurada pelo próprio Augusto, de
estabelecer colónias bárbaras dentro dos limites do Império e formar com elas
grande parte dos exércitos romanos, teve como resultado a sua influência
crescente, que se revela nos nomes de Arbogasto, Estilicão e Rufino. Destes bárbaros,
estabelecidos no Império, partiram os primeiros ataques contra Roma. Os
Visigodos, estabeleceram-se a sul do Danúbio com Teodósio. Dirigidos por
Alarico e em nome do imperador do Oriente, ocuparam o Ilírico e a partir daí
desolaram a Grécia, que pertencia ao Império Ocidental. Em 396, Alarico,
perante o general de Honório, Estilicão, retirou-se novamente para a Ilíria e
no ano 400 mudou-se com todo o seu povo para o Sul dos Alpes depois da terrível
batalha de Pollentia, deixou a Itália até ao ano de 408, ano em que, sem
qualquer oposição, marchou contra Roma, que só pode salvar-se mediante um forte
resgate. Como as suas exigências, bastante moderadas, não foram atendidas por
Honório, voltou a atacar Roma e obrigou Augusto a declarar guerra ao grego Átalo,
tornando-se Alarico o seu comandante-em-chefe. Poucos meses depois, depôs o
inapto Átalo e sitiou e saqueou Roma (410). O seu sucessor, Ataúlfo, guiou os
Visigodos para as Gálias. Esta sucessão de eventos demonstra a anarquia
reinante no Oeste, permitindo a Ataulfo lutar nas Gálias a favor de Honório e
contra os Francos e, em Espanha, contra os Vândalos, Suevos e Alanos.
Finalmente, Vália, sucessor de Ataulfo, estabeleceu-se na Gália ocidental com o
consentimento de Honório, e fundou a monarquia visigótica. Nesta altura, também
sob a égide imperial, a Espanha dividiu-se entre godos, suevos, vândalos e
alanos. Estes últimos cruzaram o Reno e foram vencidos em Itália por Estilicão,
tendo penetrado na Península Ibérica, até então livre de invasões, através das
Gálias.
Honório morreu no ano 423. As províncias, à exceção
da Bretanha, não tinham cortado formalmente os laços com o Império. A
autoridade deste era simplesmente nominal e nas províncias estavam já em
processo de formação os novos estados bárbaros. Ao longo do reinado de
Valentiniano III, que sucedeu a Honório, destacam-se o estabelecimento dos
Vândalos em África e a invasão dos Hunos de Átila. Os primeiros foram chamados
pelo conde de África, Bonifácio, pelo ódio que nutria por Aício, conde de Itália,
e em 440 tinham-se fixado definitivamente naquela região, se bem que
reconhecessem a autoridade de Roma. Em 451, Átila invade as Gálias, acompanhado
por tribos germânicas do Reno e do Danúbio, mas foi detido em Châlons pelos
Visigodos e Romanos, unidos, a mando de Aécio, e teve que retirar-se para
Panónia, a partir de onde, no ano seguinte, invadiu a Lombardia. Com o
assassinato de Valentiniano III (455), o ramo ocidental da família de Teodósio
extinguiu-se. Contra o assassino Petronio Máximo, a imperatriz Eudóxia chamou
os Vândalos de África, que não só mataram Máximo como também assolaram Roma.
Principalmente devido à prisão do rei visigodo Teodorico II, Avito foi nomeado
para o trono (455-456), mas o poder foi exercido pelo suevo Recimero, o qual nomeou
e destronou imperadores de acordo com os seus caprichos; primeiro Majoriano
(457-461), seguidamente, após as suspeitas pelo seu empenho em restabelecer o
prestígio do Império, Libio Severo (461-465); depois de um interregno de dois
anos, seguiu-se Antémio (467-472), e, finalmente, em 472, por pouco tempo,
Olíbrio. Com a morte de Recimero e de Olíbrio (472), seguiram-se Glicério
(473), Júlio Nepos (474-475) e, por fim, Rómulo Augústulo.
Porém os povos germânios, que exigiam uma terça
parte das terras italianas, insurgiram-se contra Orestes e puseram à sua frente
Odoacro, rei dos Hérulos, que obrigou Rómulo Augústulo (476) a retirar-se e
fez-se proclamar rei da Itália. Os povos vieram com ele e fixaram residência em
Itália, sendo-lhes distribuído um terço das terras. Todo o ocidente do Império
caiu na posse dos povos germânicos. Este acontecimento acabou por determinar as
mudanças operadas no resto do Império. Em Espanha, Gália e África foram
estabelecidos novos reinos bárbaros, mas em Itália continuou a reconhecer-se a
supremacia do imperador de Constantinopla. O novo rei, por outro lado, foi
investido da dignidade patrícia que antes dele tinham ostentado Aécio e
Recimero.
As leis, a administração e a língua continuaram
romanas, no entanto, a emancipação da Itália e de todo o Ocidente da influência
imperial direta é considerada, com razão, como acontecimento que assinala a
abertura de uma nova era. Este evento tornou possível o desenvolvimento da
cultura germano-romana, facilitou o nascimento de diversos estados e
nacionalidades, deu novo impulso à influência da Igreja cristã e levou à
criação dos fundamentos do poder dos Pontífices.
Mesmo com o fim do Império romano ocidental, o
Império Oriental ou Bizantino não caiu, mas os turcos otomanos, em plena ascensão,
conquistaram o a Ásia Menor bizantina no princípio do século XIV. Depois de
1354, ocuparam os Balcãs e finalmente tomaram Constantinopla, o que representou
o fim do Império Oriental em 1453.
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